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19 de maio de 2013

«But his heart was in a constant, turbulent riot.» ¹

Não importa em quem nos transformamos; não importa o espaço em que estamos; não importam as grandes festas que damos; não importam as pessoas de quem nos rodeamos. Nada importa, se a única coisa que almejamos, o grande amor que sempre amámos, não está à distância do que alcançamos.

No matter who we become; no matter in what place we are; no matter the grand parties we throw; no matter the people from whom we surround ourselves. Nothing matters if the only thing we desire, the love that we always have loved, is not at the distance of what we achieve.

The Great Gatsby Trailer


¹  Citação de F. Scott Fitzgerald («Mas o seu coração estava num constante, turbulento motim.» tradução livre)

16 de maio de 2013

Honorificamente intitulada vs. Honrosamente determinada.

Sou parte integrante dos 2% de portugueses que, não só dispensam títulos honoríficos, como também os abjuram. Quando me tratam por Dr.ª R. digo imediatamente que a minha mãe não me chamou assim. Mas atentem que detesto títulos para mim, mas também os abomino quando aplicados a terceiros: desenganem-se os que esperam que os trate dessa maneira, porque não o faço. P-O-N-T-O-F-I-N-A-L. Aliás, penso que é isso que faz com que o nosso país seja sui generis no nível profissional (ou justifique a ausência dele), mas isso agora não interessa nada.

Mas houve um episódio, um só, em que puxei dos galardões e me auto-intitulei “Dr.ª R.” em cumprimento formal a uma certa e determinada pessoa.

Contexto: há cerca de 10 anos trabalhava em Marketing e desenvolvi um projecto que envolvia um determinado Museu Nacional. Fiquei a perceber que os directores e as directoras dos nossos museus são todos “doutores”, “engenheiros”, “afins”, ou “todos ao mesmo tempo”, mas isso não me atrapalhava nada. Para mim eram “senhores” e “senhoras”. E nunca ninguém se importou. Certo dia, aquando da execução do projecto, tive que me enturmar com pessoas que lá trabalhavam, e desesperei com uma dondoca nos seus mais vaidosos 60 anos. Apesar de tudo, ela não foi a pior parte. O pior veio a seguir: conheci uma jovem que veio dar uma achega ao trabalho, e vinha preparada com a ideia de que fosse eu a fazer todo o heavy leafting. Quando chegou junto de mim apresentou-se:

- Boa tarde, sou a Dr.ª Joana.

E eu pensei: «pior do que ouvir alguém dar-nos um título, é darmos o mesmo a nós próprios». Eu estava ali, sozinha com ela, sem ninguém para verificar o meu momento de brilhante humildade, pensei «para idiota, idiota e meio», e retorqui de imediato:

- R., Dr.ª R.

Alguns anos se passaram, e… estou eu a relembrar este triste episódio no blog, enquanto ela mostra todo o seu talento e protuberância nos melhores museus nacionais e internacionais.


I didn’t translate this post because it has to do with a portuguese grimace, which would have to be first explained culturally. Please come back here tomorrow. Thank you. .¸¸.*

9 de maio de 2013

Vamos lá despachar isto, que eu quero ir ser feliz | Let's get this over with, because I want to go be happy


Tenho algumas ideias pré-concebidas acerca do mundo de trabalho em Portugal, e particularmente não me identifico com algumas das suas características (podia falar-vos sobre a chefia ditatorial, mas não é essa a protagonista deste post). Há mais de uma década, a expressão “ter uma reunião” soava-me bem ao ouvido: transpirava profissionalismo, era sinal de carreira, de certo modo fazia-me sentir parte integrante de um grupo decisor, e isso confere poder e segurança a qualquer profissional. Com o passar dos anos, “ter uma reunião ganhou outros significados, como aborrecimento, ganhar uma dor de cabeça, questionar o porquê das minhas escolhas laborais e combater os meus demónios mentais que, à medida que os outros falam, me fazem atentar a tudo, excepto ao seu conteúdo verbal.

Infelizmente não tenho como lhes fugir, e esta semana presentearam-me com uma reunião de 3h½ na Segunda-feira, outra de 2h½ na Terça-Feira, e uma de 3h ontem. O drama, o horror, o pavor!!! Alguém me deixa trabalhar, por favor? Senhores chefes, nunca ninguém vos disse que ao fim de 1h o vosso interlocutor perde o foco? São assim tão infelizes em casa, que necessitam de partilhar da minha nossa companhia, só para se sentirem válidos?

Não é à toa que nos países mais desenvolvidos e industrializados as reuniões sejam em pé: são directas, pautadas, com objectivos mensuráveis, evitam grandes apresentações e começam sempre a horas. Posso mudar-me?



I have some pre-conceived ideas about the work world in Portugal, and particularly I don’t identify myself with some of its features (I could tell you about the dictatorial leadership, but this is not the protagonist of this post). Over a decade ago, the expression "having a meeting" sounded good to me: it exuded professionalism, it was a sign of a career, in a certain extent it made me feel part of a decider group, and those give any professional the loan of power and safety. Over the years, "having a meeting" gained other meanings, such as annoyance, earning a headache, questioning my labor choices and fighting my mental demons who, as others speak, make me pay attention to everything, except to their verbal content.

Unfortunately I have no way to escape them, and this week I was given the pleasure of having a 3 hours and a half meeting on Monday, another 2 hours and a half meeting on Tuesday, and another one of 3 hours yesterday. The drama, the horror, the consternation!!! Would someone please let me work? Dear leaders, did no one ever told you that after 1h your partner loses focus? Are you so unhappy at home, that you need to have me us as a company, only to validate yourselves?

No wonder that in the more developed and industrialized countries, meetings are standing: they are direct, well planned, with measurable targets, they avoid large presentations and always start on time. Can I move there?

7 de maio de 2013

Desculpem interromper: tenho uma questão | Sorry to interrupt: I have a question

Já por aqui comentei algumas vezes que a minha memória é como a de um peixe, por isso perdoem-me a confusão e o estar um bocadinho perdida no tempo. Queria apenas perguntar: em que dia calha o feriado esta semana?


I’ve already stated here a few times that my memory is like the one of a fish, so forgive me my confusion and the fact that I’m a little lost in time. I just wanted to ask: in what day will be the holiday this week?

4 de maio de 2013

Um balão. Um suspiro. Uma esperança. | A baloon. A sigh. A hope.

Se não tivesses morrido, amanhã era o primeiro Dia da Mãe em que eu percebia o seu real sentido, a verdadeira acepção da expressão e da data. Seria maravilhoso poder continuar a sentir dois corações a bater no meu interior: um no meu peito, outro mais acelerado, no meu ventre. Mas partiste. E logo a seguir partiu mais alguém, de quem não conheci o género. Para assinalar a data, as mães de colo vazio vão reunir-se amanhã para lançar balões no céu, depositando no infinito a esperança, dando nota de que ainda não esqueceram os que partiram cedo demais. Eu não te esqueci. Jamais esquecerei. As lágrimas que caem quando ninguém vê alimentam a minha memória de ti. Se não tivesses morrido, eu desconhecia a efeméride e ignorava a dor destas mães. Mas agora choro-a em cada dia, todos os dias. Perdoa-me, mas amanhã não vou lançar balões. Colocá-los no ar seria materializar a tua partida, e ainda tenho esperança de um dia acordar e perceber que tu estás ainda em mim, viva, que os médicos não desistiram de te salvar. Talvez este seja só um pesadelo, e eu não quero jogar balões no ar. Eu não te quero deixar fugir.


If you hadn’t died, tomorrow would the first Mother's Day for me to live the true meaning of it, the true meaning of the expression and the date. It would be wonderful continuing to feel two hearts beating inside of me: one in my chest, another one faster in my womb. But you drifted away. And soon after left someone else, from whom I don’t even know the gender. To mark the date, some mothers with the empty lap will meet tomorrow to launch balloons in the sky, depositing hope on the infinite, giving notice that they haven’t forgotten the ones who left too soon. I haven’t forgotten you. I’ll never forget. The tears that fall when no one’ s seeing feed my memory of you. If you hadn’t died, I was unaware of this event and ignored the pain of these mothers. But now I cry it every day. Forgive me, but tomorrow I won’t launch balloons. Putting them in the air would materialize your departure, and I still have hope that one day I’m going to wake up and realize that you're still in me, alive, that doctors hadn’t given up trying to save you. Maybe this is just a nightmare, and I don’t want to throw balloons into the air. I don’t want to let you go away.

3 de maio de 2013

A tua mão na minha | Your hand in mine

Meu caro(a) amigo(a),

Quando passar por mim na rua, se estiver saudoso(a) de me ver, cumprimente-me com um sorriso e escuse estender-me a mão em jeito de «passou bem». Se se sentir impelido(a) a tal, por favor evite-o. Provavelmente, em jeito de cortesia, eu vou estender-lhe a minha mão de volta, mas vou fazê-lo contrariada. E de nada vale tentar conversar comigo, pois eu já não vou ouvir uma palavra; enquanto me detiver, creia que estou a desesperar por encontrar rapidamente uns lavabos onde possa higienizar a minha mão até ao cotovelo. Vou imaginar que a sua andou a tocar em partes recônditas do seu corpo, das quais não tiro qualquer prazer de partilha. Vou cogitar que muito provavelmente se terá detido no trânsito a libertar o seu nariz de mucosidades, e que o fez com o indicador direito, que é sempre o mais utilizado nessa tarefa quotidiana. Vou considerar que poderá ter-se entretido com o(a) seu(sua) parceiro(a) em actividades inusitadas ainda esta manhã, e que não teve sequer tempo para um bom banho. Vou lembrar-me daquele relatório de auditoria ambiental efectuada ao plástico de revestimento do corrimão das escadas rolantes daquele centro comercial, e recordar-me que no mesmo foram identificadas sete qualidades distintas de sémen (e o corrimão tinha sido desinfectado na limpeza das 06h30). Vou matutar na possibilidade de ter transaccionado dinheiro, e cismar que até pode ter cuspido nos dedos para o(a) ajudar a separar as notas. Vou congeminar que provavelmente utilizou aquela esferográfica que aquela repartição pública disponibiliza a todos os contribuintes que lá se dirigem.

Tenho uma imaginação demasiado fértil; e quando o assunto toca as bactérias alheias, a minha capacidade inventiva propaga-se mais do que os microorganismos.

O(a) meu(minha) amigo(a) é quem escolhe onde põe as suas mãos. Por favor permita-me esse livre arbítrio também.

Sem mais de momento, despeço-me com cordiais cumprimentos.
R. del Piño
My dearest friend,

Whenever we meet on the street, even if you’re very pleased to find me, greet me with a smile and excuse yourself from shaking my hand. If you feel compelled to do so, please avoid it. Maybe, in a courtesy gesture, I’ll shake your hand back, but I'll do it unwilling. And it’s not worth to try talking to me, once I’ll not hear a word; while you’re holding me back, please believe I’ll be desperate to find a toilet, in which I can quickly sanitize my hand up to the elbow. I will be imagining that your hand was touching some secluded parts of your body, and I don’t take any pleasure sharing it. I'll think that you may have stopped in traffic to free your nose from mucus, probably with your right index finger, which is always the most used in this everyday task. I will consider that you have been entertained with your partner in unusual activities this morning, and that you probably haven’t washed your hands since. I'll remember that environmental audit report made to the plastic coating of the railing of escalators in that shopping center, and remind that there were identified seven distinct qualities of semen (and the railing had been disinfected in the cleaning at 06.30a.m.). I'll chew over the possibility of you trading money, and think that you could have even spit on your fingers to help separating the bills. I’ll picture you using that pen that that government agency provides to all taxpayers who go there.

I have a fertile imagination, and when it comes to other people’s bacteria, my ingenuity spreads more than microorganisms.

You, my friend, chose where you put your hands. Please also give me the leeway of choosing it.

Yours truly,
R. del Piño

2 de maio de 2013

A flor e a gotinha | The flower and the little drop

*******A sua beleza resplandecia ao brilho do orvalho, mas se tremia, não era de frio. O seu coração estava gélido de abandono, sedento após perda que se acusava irremediável.
*******Uma pequena e escorregadia gota de chuva pousou nas suas coloridas folhas e perguntou com acidez:
*******– Porque choras? Porque tentas atrair a pena das outras flores a uma dor fingida?
*******Ainda mais magoada, a flor respondeu:
*******– Quem és tu para julgar aquilo que sinto? És minha amiga? Se não és, não tenho que confiar…
*******– Desculpa, presumi apenas que uma flor não tem pelo que chorar! Tu és muito bonita, esplendorosa e toda a gente te admira! – desculpou-se a gotinha.
*******– Mania de todos julgarem por aquilo que vêem, e não pelo que está por detrás de um olhar.
*******– Mas eu já te pedi desculpa. – reiterou a pequena gota! – Queres agora dizer-me porque estás assim tão triste?
*******– Porque conheci a dor provocada pela perda, e sinto-me murcha de impotência… – chorou a flor!
*******– De que falas tu, que eu não percebo nada? – indagou a ténue gota.
 ******– Já alguém disse que te amava?
*******– Não, nem tão pouco percebo o que isso possa significar!
*******– Pois a mim já! Houve um jardineiro, um jovem jardineiro, que me encontrou e regou. Com a força do seu carinho, as minhas folhas ganharam nova cor e brilho, e todos os dias me pareciam ensolarados. Ele fazia sentir-me tão especial… Dizia que eu era a flor mais bonita, tocava-me delicadamente e eu sentia-me realmente única. – explicou a flor.
*******– E o que aconteceu depois? Desapareceu? – questionou a gotinha.
*******– Ele continua a aparecer para me regar. Mas penso que já não o faz por afecto, mas por habituação. Pesar-lhe-ia a consciência se me deixasse morrer por falta de rega, mas há muito que não me oferece verdadeiramente o dom da vida! Já não diz que me ama e muito menos me faz sentir especial.
*******Quando a flor terminou, já a pequena gota havia sido absorvida por ela! A gotinha acreditava que podia matar um pouco a sede da flor, embora percebesse também que muitas mais gotas seriam necessárias.
*******Quando outra delicada gota pousou nas suas folhas, a flor perguntou-lhe:
*******– Porque nos fazem as pessoas habituar ao amor e à amizade, se não tencionam regar os seus afectos durante o resto das suas vidas, fazendo os outros sentir o quanto dói perder aquilo que outrora lhes prometeram?



*******Its beauty gleamed under the brilliance of dew, but if it shivered, it was not because of cold. Its heart was icy with abandonment, thirsty after the loss that seemed hopeless.
*******A small and slippery drop of rain landed on its colorful leaves and asked cuttingly:
*******- Why are you crying? Why are you trying to appeal for the other flowers pity with a feigned pain?
*******Further hurt, the flower replied:
*******- Who are you to judge what I feel? Are you my friend? If you’re not, I don’t have to trust in you…
*******- Sorry, I just assumed that a flower doesn’t have reasons to cry! You are very beautiful, splendorous and everyone admires you! – the little drop apologized.
*******- Everyone judges for what they see, and not for what is behind a look...
*******- But I’ve already apologized. - restated the little drop! – Can you now tell me why you're so sad?
*******- Because I knew the pain of loss, and I feel wilt with weakness ... - cried the flower!
*******- What are you talking about? I don’t understand anything. - asked the fainted drop.
*******- Has anyone ever told you «I loveyou»?
*******- No, and I don’t even know its meaning!
*******- Someone has told me that! There was a gardener, a young gardener, who found me and showered me. With the strength of his affection, my leaves have gained a whole new color and brightness, and everyday seemed sunny days. He made me feel so special... He said I was the most beautiful flower, touched me gently and I felt really unique. - explained the flower.
*******- And what happened next?  Did he disappear? - questioned the droplet.
*******- He still shows up to shower me. But I don’t think he’s doing it affectionately any longer. His conscience would weigh if he let let me die from lack of watering, but he doesn’t offer me the truly gift of life for a while! He doesn’t’ say he loves me anymore; and he doesn’t make me feel special now.
*******When the flower finished, the small drop has already been absorbed by it! The droplet believed it could nourish the flower a little, though it also realized many more drops would be needed.
*******When another delicate drop landed on its leaves, the flower asked:
*******- Why do people make us get used to love and friendship, if they do not intend to shower their affections for the rest of their lives, making others feel how much it hurts to lose what they once promised them?

24 de abril de 2013

O que o dinheiro não compra | What money doesn't buy

De nada te serve o banho demorado da manhã, o hidratante de cheiro apetecível, a maquilhagem de griffe, a roupa de marca, o cabelo penteado pelos melhores cabeleireiros, uma casa na praia, outra na cidade, conduzir o último modelo da marca automóvel de topo, jantar fora nos melhores restaurantes, ir às compras à Avenue de Montagne em Paris, comprar uns Louboutin pelo 18º aniversário da tua filha ou matricular o mais pequeno nos melhores colégios privados, se dizes coisas como “ele vai vir”, e nem sequer lavas as mãos quando vais ao quarto-de-banho.

There’s no point taking a long morning bath; using a moisturizer with a desirable smell, expensive make-up and best brand clothes; going to the best hairdressers; having a house on the beach, another one in the city; driving the latest model of the top auto trademark; dining out at top restaurants; shopping in the Avenue de Montagne in Paris; buying a pair of Louboutin for the 18th birthday of your daughter; or enroll your youngest in the best private schools, if you say things like “he will going to come” and not even wash your hands when you go to the bathroom.

22 de abril de 2013

Quem quer uma oportunidade pelas Novas Oportunidades?


Eu: Boa tarde. Posso ajudá-la?
Ela: Sim. [Aos pulinhos de alegria.] Tenho boas novidades.
[Importa dizer que eu nunca tinha falado com esta pessoa!!!]
Eu: Então, quais são as boas novidades?
Ela: Em catogze de Magço deste ano tegminei o… [a gaguejar] o… o… 12º ano.
Eu: Ah boa!, parabéns.
Ela: E já com o estágio feito, tamém.
Eu: Muito bem. Então fizeste estágio em quê?
Ela: Enhe… enhe… Ténica Admenistgativa.

(Presumivelmente, um episódio assim não teria lugar no meu local de trabalho. Mas teve! Ter uma porta aberta ao público atrai todo o género de personagens, mesmo as mais inusitadas. Mas não é sobre isso que queria escrever.)

Nada contra a menina jovem ter terminado o 12º ano em catogze de Magço, mas é impossível não ficar encolerizada com estas aparentes facilidades de há uns anos para cá. Com os dois dedos de conversa que transcrevi em cima, e mais outros tantos que se seguiram, não tenho alternativa, senão acreditar que, fora das Novas Oportunidades, ela não teria alcançado este grau escolar. E como ela, muitos outros(as)!

Eu fui “filha” da reforma educativa perpetrada pela Manuela Ferreira Leite enquanto Ministra da Educação. Fiz parte dos milhares de jovens que inauguraram um sistema educativo diferente, com pressupostos de exigência e obrigatoriedade de estudar um sem número de disciplinas, mesmo as que não teriam qualquer contexto quando seguíssemos para a Universidade. Iniciámos o ano escolar sem saber o que teríamos de enfrentar, sem perceber o que eram esses Exames Finais que nos valeriam 50% da nota final. Era tudo, ou nada. Não cedemos aos obstáculos, não condescendemos aos nossos próprios caprichos, e estudámos tudo o que havia para estudar, da melhor forma possível.

Por altura dos Exames Nacionais, o meu pai foi internado no IPO após terem-lhe diagnosticado o seu primeiro(!!!) um cancro. Ia fazer uma operação de cabeça aberta, serrada, para lhe retirarem do cérebro um meningioma. Antes do internamento, despediu-se de mim em casa, beijou-me na testa e pediu-me que não tivesse pressa de o ir visitar ao hospital. «Mas papá…», tentei retorquir. Porém ele insistiu: queria que eu me concentrasse o mais possível nas minhas responsabilidades escolares, e não queria que um duro ambiente hospitalar, onde a oncologia deixa a descoberto a fragilidade do ser-humano, me detivesse e desconcentrasse. Fiz 3 exames naquela mesma semana. Enquanto eu matava o meu cérebro em casa a estudar, o meu pai debatia-se com a doença e tentava salvar o dele. Não o visitei, senão 6 dias depois da operação. A concentração no estudo assim o exigiu. E ele também.

Posto tudo isto, chateia-me a ideia de eu -- a par com milhares de outros alunos da minha geração -- ter deixado para trás coisas tão importantes da minha vida, como a saúde de um progenitor, para me afogar nos livros e terminar o secundário com a melhor nota possível. Actualmente, o 12º ano está ao desbarato. Há inclusive profissionais a serem pagos pelos nossos governantes para conduzirem até ao término da escolaridade obrigatória pessoas cuja cabecinha não lhes daria mais do que o antigo 2º ano do ciclo preparatório (e mesmo com tantas facilidades, há um sem número que tem de "ser levado ao colo"). E sabem o que é irónico no meio de tudo isto? É que um 12º ano nas Novas Oportunidades tem exactamente o mesmo mérito curricular que o 12º ano que conquistei sem visitar o meu pai no Hospital.



I didn’t translate this post because it is a critics to a recente educational activity advocated in Portugal. Please come back here tomorrow. Thank you. .¸¸.*

19 de abril de 2013

Danos colaterais | Collateral damage


Ao longo da minha vida escolar cruzei-me com um sem número de professoras que teriam, indubitavelmente, uma insatisfatória vida sexual. Os sinais estavam todos lá: a pele baça, o cabelo sem brilho, o aborrecimento constante, o ar de mágoa a enrugar o rosto, a tentativa de se sobrevalorizar a qualquer preço, a arrogância, o sorriso inexistente, a necessidade de transferir para os outros a frustração em que se encontravam submersas… Na altura, se tinha de lhes dizer na cara o que sabia ser o seu real problema, não me coibia. Não temia um eventual risco, que no máximo seria uma nota enviada ao meu Encarregado de Educação dando conta da minha desobediência e insubordinação.

Os anos passaram, e eu já nada sei das minhas professoras. Mas ao longo da minha profissionalidade tenho vindo a lidar com muita gente, às quais reconheço os ditos sinais. Acontece que, a todo o custo, tento calar a rebelde em mim. Por vezes funciona; outras vezes nem tanto. E enquanto ninguém escreve no temido livro amarelo a meu respeito, só me apraz perguntar: porque será que quando alguém não f&%$, anda por aí a tentar f$%&# o juízo de quem está a trabalhar?

[Desculpem a brejeirice.]



During my school life I came across a great number of teachers, who certainly had an unsatisfactory sex life. The signs were all there: dull skin, dull hair, constant annoyance sadness look wrinkling the face, trying to overvalue them at any price, arrogance, nonexistent smile, the need to transfer to the others the frustration in which they were submerged... By that time, if I had to tell to their face what their real problem was, I wouldn’t prevent myself from doing it. I didn’t fear the possible risk, which would be at most a note sent to my father informing about my disobedience and insubordination.

Years passed, and I know nothing about my teachers. But throughout my professional life I have been dealing with a lot of people, to whom I recognize the signs I said. It turns out that, at all costs, I try to silence the rebel in me. Sometimes it works, sometimes it doesn’t. And while no one writes on the dreaded complaints book about me, I can’t help but wonder: why on Earth, when people don’t f&%$, they go on trying to f$%&# the nerves to people who’s working?

[Sorry about the vulgarity.]

17 de abril de 2013

«Estamos tramados.» | «We’re doomed.»

Começar a ouvir falar de catástrofes profissionais eminentes logo às 8h15 da manhã é exercício não aconselhável a corações fracos, não vá sofrermos com alguma arritmia.

Start listening to eminent professional catastrophes at 8:15 in the morning is not an advisable exercise to weak hearts, or one might suffer an arrhythmia.

13 de abril de 2013

Ególatras Umbilicais | Umbilical egotistical


Saí esbaforida naquele dia. Apressei-me pelas escadas abaixo, cruzei com um vizinho que não consigo descrever e deixei escapar um "bom dia, como vai?". Nem dei importância à ausência do seu feedback! Sabia ir encontrar um dia agitado depois da porta do prédio, e não me podia deter em hesitações.

Enquanto descia a avenida e analisava o meu reflexo nas montras das lojas, não fosse ter trajado algo do lado do avesso, tropecei nuns quantos rostos familiares. A eles sorri e questionei "passou bem?". Alguns espécimes mais distraídos responderam em gestos mecânicos. Talvez até nem me tenham notado.

Outros conhecidos, menos desatentos, devolveram-me a questão com a devida direcção, mas na verdade eu também não lhes ofereci qualquer resposta.

Quando começava a reflectir que naquela manhã ainda não me tinha aberto ao mundo, ou recebido um sinal da sua abertura para comigo, algo fez-me despertar numa maior clarividência. Já quase a chegar ao local de trabalho, avistei a Ana. Sustive-me por alguns segundos na ponderação das minhas obrigações sociais e escolhi esperar para lhe dar um "olá".

Assim que percebeu a minha presença, rasgou o sorriso e acelerou o passo. Enquanto nos cumprimentávamos, deixei escapar um natural "estás boa?", quando quase em simultâneo recebia a questão "como estás?". Em frases apressadas e atropeladas contei-lhe do projecto em que estava envolta e de como andava tão realizada, quanto cansada.

De sorriso solidário, a Ana afagou o meu ânimo com algumas palavras de força e falou-me de si. Entre relatos e histórias breves dos seus sucessos pessoais e profissionais, percebi no seu júbilo quão cristalina estava a sua aura.

Não despendi mais do que dez dos meus preciosos minutos e acabei aquele deleitoso encontro com um suspiro sorridente invejavelmente invejoso. Fiquei feliz pela minha amiga! Mas acima de tudo fiquei surpreendida pelo carácter rejuvenescedor daquela troca de palavras.

Quando me sentei à secretária para começar a organizar o trabalho daquele dia, já nada me soava a aborrecido ou fastidioso! Foi então que fui assaltada por uma questão concreta do meu subconsciente:

Em que altura da nossa vida somos forçados a voltar-nos para o nosso umbigo, acreditando que nunca há tempo para mimar as nossas afeições, ao invés de realmente desejar uma resposta quando saudamos alguém?




I left breathless that day. I hurried down the stairs, ran into a neighbor who I cannot describe and I let out a “good morning, how are you”. I didn’t mind with the absence of his feedback! I knew I was going to face a busy day on the other side of the door of the building, and I could not halt myself.

While walking down the street and looked at my reflection in the shop windows (to check if I’d dressed something inside out), I stumbled on many familiar faces. I smiled at them and questioned “how are you?”. The more sidetracked specimens responded with mechanical gestures. Maybe they haven’t even noticed me.

Other acquaintances, less distracted, returned the question to me with proper direction, but I actually did not offer them any answer.

When I started thinking that on that morning I hadn’t open myself to the world, or received a signal of its opening to me, something made ​​me wake up in greater clarity. Almost arriving to work, I saw Ana and I held me for a few seconds in the weighting of my social obligations and I chose to wait to tell her “hi”.

As soon as she noticed my presence, she tore her smile and quickened her pace. As we greeted each other, I let out a natural "are you ok?", when almost simultaneously I received the question "how are you? '. In hasty and run over sentences I told her about the project in which I was wrapped and how I was fulfilled, even if tired.

With a supportive smiling, Ana petted my spirits with some words of strength and told me about herself. Among reports and brief stories of her personal and professional successes, I realized in her exultation how crystal clear her aura was.

I did not spend more than 10 minutes of my precious time and I finished that delightful encounter with an enviably envious smiling sigh. I was happy for my friend! But most of all, I was surprised by the rejuvenating nature of that exchange of words.

When I sat at my desk to start organizing the job for that day, nothing sounded boring or tedious to me! It was then when I was assaulted by a concrete question of my subconscious:

At what point of our lives are we forced to turn to our belly, believing that there is never time to indulge our affections, rather than really wanting an answer when we greet someone?

11 de abril de 2013

Ontem | Yesterday


Depois da revelação de ontem, são poucas as palavras que me trazem hoje aqui. Houve quem dissesse que foi corajoso. Houve quem dissesse que foi arrojado. Houve quem se comovesse. Houve quem chorasse. Houve quem tentou animar-me. Houve quem quis devolver-me a esperança. Houve quem se identificasse. Houve quem dissesse esperar que tal não lhes acontecesse. Houve comentários e houve e-mails. Se as minhas palavras e a minha exposição serviram para sensibilizar mais alguém para o tema, então valeu a pena. Se os meus aforismos e a minha manifestação servirem para, futuramente, ajudarem alguém [ou a vós mesmos(as)], então dou por bem empregue ter usado este poderoso veículo de comunicação para falar sem tabus sobre um assunto que pelos vistos muitos tentam calar -- porque ninguém gosta de falar de rubricas sérias. Porque quando eu precisei, não houve ninguém que estivesse realmente preparado para me ouvir, para me confortar. Desenganem-se os que pensam que a forma como expus foi demasiado crua e bruta. É assim, tal e qual, que se sentem todas as mulheres que tiveram vidas arrancadas do ventre. O discurso, a vontade de morrer, o desespero e a esperança em decréscimo são traços transversais a todas nós. E não importam credos, crenças, raças ou cores. Uma esperança roubada dói no coração de todas nós de modo semelhante.

Obrigada por estarem desse lado e não desistirem de me ler.

Afteryesterday’s disclosure, there are only a few words that made me come here today. Some said it was gutsy. Some said it was daring. Some were moved at that. Some cried. Some tried to cheer me up. Some tried to give me back hope. Some identified to it. Some said they were not expecting that to happen with them. Some stated it on the commentaries form and some e-mailed me. If my words and my exposure served to sensitize the subject to someone else, then they were worth it. If my aphorisms and my manifestation help someone in the future [or even yourselves], then it was worth it using this powerful means of communication to talk about a subject without taboos; a subject that many apparently try to silence -- because no one likes to talk about serious things. Because when I needed it, there was no one really prepared to listen to me, to comfort me. Don’t make a fool of yourselves thinking that the way I expressed it was raw and brutal. This is it: the way all women who have had lives ripped away from their womb feel. The speech, the wish to die, the despair and the hope in decline are traits that cut across all of us. And creeds, beliefs, races or colours don’t matter at all. A stolen hope hurts our heart in similar ways.

Thank you for being on that side and not giving up reading this.

10 de abril de 2013

Olá!, eu sou a R. e já sofri duas perdas gestacionais | Hi!, I’m R., and I’ve had two miscarriages

Faz hoje dois meses que, exactamente por esta hora, dei entrada num hospital que ainda me estava cravejado na memória, na pele e nos ossos. Um hospital de onde tinha saído dilacerada e partida ao meio, 72 dias antes, depois de acordar do recobro de uma situação idêntica à que me levara ali naquele dia. A dor já me era familiar. A vontade de morrer também.

Deus, se estás a ouvir os meus pensamentos ou a ler este blog, quero que saibas que já não acredito em Ti. Crê que Te respeitei toda a vida, e que tentei regrar a minha conduta de acordo com os princípios pronunciados pela Tua doutrina. Fui Tua fã e acérrima defensora, contra tudo e contra todos. Às vezes as pessoas diziam-me vacilar na sua fé, e eu tinha sempre uma palavra de conforto em Tua defesa. Agora as pessoas devolvem-me o gesto e dizem que És grande e misericordioso. Para mim isto não passa de uma ideia fantasiada. Treta do pior! Agora sei que andamos todos “cá em baixo” sozinhos, entregues à nossa própria sorte e a um destino incerto. Estou magoada Contigo. Já não quero saber de Te amar. Já não quero saber do Teu catecismo. Já não creio nesse grandioso amor que todos dizem que tens por nós. Queria ter a rede de conforto e a confiança que sempre julguei e acreditei ter.

Se é verdade que nos vais colocando frente a frente com estes infortúnios para nos pores à prova, então admito que falhei redondamente. Tenho uma ferida aberta, exposta, onde se acumula matéria e ódio, impaciência pela Tua criação e total desrespeito para com o curso que escolheste para mim. Desejava estar a agradecer-Te, ao invés de pensar com desprezo no que a vida me reservou. Se o Teu problema é comigo, por que raio roubaste a vida à menina que já vivia no meu ventre há alguns meses? Se é a minha fé que queres medir, por que razão tornaste a segunda vida gerada no meu ventre num mar de sangue? Quantas vidas tens roubado Tu do ventre de outras mulheres? Quantas vidas tens empurrado para o ventre de outras? Vai ser sempre assim? Roubas os filhos das mulheres que os desejam, das mulheres que tornam a simples talha de engravidar na mais majestosa e nobre tarefa das suas vidas, e vais oferecendo um sem número de filhos às mulheres que não os querem, que não os desejam, que nem sequer se esforçam para criar as devidas condições para os receberem? Eu sei que se algum dia tornar a engravidar não vou poder sequer mexer um braço, esticar uma perna ou contorcer o abdómen. Sei que vou estar sempre exposta ao risco. Sei que a vida de um filho no meu ventre vai estar sempre presa por um fio. Mas entretanto vou ouvindo falar de mulheres que se atiram escadas abaixo para perder os frutos do seu ventre, e que ainda assim os mantêm; vou conhecendo cada vez mais casos de mulheres que vendem os seus filhos para superar a crise; vou sabendo que há um sem número de mulheres que não se privam de nada, nem sequer de dar cambalhotas ao 5º mês de gestação, e que dão à luz crianças saudáveis. É a isto que chamas de justiça divina? São as iguais condições que ofereces a todos os Teus filhos? É o amor incondicional que ofereces a todos os elementos da Tua criação?

A vida nunca me deu nada de mão beijada. Os estudos, o trabalho, o dinheiro ao final do mês… foi tudo construído com sangue e suor, e a ter de me esforçar o dobro das outras pessoas. Nunca me resignei e sempre Te estive agradecida por me teres ensinado a dar mais valor ao conquistado. Mas as vidas que não ajudaste a segurar no meu ventre? Essas… essas nunca Te irei perdoar.


At exactly this time, it has been two months since I was admitted in a hospital that was still encrusted in my memory, skin and bones. A hospital where I had left torn apart and split in two only 72 days before, after waking up from an identical situation that brought me there that day. The pain was already familiar. The willingness to die too.
God, if You’re listening to my thoughts or reading this blog, I want You to know that I no longer believe in You. Believe that I’ve always respected You, and that I always tried to regulate my conduct in accordance with the principles pronounced by Thy doctrine. I was always Your fan and a staunch defender, against everything and everyone. Sometimes people would show some lack of faith, and I always had a word of comfort in Thy defense. Now people return me that gesture, saying You’re great and merciful. To me this is just a costume idea. Bulshit! Now I know that we're all "down here" alone, left to our own luck and to an uncertain fate. You’ve hurt me. I don’t want to know anything about loving You. I do not want to know Thy catechism. I no longer believe in this great love that everyone says You have for us. I wanted to have the comfort net and confidence that always believed I had.

If it is true that You put us face to face with these misfortunes to put us to the test, I have to admit I failed miserably. I have an exposed open wound, where anger, substance, impatience for Your creation and total disrespect for the course you have chosen for me are accumulating. I wanted to be thanking Thee, instead of thinking with the contempt about what life has reserved for me. If Your problem is with me, why the hell did you stole the life to the little girl who was living in my belly for a few months? If you wanted to measure my faith, why did You turn the second life I’d generated in my womb into a sea of blood? How many lives have You stolen from the womb of other women? How many lives have You pushed into the womb of others? Will it always be like this? Are You going to keep stealing the children of women who desire them, and offering a countless number of children to the ones that don’t want them? I know that if I ever become pregnant again I won’t even be allowed to move an arm, to stretch a leg or contracting my abdomen. I know I'll always be at risk. I know that the life of a child in my womb will always be hanging by a thread. But in the meantime I'll hear about women who throw themselves down stairs to lose the fruit of their womb, and yet keep them; I'll know more and more cases of women who sell their children to overcome the crisis; I’ll know that there is a countless women who doesn’t deprive themselves of anything, not even somersaulting by the 5th month of pregnancy and giving birth to healthy children. Is this the so-called divine justice? Are these the same conditions that you offer to everyone? Is this the unconditional love that You offer to all elements of your creation?

Life has never given me anything for granted. Studies, work, money at the end of the month… it was all built with blood and sweat, having to push myself twice as many others. I never resigned and I’ve always been grateful about You to teaching me how to give more value to what I’ve conquered. But the lives You didn’t keep in my womb? Those… those I’ll never forgive You.

9 de abril de 2013

Amanhã | Tomorrow

Amanhã vou finalmente abrir o jogo. Vou soltar os demónios, as inseguranças, as questões e as inquietações que me assolam. Vou deitar cá para fora aquilo de que as pessoas não querem falar. Vou mostrar a minha ferida. Vou exibir a sombra e a nuvem sobre as quais tenho vivido. Não quero saber se vão gostar ou não. Tudo na vida é mesmo assim: um dia identificamo-nos, no outro dia repudiamo-nos. Já não consigo calar o tema. Não consigo fazer de conta que de momento não é sobre esta preocupação que conduzo a minha leva diária. Apesar de já o ter insinuado algumas vezes, penso que ainda ninguém entendeu o verdadeiro motivo do meu regresso à blogosfera. Ainda ninguém sabe porque tive de ocupar os meus tempos livres com alguma coisa que me prenda a atenção. Ainda ninguém compreendeu o verdadeiro motivo de eu me ter tornado uma pessoa tão zangada. Amanhã eu vou dizer. Amanhã irão saber.

Tomorrow I will finally show my game. I'll release the demons, the insecurities, the issues and the concerns that plague me. I'll throw out what people do not want to talk about. I will show my wound. I’ll scatter the shadow and the cloud under which I’ve been living. I do not care whether you like it or not. Everything in life is that way: one day we identify ourselves with someone; on the other day we reject each other. I just cannot shut the theme anymore. I cannot pretend that this isn’t my biggest current concern. Despite having already hinted it a few times, I think that nobody understood the real reason of my return to the blogosphere. No one knows why I had to occupy my spare time with something that caught my attention. No one understood the real reason I have become a so angry person. Tomorrow I'm going to tell it. Tomorrow you will know.

5 de abril de 2013

Audácia ou idiotice? | Boldness or silliness?

Foi em 2008, aquando da visita ao Centro George Pompidou, que me deparei pela primeira vez com a afronta. Ali, entre as obras e as instalações de uma das maiores colecções de arte do mundo, ela exibia-se com orgulho. Pior ainda: não era apenas uma, singular; eram 3, no plural. Sim, 3. Iguais. Exactamente iguais, mas de artistas diferentes. Como se fosse possível, do ponto de vista da concepção artística, 3 “pintores”, em momentos, países e culturas distintas, terem a mesma ideia e pintarem telas semelhantes. Passei alguns minutos da minha vida a rir a bandeiras despregadas com aquilo que via. Numa fracção do tempo pensei que fosse uma brincadeira. Logo a seguir cheguei até a indagar que talvez fosse eu, inculta na matéria, incapaz de interpretar aquelas que orgulhosamente se exibiam para mim, como se dissessem: somos simples, mas tu não nos entendes. Felizmente caí logo em mim, e percebi realmente do que se tratava: 3 pintores, dos tais momentos, países e culturas distintas, aproveitaram um claro momento de desinspiração e pintaram 3 telas de branco. Pior do que o vitupério ostentado, foi ler na sinalética de uma das telas, aquilo que a “artista” (não me lembro do nome; apenas recordo o género) escrevia acerca da técnica do pincel. Surreal! Como se numa tela branca pudéssemos apreciar e reconhecer a dita.

Recordei-me deste momento no último fim-de-semana, aquando da visita à Colecção Berardo no CCB: naquela que é a maior colecção de arte exposta em Portugal, na segunda parede de entrada do museu, lá estava ela novamente: a tela branca. Provavelmente pintada por um quarto “artista” não-relacionado com os 3 que expunham no Pompidou. Mais um claramente desinspirado, que decidiu contornar o seu desacerto com ignomínia. Junto à tela havia uma inscrição dando nota de que o conteúdo daquela “obra” devia ser mantido em segredo; que a dinâmica da mesma devia ficar apenas sob o conhecimento de quem a havia concebido. Engraçadinho, não? Não vale a pena oferecerem-me grandes explicações filosóficas sobre uma tela branca, que ela está no seu estado mais puro, o da pré-pintura. Também não a justifiquem como uma pintura em potência; porque se assim fosse, ela estava na Papelaria Fernandes à espera de ser comprada por um verdadeiro artista, ao invés de estar a ser exibida como obra final de um pintor de arrojo. Como alguém dizia no outro dia, é como comparar a obra-prima do mestre, com a prima do mestre-de-obras¹.

[¹ Desculpa a usurpação, Diogo. Mas eu tinha avisado que ia roubar, não tinha?]


It was in 2008, when visiting Centre George Pompidou, when I faced the outrage the first time. There, between works and installations of one of the largest art collections in the world, it was exhibiting itself with pride. Worse than that: it wasn’t just one, singular; they were 3, plural. Yes, 3. Totally equal. Exactly the same, but from different artists. As if it was possible, from the point of view of artistic design, 3 "painters", at distinct times, countries and cultures, have the same idea and paint similar canvas. I spent a few minutes of my life laughing out loud with what I was seeing. I thought it was a joke during a fraction of time. Then I actually wondered that maybe I, uneducated in the matter, was unable to interpret those who proudly were exhibiting to me, as if they were saying: we are simple, but cannot understand us. Luckily my mind got clear then, and I realized what it really was: 3 painters took a clear advantage from a non-inspirational moment and painted everything in white. Worse than the flaunted insult, was the signage of one of the canvas: the artist was explaining the brush technique. Surreal! As if in a white canvas we could appreciate and recognize it.

I remembered this moment in this last weekend, when visiting Berardo’s Collection in CCB: in the biggest collection of art in Portugal, on the second Wall at the entrance of the museum, there it was again: the white canvas. Probably painted by a fourth “artist”, non-related to the other 3 that were in exhibition in Pompidou. Another one with a lack of inspiration, who decided to skirt around his mistake with ignominy. Near the canvas there was an inscription telling that the content of the piece should be kept in secret; that the dynamics of it should only be under the knowledge of whom had conceived it. Funny guy, isn’t he? It is not worth offering me great philosophical explanations about a white canvas; that it is in its pure state, the pre-painting state. Please don’t try also to justify it with potential. If it was so, it should be in some stationery waiting to be bought by a real artist, instead of being displayed as the final work of a painter with audacity.

25 de março de 2013

Comunicado à Nação | Statement to the Nation

Uma vez li que «num blog, o seu autor passa a música que lhe aprouver, e só dança quem quer». Adicione-se isso ao facto de a maioria que tem a sua própria página desejar, efectivamente, encontrar leitores interessados -- porque se fosse para falarmos sozinhos, estávamos a falar para as paredes. Como resultado, apraz-me concluir: se eu escrevo sobre alhos, espero que leiam "os alhos"; e se se sentirem impelidos a comentar, que seja acerca deste característico condimento culinário. A modos que me aborrece escrever sobre "alhos" e receber comentários de "bugalhos". A não leitura do que publicamos no nosso blog é um direito que assiste a todos os que o visitam.

E assim vamos de Umbilicalidades nesta Segunda-feira cinzenta, fria e chuvosa.

I’ve read once that «in a blog, its author provides entertainment through music, and the ones who want it, dance». Add the idea that the ones who have their own page long for interested readers, effectively -- because if we were to talk alone, we were talking to the walls. As a result, I’d please to say: if I write about apples, I hope you read "the apples"; and if someone feels compelled to comment, I hope that it is about this edible fruit. It bothers me writing about "apples" and get comments about "pears". Not reading what we publish on our blog is a right of the ones who visit it.

And that’s all I have to say on this gray, cold and rainy Monday.

21 de março de 2013

E a propósito do Dia Internacional da Felicidade... | On the purpose of the International Day of Happiness...

…recordei-me da única pessoa que conheci que ganhou o €milhões: corria o ano de 2006 e o Sr. X acrescentou €20.000.000,00 à sua conta bancária. O Sr. X tem mulher, dois filhos (um casal) e uma neta. Na altura os filhos estavam na casa dos 30 e a menina tinha cerca de 3 anos. O Sr. X depositou todo seu dinheiro no banco. O Sr. X recebia mais em juros mensais do que eu a trabalhar o ano inteiro. O Sr. X nunca mudou de carro. E os filhos também não. O Sr. X continuou o seu trabalho num emprego muito modesto, e os filhos continuaram como empregados fabris. O Sr. X fez umas obritas em casa, mas nunca alterou de morada. Os filhos também não. O Sr. X sempre que ia ao banco olhava sobre os seus ombros um milhão de vezes, com receio de ser perseguido ou que alguém suspeitasse. O Sr. X nunca gozou a sua fortuna. E os filhos também não. Desde o dia em que descobriram que tinham o boletim premiado, vivem em pânico com a ideia de a menina vir a ser raptada.

Mas não podemos contrariar a admissão de que, na verdade, mais cedo ou mais tarde, todos nós acabamos a desejar a sensação de termos uma fortuna à nossa disposição.


…I remembered the only person I knew who won the €millions: we were in 2006 and Mr. X added €20.000.000,00 to his bank account. Mr. X had a wife, a son, a daughter and a granddaughter. By the time his son and his daughter were around their 30ies and the little girl was about 3 years old. Mr. X put all his money on a bank account. Mr. X was getting more with monthly interest than me working all year round. Mr. X never changed his car. Neither did his son and his daughter. Mr. X kept His humble job, and his son and his daughter kept on working as factory employees. Mr. X did a little reconstruction of his house, but never changed the address. Neither did his son, nor his daughter. If Mr. X went to the bank he would look over his shoulders a million times, afraid of being persecuted or that someone got suspicious. Mr. X never made use of his fortune.  Neither did his son, nor his daughter. Since the day they found out they had the winning ticket, they live in panic with the idea of the little girl being kidnapped.

But we cannot thwart the acquiescence that, in fact, sooner or later, we all want to know what it feels like having a fortune.

20 de março de 2013

O meu ódio de estimação: correcção da concepção | My pet hate: correcting the conception

[O post que se segue pode conter linguagem ofensiva ou susceptível de ferir a sensibilidade do leitor. Por favor, se padece de algum conservadorismo ou amor para com todas as espécies humanas, aconselhamos que não prossiga com a sua leitura. Obrigada.]

Depois deste post ficou instalada a ideia generalizada de que não suporto o meu chefe. Queria corrigir essa concepção errada com que vos deixei.

Ora, se realmente não o suportasse, crêem que era altruísta ao ponto de querer que o senhor estivesse em passeio a toda a hora? Senão, vejamos:

Quando ele me vem chatear com objectivos comerciais ainda por cumprir, penso logo:
«E se fosses dar uma volta ao bilhar grande?»

Quando ele grita comigo de manhã, por chegar a-p-e-n-a-s 5min antes do meu horário de entrada (sim, leram bem, eu disse “antes”!), fico com vontade de indagar:
«Porque é que não vais ver se eu estou na esquina?»

Quando expressa indeléveis mentiras, coisa que acontece com cadência quase diária, apetece-me convidá-lo:
«Vai à fava!»

Quando me proíbe de acender a luz em determinados compartimentos, porque temos de poupar na factura ao final do mês, e eu fico a trabalhar às escuras, vem-me à cabeça:
«E se fosses com o Carvalho?»
(Esta é mais do que reveladora de que tenho em mente apenas o bem: é que para além de querer que o senhor vá dar um passeio, ainda desejo que ele leve companhia; isto de ele andar sozinho é chato.)

Quando manda boquinhas por eu só (leram bem, eu disse “só”!) fazer duas horas extra por dia (coisa para não me ser nunca paga), cogito imediatamente:
«E se fosses abaixo de Braga?»

Quando não autoriza o pagamento de ajudas de custo e me obriga a fazer deslocações de trabalho no meu carro e à borla, só me apraz verbalizar:
«Vais às urtigas!!!»

Quando faz ouvidos moucos aos meus constantes pedidos de transferência de unidade, quase discorro:
«Vai dar uma curva…»

Quando não me permite qualquer livre-arbítrio sobre a decisão do meu calendário de férias, apetece-me logo desejar que se divirta numa festa com inúmeros focos luminosos:
«Vai para o raio que te parta.»

Quando insinua que me há-de proibir de almoçar na cave do edifício, onde não estorvo, nem incomodo ninguém, ganho logo um instinto ternurento e quero muito que ele seja abraçado pela sua mamã:
«Vai para a grandessíssima p%&# que te pariu.»
(Com todo o respeito para a mãe do senhor, claro.)


Ficaram a ler? Por favor não digam que não vos avisei!

I'm sorry, but this post has no translation, once it has to do with portuguese idiomatic expressions. Please come back here later. Thank you .¸¸.*