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13 de maio de 2013

O desencontro do encontro | The mismatch of the encounter

Ele amava-a, mas ela não sabia. Viam-se todos os dias no comboio, e pousavam demoradamente o olhar um no outro. Não sorriam, e as expressões faciais não eram fáceis de ler. Ela entrava na estação da Cruz Quebrada, ele já vinha de trás. Ela não conseguia perceber de onde, mas a sua origem pouco lhe importava; o destino era o mesmo. Ela saciava o seu velho hábito de leitura, fazendo-se acompanhar por russos e suecos, norte-americanos ou espanhóis. Ele distraía-se com um tablet onde escorregavam os seus dedos, e de quando em vez erguia o olhar para se cruzar propositadamente com o dela. Não importava que houvesse pessoas de pé, a interpor-se na sua direcção: eles já conseguiam ver-se através da opacidade. Ele queria saber mais dela, para lá da cor dos olhos, da rebeldia dos caracóis e do eclecticismo dos livros. Ela montava puzzles com o intuito de construir a história dele: vestia um fato cuidado, sinal de emprego sério; ostentava gravatas impecáveis, sinal de estatuto; carregava uma mala de pele preta de marca cara, sinal de opulência. Ele esforçava-se para perceber qual seria a agenda dela em cada dia. Ela imaginava que ele teria uma agenda preenchida. Saltavam ambos para fora do comboio no Cais do Sodré. Se saísse primeiro da carruagem, ele pousava a mala e fingia um gesto faustoso, apenas com o desígnio de se deter junto às máquinas dispensadoras dos bilhetes, enquanto a apreciava no seu frenesi diário. Ela corria até à porta que dava acesso à rua, e no final voltava o rosto para o ver uma última vez naquele dia. Todos os dias ela tinha medo que aquela fosse a última de sempre. Quando ela voltava o rosto, a sua boca estava ligeiramente aberta, lábios tensos. Uma mecha de cabelo cobria-lhe superficialmente a face, e sombreava o brilho intenso do olhar. Ela não sabia, mas aquele era o ponto alto do dia dele: quando ela não se esforçava para ser bonita, ele via-a como o supra-sumo de tudo o que é belo. Ela lia-lhe charme e sentia-se atraída pelo seu ar enigmático, emoldurado por cabelos fartos, a fugir para o grisalho. Ela amava-o, mas ele não sabia.


He loved her, but she did not know. They saw each other in the train every day and laid down the look at each other at length. They didn’t smile, and the facial expressions were not easy to read. She entered in the Cruz Quebrada station; he came from somewhere back. She could not tell from where, but his origin mattered little; their destiny was the same. She sated her old habit of reading, being accompanied by the Russians and the Swedes, the North Americans and the Spaniards. He amused himself with a tablet in which their fingers slipped; now and then he lifted his gaze to cross with hers on purpose. They never minded people standing, just like obstacles on their direction: they could see each other already through opacity. He wanted to know her better, beyond her eye color, the rebellion of her curls and the eclecticism of her books. She rode puzzles in order to build his story: he wore a neat suit, sign of a serious job; he flaunted stylish ties, sign of status; he carried a black leather handbag of an expensive trade mark, sign of opulence. He struggled to understand what would be her schedule of the day. She imagined that he would have a busy schedule. Both jumped out of the train at Cais do Sodré. If he left the carriage first, he rested his handbag and pretended a stately gesture, only with the purpose of stopping next to the ticket vending machines, while appreciating her daily frenzy. She ran to the door leading to the street, and at the end she would turn to see him one last time that day. Every day she was afraid that that was the last time ever. When she turned her face, her mouth was slightly open, her lips tight. A strand of hair covered her face slightly, and shadowed her look. She didn’t know, but that was the high point of his day: when she did not strive to be beautiful, he saw her as the pinnacle of all that was beautiful. She read charm in him and was attracted by his enigmatic appearance, framed by filled and almost gray hair. She loved him, but he did not know.

24 de março de 2013

Conhecendo-me. Dando-me a conhecer.

Fui desafiada a desvendar-me um pouco mais, e partilho. Para ler aos bocadinhos, saborear aquilo que sou e digerir o que te aprouver de mim. Lê hoje e volta amanhã para ler o resto. Não tenhas pressa. Eis-me assim:

Se fosse Mário de Sá Carneiro diria que era
qualquer coisa de intermédio entre mim e outra.
Mas eu sou apenas eu, com todos os defeitos
e virtudes daí inerentes.
De cabelo ondulado e rebelde,
há quem diga que este é reflexo do que sou.
Tenho pele trigueira e nariz empinado,
mas nunca fui fria ou calculista.
Já me chamaram de arrogante
e acusaram-me de ter pêlo na venta.
Não percebem que sou apenas entregue aos meus pensamentos,
e muito, muito solitária.
Gosto de boas companhias, e gosto de me acompanhar.
Gosto de sorrir em público, e choro muito em privado.
Nasci perto do mar,
e isso justifica os horizontes alargados.
Quis ser espírito livre,
mas fui apanhada nas amarras do tempo
e no engenho social.
Já quis fugir de tudo,
e já cheguei a fugir de casa.
Dormi ao relento, senti frio, voltei.
Gosto do meu nome,
e não me podia identificar mais com o meu signo e ascendente.
Gosto das manhãs de sol quente no Inverno,
e dos fins de tarde de brisa fresca no Verão.
Não era capaz de viver num país tropical.
Gostava de viver num país cultural.
Dei o meu primeiro beijo aos 12 anos e não gostei.
Hoje penso que reside mais efervescência num beijo
do que em todo um corpo nu.
Tive o meu primeiro desgosto de amor já depois do quarto de século.
Não soube sofrer por isso.
Sou sensível e de lágrimas fáceis.
Choro por mim, choro pelos outros,
e choro quando me sinto estranhamente feliz!
Quis ser professora e fui à conquista do sonho.
Desisti no auge, experimentei Gestão,
depois Marketing, voltei à origem, e de novo à Gestão.
Tenho ânsia de fazer sempre coisas novas.
Falo Inglês, falo Alemão e falo Espanhol.
Gosto de ler nos originais.
Sou viciada em aprender e gosto quando me pedem para ensinar.
Gosto quando me reconhecem polivalência.
Gosto quando me reconhecem profissionalismo.
Tenho valores enraizados, e não gosto quando os deturpam.
Não me arrependo do que faço.
Embora não me orgulhe de algumas entregas mais precipitadas.
Porém nunca tentei apagar o meu passado.
Já caí e aprendi a levantar-me.
Até que caí de novo e levantei-me sozinha.
Caí mais uma vez.
E percebi que nasci para ser uma criança grande sempre a tombar
e a aprender sempre com isso.
Não sou igual a ninguém
e já me disseram que o mundo não estava preparado para mim.
Não gosto quando as pessoas tomam o que as rodeia
como uma verdade absoluta.
Gosto de pessoas interventivas
e quero sempre fazer parte das indagadoras.
Por vezes gosto de me desligar do que me circunda.
O meu mundo seria cor-de-rosa se não contivesse injustiça.
Defendo os fracos.
Já fiz voluntariado com crianças.
Já fiz voluntariado para a 3ª idade.
Depois percebi que existe uma enorme gratidão em trabalhar com animais.
Sentir-me-ia feliz se pudesse trabalhar mais por eles e para eles.
Deixei de comer carne
quando decidi que queria ter um leitão de estimação.
Deixei de comer peixe
quando vi um ser pescado e consequentemente morrer sufocado.
Já tive o cabelo de todas as cores.
Aos 15 anos pintei de roxo
e aos 20 de laranja.
Actualmente está em degradé
porque não gosto de monocromias.
Gosto de cantar.
Canto no carro, quando conduzo sozinha,
e debaixo do chuveiro com a água escorrida a disfarçar o desafinado.
Já pensei em frequentar aulas de canto
mas continuo a preferir escrever do que exteriorizar.
Já pratiquei todos os tipos de desporto,
mas não consigo fazer disso um hábito.
Assim como assim, de vez em quando gosto de natação.
O relógio biológico despertou tarde,
mas em fervor.
Já estive grávida duas vezes,
mas tenho o colo vazio.
Gosto de música, de poesia, de teatro e de cinema.
Ver-me-ia no futuro a fazer arte.
Ver-me-ia no futuro ligada a um lado mais espiritual.
Ver-me-ia no futuro em qualquer outro lado,
vestida de qualquer outra forma,
com outros amigos quaisquer,
a viver uma vida que não é a minha.
Já fui a festas. Já estive em muitas festas.
Já sorri para muitas objectivas.
Hoje sei que não é lá que encontro as pessoas que quero
realmente conhecer.
Sou apaixonada. E sou lunática.
Sou apaixonada pelas coisas belas da vida.
Sou apaixonada pelo sol.
Sou apaixonada pela intensidade com que as coisas acontecem.
Se me dou, é sempre a 100%.
Tal como nas melhores máquinas,
não fico por menos daquela que é a potência total.
Já tentei impressionar alguém.
E já impressionei sem esforço.
Já conquistei sem ser conquistada.
Já fui conquistada sem conquistar.
Construí paradoxos e vivi na discordância.
Gosto de homens bonitos.
Mas sempre fui tentada por aqueles
que sabem conversar.
Sou capaz de passar horas a trocar experiências.
É para mim um dos mais belos prazeres da vida.
Passei 3 décadas a recusar a ideia de me entregar para sempre,
mas houve alguém que, involuntariamente,
me fez perceber quão essa entrega pode valer a pena.
Sou perfeccionista
e por isso demasiado exigente comigo e com os outros.
Gosto do meu sorriso.
Gosto de sorrir.
Não gosto das marcas do tempo no meu rosto.
Tenho medo de envelhecer.
Tenho medo de não chegar a viver o que anseio.
Gosto de banhos de espuma.
Mas não os fiz mais quando ouvi falar na seca.
Adoro oferecer presentes.
E seria irónica se dissesse que não gosto de receber.
Gosto que me ofereçam livros.
Gosto do cheiro de livros.
Gosto de cheiros. Gosto de aromas e fragrâncias.
Gosto de perfumes.
Gosto de identificar as pessoas com o seu perfume.
Tenho um fetiche por relógios,
e somo mais de 70.
Vou trocando aleatoriamente,
e nunca, nunca, chego atrasada.
Não gosto que me façam esperar.
Ninguém, para além de mim, deve ser dono do meu tempo.
Do alto dos meus 165 centímetros
tenho um complexo de altura.
Raramente me vêem sem saltos altos.
Já roí as unhas.
E parei quando tive vergonha das minhas mãos.
Hoje trago-as compridas para compensar o passado.
Passo muito tempo na internet.
Mas não tenho vícios.
E detesto pessoas que precisam de artifícios.
Por favor não fumem junto de mim.
Por favor não bebam em demasia quando estão comigo.
Eu mostro como é possível divertirmo-nos sem mais nada.
Não uso drogas, nem nunca usei.
Nunca experimentei sequer.
Mas fiz parte de grupos de risco.
Vi amigos enveredarem por caminhos duvidosos.
Mas tive sempre o seu respeito por não ceder, mesmo estando junto deles.
No liceu dava-me igualmente bem com os populares e os intelectuais.
Ainda hoje tenho amigos de todos os géneros.
Gosto de estar com todos eles em alturas diferentes.
Não gosto que me olhem de lado.
Fico furiosa com mentiras.
Odeio a hipocrisia e a inveja.
Mas tenho um íman que atrai o que mais abomino nos outros.
Gosto de dormir. Mas não quero deixar de viver para o fazer.
Gosto de filmes.
Serão perfeito é ficar enroscada no sofá em frente do televisor.
Gosto de dramas. Não gosto de ficção.
Já gostei mais de filmes agressivos.
Vi o meu primeiro filme romântico aos 24 anos,
e chorei.
Sou curiosa. E orgulhosa.
Mas gosto de perdoar e ser perdoada.
Já fui traída por amigos.
Mas aos verdadeiros perdoei o erro mais grave.
Li “O Principezinho” quando tinha 14 anos
e senti-me altruísta.
Decidi inspirar e partilhar fé
e fui catequista.
Fui boa aluna no liceu.
Gostei da Matemática e das Línguas,
e revelei pouca apetência para a Geografia
ou para os Trabalhos Manuais.
Na faculdade cheguei a tirar 0,2 numa cadeira
que concluí mais tarde com 16.
Sou determinada e decidida.
Se é para fazer, então que seja bem.
Já gostei muito de preto.
Hoje gosto muito de me rodear de muitas cores.
Já me viram com áurea azul.
Mas também com vermelha.
Nunca me explicaram o que isso queria dizer!
Sou equilibrada.
Mas muito inconstante.
O que hoje é,
pode facilmente deixar de ser amanhã.


Eu, debaixo da objectiva da Ana Luísa.

[Obrigada por me desafiares, Vivi. Gosto destes exercícios.]


I'll translate this post as soon as possible. Please come back here another time. Thank you. .¸¸.*

7 de março de 2013

Ficcionismo Pessoano | Pessoan Fictionism

Se Pessoa tivesse um blog chamar-se-ia «Eu nos outros» ou «Os outros em mim». O blog teria como temas a vida, o amor e a ventura, e o seu principal seguidor seria Mário de Sá-Carneiro. Almada Negreiros abriria uma conta no GMail só para o poder comentar. Ofeliazinha lê-lo-ia enamorada, encontrando em cada palavra o conforto emocional que apagasse o ímpeto insaciável com que ele a deixaria em encontros pessoais.

Se Pessoa tivesse um blog escreveria sobre como os astros comandavam a sua vida e atrasar-se-ia na resposta aos comentários. Convidaria Alexander Search para traduzir as suas postagens em Inglês. Álvaro de Campos seria activo postador para preencher os dias vazios de emprego, e escreveria sobre o opiário oriental. Teria mulheres histéricas como comentadoras, e sentir-se-ia enlouquecido de prazer. Ricardo Reis aceitaria ser intruso no blog, e enviaria sobretudo crónicas do Brasil, e exercícios de auto-conhecimento e estoicismo. Caeiro, homem simples e de pouca instrução, teria dificuldades em criar o seu perfil no blogger, e apareceria apenas de quando em vez, nos dias em que o frio o impedisse de sair com o rebanho. Bernardo Soares seria também desafiado a ser membro, e após meses de pragmatismo renunciante, aceitaria com algo a acrescentar. Escreveria fragmentos quotidianos, e eu ansiaria pelos dias em que decidisse brindar-me com a sua presença. Clarinha pediria a Pessoa que digitalizasse os seus desenhos de flores, e Ivo Vieira seria activo homossexual em referências fálicas. Érica Carina, eterna antítese deste último, apareceria uma só vez para nos oferecer a sua morada e seus préstimos, e Aurélio dos Anjos viria dar conselhos sobre a intolerância à lactose e a demolha de bacalhau.

Se Pessoa tivesse um blog sentar-se-ia com o seu notepad à mesa d’A Brasileira, e dactilografaria com a mão direita, enquanto a esquerda ergueria o chapéu em jeito de cumprimento às transeuntes apressadas. Olhá-lo-íamos em desdém, fraca figura de estranheza, ignorando a inquestionável genialidade que haveria de oferecer à humanidade. Se Pessoa tivesse um blog o seu arquivo chamar-se-ia “A Arca”, e a sua última postagem diria apenas «I know not what tomorrow will bring».



If Pessoa had a blog it would be called «Me in the others» or «The others in me». The themes of the blog would be life, love and chance, and his main follower would be Mário de Sá-Carneiro. Almada Negreiros would open a GMail account just to be able to comment. Ofeliazinha would read it in love, finding in each word the emotional comfort to erase the insatiable urge which was left in her after personal encounters.

If Pessoa had a blog he would write about how stars would impel his life, and he would be late answering to its comments. He would invite Alexander Search to translate his posts in English. Álvaro de Campos would be active playwright, so he could fill in his days without a job, and he would write mainly about his trip to orient. He would have hysterical women commenting, and he’d feel mad with pleasure. Ricardo Reis would accept to be an intruder in the blog, and he would mainly send chronics from Brazil, and exercises of self-knowledge and stoicism. Caeiro, a simple man with little education, would find it difficult creating a blogger profile, and would only show up from time to time, in the days when cold prevented him from leaving with the flock. Bernardo Soares would also be challenged to become a member, and after months of resigning pragmatism, would accept with something else to offer. He would write fragments of his daily life, and I’d long for the days in which he’d offer me the pleasure of his presence. Clarinha would request that Pessoa digitalized her flower draws, and Ivo Vieira would be active making phallic references. Érica Carina, eternal antithesis of the latter, would only show up once to offer us her address and her subservience, and Aurélio dos Anjos would come to give advices about lactose intolerance and cod soaking.

If Pessoa had a blog he would seat with his notepad on a table in A Brasileira and type with his right hand, while the left would lift his hat greeting the passersby. We would look at him with disdain, given his weak figure of strangeness, ignoring the unquestionable geniality he would offer humanity.

If Pessoa had a blog his archive would be called “The Ark”, and his last post would only say «I know not what tomorrow will bring».

26 de fevereiro de 2013

Podia acontecer-te: uma história sem parágrafos | It could happen to you: a story in one piece

Apaixonou-se às primeiras teclas. Ela era exactamente assim, de coração fácil. Sorvia cada palavra dele em busca de um sinal, e oferecia-se em respostas sedutoras. Durante meses alimentaram uma fantasia que podia estar na base de uma qualquer comédia romântica de Domingo à tarde. Um dia ele enviou-lhe uma fotografia sua: era feio. Feio como aqueles homens feios por quem passamos na rua e ficam guardados no nosso pensamento de tão desengraçados que são. Ela estava tão ébria de paixão que o viu bonito. Devolveu-lhe o gesto oferecendo-lhe aquela fotografia onde ela se julgava mais gira, mais atraente. Quando a viu ele ficou sem fôlego e exclamou: «é linda»! Já não podiam esperar mais; tinham de encontrar-se. Apanharam um comboio na mesma linha, mas em direcções diferentes: ele desceu do norte, ela subiu do sul. Decidiram encontrar-se num ponto intermédio e logo ao primeiro abraço envolveram-se num beijo que guardava desejos alimentados e recalcados. Já não tinham mais palavras a dizer; tinham sido ditas durante os meses de corte. Acorreram a um quarto alugado e já só adormeceram quando começavam a ouvir-se na rua os barulhos daqueles que acordam cedo para servir os demais: o padeiro, o ardina, o motorista de autocarro, os cantoneiros da câmara. Olharam-se assim, de cabelos revoltos e olhos remelados, sob a cruel e crua cor matinal. Continuaram sem trocar uma palavra. Vestiram-se emudecidos, e fizeram o check-out. Apanharam ambos um comboio em linhas inversas, ali por volta do meio-dia. Voltaram às suas vidas e nunca mais tornaram a visitar o blog um do outro.


She fell in love at the first keys. She was exactly like this, with an easy heart. She would sip every little word of his looking for a sign, and would offer herself in seductive answers. During months they fuelled a fantasy that could be the basis of some romantic comedy of a Sunday afternoon. One day he sent her his photograph: he was ugly. Ugly like those ugly men with whom we cross, and get stuck on our minds because of their ungracefulness. She was so drunk with passion that she saw him handsome. She returned the gesture giving him that photo where she judged herself pretty, more attractive. When he saw her he stood with no breath and shouted: «she’s beautiful»! They couldn’t wait any longer; they had to meet each other. They caught up a train on the same line, but in different directions: he went down from north; she went up from the south. They decided to meet in a midpoint and by the first cuddle they engaged in a kiss that kept nourished and repressed desires. They had no more words to say to each other; they had all been spoken during the months of courting. They rushed to a rented room and could only fall asleep when the noises of the ones who rise early to serve the others started being heard: the baker, the newspaper vendor, the bus driver, the city hall roadmender. They looked at each other like this, with wild hair and dirty eyes, under the cruel and raw morning colour. They went on without exchanging a word. They dressed up muted, and checked-out the hotel. They both caught up a train in backward lines around noon. They went back to their own lives and never visited each others blog anymore.

25 de fevereiro de 2013

Um post sem eira, nem beira

Voltar ao trabalho após duas semanas de inactividade dá-me cócegas no córtex pré-frontal. Ainda por cima saí de casa às 8h, para voltar apenas 12h depois. O dia deixou-me tão seca de tudo, e de qualquer inspiração, que quando me enfiei no bólide para conduzir para casa, brotou-se-me na cabeça uma rima estúpida e viciante, e que canta mais ou menos assim:

oh segunda-feira matreira
ameaças a minha semana inteira
apareces assim, derradeira
e eu não posso com a tua peneira

odeio-te, como quem odeia uma qualquer nojeira
és tão seca, que me dás soneira
e só porque tu és realmente foleira
estas rimas não foram senão uma parvalheira

querias ode de sobremaneira?
não me aparecesses à frente a vida inteira


Assim, sei pontuação ou maiúsculas. Eu avisei no título que isto não tinha jeito nenhum.

This post has no translation, once it has portuguese rhymes. Please come back here another time. Thank you .¸¸.*

19 de fevereiro de 2013

A fábula que escrevi para um(a) filho(a) que não tenho (1) | The fable I wrote to a child I don't have #1

*****Era uma vez a Fada Emoções. Ela vivia na aorta de todos os meninos e meninas, e com o seu condão conduzia as coisas que eles e elas sentiam. Durante anos e anos ela habitou despercebidamente naquele lugar e de quando em vez fazia cócegas por dentro aos meninos e às meninas, só para perceber o resultado da sua magia.
*****Só que um dia o Coração reparou nela e o seu coração começou a bater mais forte. Vieram as borboletas no estômago do Coração, as lágrimas de nostalgia nos olhos do Coração e as promessas de amor na boca do Coração.
*****Mas a Fada Emoções, com uma ordem de trabalhos bem definida, tentou explicar ao Coração que o coração dela não podia ser só dele, pois ela tinha de habitar e trabalhar em biliões de sítios ao mesmo tempo -- embora fosse sempre o mesmo sítio: a aorta dos meninos e das meninas do mundo inteiro. Mas eram muitas aortas.
*****O Coração não percebeu porquê, e ficou com o seu coração partido. Imediatamente expulsou-a da sua aorta. E os meninos e as meninas deixaram de sentir cócegas, de chorar, de ter pêlos eriçados  ou de se zangar. As mães dos meninos e das meninas ao início não perceberam e até gostaram da ausência de emoções. Eles e elas comiam sempre a sopa sem fazer birras, dormiam sem pesadelos, e não empurravam as mães quando elas os abraçavam. Mas também não as abraçavam de volta, e foi quando as mães dos meninos e das meninas do mundo se uniram para perceber o que tinha acontecido à Fada Emoções.
*****Foram um dia encontrá-la na planta do pé, esmagada como uma pomba atropelada mil vezes. As mães dos meninos e das meninas perguntaram o que tinha acontecido, e ela disse que o Coração lhe havia entregue o seu coração, mas que ela não o tinha aceite, e o Coração ficou com o coração destroçado. Contou como tinha sido expulsa da aorta. As MUMs (Mães Unidas do Mundo) reuniram com o Coração e explicaram que ele não podia deixar a Fada Emoções na planta do pé.
*****O Coração chorou lágrimas tingidas de vermelho e foi quando as mães perceberam que tinham de encontrar alguém que lhe devolvesse o seu coração. Havia de haver alguém capaz de remendar o coração do Coração. Falaram com os Rins, mas eles disseram que já tinham par. Os Pulmões disseram que viviam bem um com o outro. O Estômago disse que não se queria relacionar com ninguém que estivesse acima dele, e a Cabeça recusava-se a descer para o visitar. Foi então que decidiram procurar uma solução exterior. Pensaram, pensaram, pensaram… e foi quando perguntaram à Mão-Direita se queria amar o Coração.
*****A Mão-Direita não teve dúvidas de que aquele havia sido o pedido mais estranho que lhe fizeram, mas curiosa como ela é, tocou o Coração para o sentir. Ao início o ritmo dele era lento, mas depois começou a acelerar. E a Mão-Direita, com a sua natural capacidade de tocar e afagar, gostou de sentir aquele pequeno órgão na sua mão, afinal todo ele era meio-quilo de emoções e palpitações. As MUMs convenceram a Mão-Direita a usar a sua habitual destreza para remendar o coração do Coração, e o trabalho ficou perfeito. Não se notava sequer a fita-cola. O coração do Coração já não se lembrava de em tempos ter sido cacos, e por isso não foi preciso muito tempo para ir chamar a Fada Emoções à planta do pé e devolvê-la à sua aorta.
*****A Fada Emoções ainda se lembrava da sua ordem de trabalhos, pelo que rapidamente os meninos e as meninas do mundo inteiro recuperaram as cócegas, voltaram a chorar, a ter pêlos encrespados e a zangar-se. As MUMs sabiam que agora voltariam as birras quando os meninos e as meninas comessem a sopa, que uma ou outra noite seria preenchida por pesadelos e que os meninos e as meninas voltariam a empurrá-las quando elas os quisessem abraçar. Mas as mães também sabiam que os meninos e as meninas haviam de tornar a abraçá-las, mesmo que raramente. Ou muito raramente. Mas o raramente é sempre mais frequente que o nunca, e as mães assim estavam sempre felizes.


*****Once upon a time there was the Emotions Fairy. She lived in the aorta of all little boys and little girls, and with her magic wand she used to drive the things they felt. For years and years she lived unremarkably in that place, and now and then she would tickle the inside of boys and girls, only to appreciate the result of her magic.
*****But one day the Heart noticed her and his heart began beating faster. Then came the butterflies in the stomach of the Heart, the tears of nostalgia in the eyes of the Heart and promises of love in the mouth of the Heart.
*****But the Emotions Fairy, with a well-defined agenda, tried to explain to the Heart that her heart could not be only his, once she had to live and work in billions of places at the same time -- even though it was always the same place: the aorta of boys and girls around the world. But there were many aortas.
*****The Heart did not understand why, and got his heart broken. He immediately expelled the Emotions Fairy from his aorta. And the boys and girls no longer felt ticklish, no longer cried, no longer had frizzy hair, or got angry. At the beginning, mothers of boys and girls did not understand what was happening, and inclusively enjoyed the lack of emotion. The boys and girls would eat soup without grumpiness, would sleep without nightmares, and would not push away their mothers if they hugged them. But they would neither hug them back, and that was when the mothers of boys and girls of the world gathered to realize what had happened to the Emotions Fairy.
*****One day they found her on the foot sole, crushed like a pigeon a thousand times run over. Mothers of boys and girls asked what had happened, and she said that the Heart had given his heart to her, but she had not accepted it, and the heart of the Heart got broken. She told how she had been expelled from the aorta. The United World Mothers had a meeting with the Heart and explained that he could not leave the Emotions Fairy on the foot sole.
*****The Heart wept red tears and that was when mothers realized they had to find someone to give back the heart to the Heart. There had to be someone able to mend the heart of the Heart. They spoke with the Kidneys, but they said they already had a match. The Lungs said they lived well with each other. The Stomach said he did not want to relate to anyone who was above him, and the Head refused to come down to visit the Heart. It was when they decided to look for an external solution. They kept thinking for a while… and that was when they asked to the Right-Hand if she wanted to love the Heart.
*****The Right-Hand had no doubt that this was the strangest request she had ever had, but she was curious, and touched the Heart to feel him. In the beginning his pace was slow, but then it began to accelerate. And the Right-Hand, with her natural ability to touch and cuddle, enjoyed feeling that little organ in her hand, after all he had some pounds of emotions and palpitations. The United World Mothers convinced the Right-Hand to use her usual dexterity to mend the heart pieces of the Heart, and the work got perfect. One wouldn’t even notice the tape. The heart of the Heart would no longer remember the times when he was broken, so it didn’t take long for them to go pick the Emotions Fairy and return her to his aorta.
*****The Emotions Fairy still remembered her agenda, so the boys and girls around the world quickly recovered the tickling, the crying, the frizzy hair and the angriness. The United World Mothers knew the tantrums would be back when boys and girls ate soup, that some nights would be filled with nightmares and that boys and girls would push them again when they wanted to embrace them. But mothers also knew that boys and girls would hug them back, even if rarely. But rarely is ever more frequent than never, and mothers were happy that way.