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22 de abril de 2013

Quem quer uma oportunidade pelas Novas Oportunidades?


Eu: Boa tarde. Posso ajudá-la?
Ela: Sim. [Aos pulinhos de alegria.] Tenho boas novidades.
[Importa dizer que eu nunca tinha falado com esta pessoa!!!]
Eu: Então, quais são as boas novidades?
Ela: Em catogze de Magço deste ano tegminei o… [a gaguejar] o… o… 12º ano.
Eu: Ah boa!, parabéns.
Ela: E já com o estágio feito, tamém.
Eu: Muito bem. Então fizeste estágio em quê?
Ela: Enhe… enhe… Ténica Admenistgativa.

(Presumivelmente, um episódio assim não teria lugar no meu local de trabalho. Mas teve! Ter uma porta aberta ao público atrai todo o género de personagens, mesmo as mais inusitadas. Mas não é sobre isso que queria escrever.)

Nada contra a menina jovem ter terminado o 12º ano em catogze de Magço, mas é impossível não ficar encolerizada com estas aparentes facilidades de há uns anos para cá. Com os dois dedos de conversa que transcrevi em cima, e mais outros tantos que se seguiram, não tenho alternativa, senão acreditar que, fora das Novas Oportunidades, ela não teria alcançado este grau escolar. E como ela, muitos outros(as)!

Eu fui “filha” da reforma educativa perpetrada pela Manuela Ferreira Leite enquanto Ministra da Educação. Fiz parte dos milhares de jovens que inauguraram um sistema educativo diferente, com pressupostos de exigência e obrigatoriedade de estudar um sem número de disciplinas, mesmo as que não teriam qualquer contexto quando seguíssemos para a Universidade. Iniciámos o ano escolar sem saber o que teríamos de enfrentar, sem perceber o que eram esses Exames Finais que nos valeriam 50% da nota final. Era tudo, ou nada. Não cedemos aos obstáculos, não condescendemos aos nossos próprios caprichos, e estudámos tudo o que havia para estudar, da melhor forma possível.

Por altura dos Exames Nacionais, o meu pai foi internado no IPO após terem-lhe diagnosticado o seu primeiro(!!!) um cancro. Ia fazer uma operação de cabeça aberta, serrada, para lhe retirarem do cérebro um meningioma. Antes do internamento, despediu-se de mim em casa, beijou-me na testa e pediu-me que não tivesse pressa de o ir visitar ao hospital. «Mas papá…», tentei retorquir. Porém ele insistiu: queria que eu me concentrasse o mais possível nas minhas responsabilidades escolares, e não queria que um duro ambiente hospitalar, onde a oncologia deixa a descoberto a fragilidade do ser-humano, me detivesse e desconcentrasse. Fiz 3 exames naquela mesma semana. Enquanto eu matava o meu cérebro em casa a estudar, o meu pai debatia-se com a doença e tentava salvar o dele. Não o visitei, senão 6 dias depois da operação. A concentração no estudo assim o exigiu. E ele também.

Posto tudo isto, chateia-me a ideia de eu -- a par com milhares de outros alunos da minha geração -- ter deixado para trás coisas tão importantes da minha vida, como a saúde de um progenitor, para me afogar nos livros e terminar o secundário com a melhor nota possível. Actualmente, o 12º ano está ao desbarato. Há inclusive profissionais a serem pagos pelos nossos governantes para conduzirem até ao término da escolaridade obrigatória pessoas cuja cabecinha não lhes daria mais do que o antigo 2º ano do ciclo preparatório (e mesmo com tantas facilidades, há um sem número que tem de "ser levado ao colo"). E sabem o que é irónico no meio de tudo isto? É que um 12º ano nas Novas Oportunidades tem exactamente o mesmo mérito curricular que o 12º ano que conquistei sem visitar o meu pai no Hospital.



I didn’t translate this post because it is a critics to a recente educational activity advocated in Portugal. Please come back here tomorrow. Thank you. .¸¸.*

19 de março de 2013

Dá-me onde ficar, e eu movo a Terra | Give me where to stand and i will move the Earth

Eu sei que tu tens mau feitio. Eu sei que é impossível dialogar contigo quando o FCP perde. Eu sei que nunca vais dizer as palavras certas. Eu sei que tu nunca me vais abraçar. Eu sei que tu nunca vais dizer que me amas. Mas também sei que serei sempre a tua pequinha, e que me amas incondicionalmente, de um jeito que é só teu. Para quem nunca teve um pai, para quem não sabe o que é suposto um progenitor fazer, até julgo que executaste na perfeição a tua tarefa. Na memória ficam as manhãs de Sábado na Quinta da Jana à procura das moedas perdidas na areia; como tu me ensinaste a dançar com os meus pés sobre os teus; a tua extrema disponibilidade para fazer de meu choffeur entre as minhas incessantes actividades na adolescência; as turrinhas que me vinhas pedir quando eu estava já quase a dormir; ou como te orgulhaste sempre em dizer «é a cara da mãe, mas o feitio é do pai».


I know you have a bad temper. I know that it is impossible to chat with you when FCP looses a match. I know that you’ll never say the right words. I know you won’t ever hug me. I know that you will never say you love me. But I also know that I’ll ever be you wittle, and that you love me unconditionally in your own way. For someone who never had a father, who does not know what a parent is supposed to do, I actually think you executed your task perfectly. In the memory I keep the Saturday mornings in Quinta da Jana searching for lost coins in the sand; the way you taught me how to dance with my feet on yours; your extreme availability to drive me around all my incessant activities during my teenage years;  the little head-butts you would request me when I was falling asleep; or the way you always showed pride to say «she’s the spitting image of her mother, but has her father’s temper».