Ele amava-a, mas ela não sabia. Viam-se todos os dias no comboio, e pousavam demoradamente o olhar um no outro. Não sorriam, e as expressões faciais não eram fáceis de ler. Ela entrava na estação da Cruz Quebrada, ele já vinha de trás. Ela não conseguia perceber de onde, mas a sua origem pouco lhe importava; o destino era o mesmo. Ela saciava o seu velho hábito de leitura, fazendo-se acompanhar por russos e suecos, norte-americanos ou espanhóis. Ele distraía-se com um tablet onde escorregavam os seus dedos, e de quando em vez erguia o olhar para se cruzar propositadamente com o dela. Não importava que houvesse pessoas de pé, a interpor-se na sua direcção: eles já conseguiam ver-se através da opacidade. Ele queria saber mais dela, para lá da cor dos olhos, da rebeldia dos caracóis e do eclecticismo dos livros. Ela montava puzzles com o intuito de construir a história dele: vestia um fato cuidado, sinal de emprego sério; ostentava gravatas impecáveis, sinal de estatuto; carregava uma mala de pele preta de marca cara, sinal de opulência. Ele esforçava-se para perceber qual seria a agenda dela em cada dia. Ela imaginava que ele teria uma agenda preenchida. Saltavam ambos para fora do comboio no Cais do Sodré. Se saísse primeiro da carruagem, ele pousava a mala e fingia um gesto faustoso, apenas com o desígnio de se deter junto às máquinas dispensadoras dos bilhetes, enquanto a apreciava no seu frenesi diário. Ela corria até à porta que dava acesso à rua, e no final voltava o rosto para o ver uma última vez naquele dia. Todos os dias ela tinha medo que aquela fosse a última de sempre. Quando ela voltava o rosto, a sua boca estava ligeiramente aberta, lábios tensos. Uma mecha de cabelo cobria-lhe superficialmente a face, e sombreava o brilho intenso do olhar. Ela não sabia, mas aquele era o ponto alto do dia dele: quando ela não se esforçava para ser bonita, ele via-a como o supra-sumo de tudo o que é belo. Ela lia-lhe charme e sentia-se atraída pelo seu ar enigmático, emoldurado por cabelos fartos, a fugir para o grisalho. Ela amava-o, mas ele não sabia.
He loved her, but she did not know. They saw each other in the train every day and laid down the look at each other at length. They didn’t smile, and the facial expressions were not easy to read. She entered in the Cruz Quebrada station; he came from somewhere back. She could not tell from where, but his origin mattered little; their destiny was the same. She sated her old habit of reading, being accompanied by the Russians and the Swedes, the North Americans and the Spaniards. He amused himself with a tablet in which their fingers slipped; now and then he lifted his gaze to cross with hers on purpose. They never minded people standing, just like obstacles on their direction: they could see each other already through opacity. He wanted to know her better, beyond her eye color, the rebellion of her curls and the eclecticism of her books. She rode puzzles in order to build his story: he wore a neat suit, sign of a serious job; he flaunted stylish ties, sign of status; he carried a black leather handbag of an expensive trade mark, sign of opulence. He struggled to understand what would be her schedule of the day. She imagined that he would have a busy schedule. Both jumped out of the train at Cais do Sodré. If he left the carriage first, he rested his handbag and pretended a stately gesture, only with the purpose of stopping next to the ticket vending machines, while appreciating her daily frenzy. She ran to the door leading to the street, and at the end she would turn to see him one last time that day. Every day she was afraid that that was the last time ever. When she turned her face, her mouth was slightly open, her lips tight. A strand of hair covered her face slightly, and shadowed her look. She didn’t know, but that was the high point of his day: when she did not strive to be beautiful, he saw her as the pinnacle of all that was beautiful. She read charm in him and was attracted by his enigmatic appearance, framed by filled and almost gray hair. She loved him, but he did not know.
A fenda do mealheiro, um porquinho em porcelana envernizada, cor de vomitado, permitia introduzir moedas mas não as deixava sair. O meu pai escolhera esse mealheiro de sentido único por ele corresponder à sua concepção da vida: o dinheiro foi feito para ser guardado e não para ser gasto.
(De “O Sr. Ibrahim e as Flores do Corão” | Texto francês | Em cena pelo Teatro Meridional)
Foi com este parágrafo que começou. Pela voz e interpretação de Miguel Seabra, e ao som da música de Rui Rebelo, o texto de Eric-Emmanuel Schmitt leva-nos reflectir sobre a importância dos valores e a relativização da nossa vida. Um miúdo foi abandonado pela mãe quando nasceu. O pai deixou-o anos mais tarde, e suicidou-se. O miúdo sentia-se culpado e não conseguia entender porque não era constituído de matéria passível de ser amada. Faz uma viagem pela pré-adolescência, pede para ser adoptado pelo Sr. Ibrahim da mercearia -- que não era, afinal, Árabe, mas Muçulmano -- e parte em descoberta da tolerância e da amizade, numa viagem entre a Europa do sul e o médio oriente. Moma, nome menos despretensioso que Moisés, o de baptismo, termina autodenominando-se Mohamed, dono de um espaço comercial contíguo na Rua Bleu, que afinal não é realmente azul. Porque nem sempre as coisas são o que parecem.
Pessoalmente gostei muito desta peça, à qual fui assistir ontem. Podia ter sido perfeita, se tivessem roubado 20min ao texto, pois é difícil ouvir uma narrativa de quase 2h. À parte disso, a história é densa, é sincera, é simples, é bonita, e a interpretação convincente. À medida que Miguel Seabra vai debitando o texto, Rui Rebelo vai acompanhando o ritmo com a sua guitarra, depois o piano, e por fim a flauta. O compasso musical ajuda à emotividade.
E porque aqui não se evitam temas, queria dar uma nota: inicialmente não compreendemos quaisquer limitações ao actor, mas a determinada altura é perceptível a paralisia do braço direito, o coxear da perna direita, e uma gaguez ténue, quase subtil. Vim a saber que ele foi surpreendido por um AVC há mais de 10 anos, mas que nunca se deixou vencer pelo incidente, levando a paixão do teatro em frente. Merecedor de ovação em pé, de facto.
I didn’t translate this post because it has to do with a cultural and entertainment programme in Portugal. Please come back here some other time. Thank you. .¸¸.*
*******A sua beleza resplandecia ao brilho do orvalho, mas se
tremia, não era de frio. O seu coração estava gélido de abandono, sedento após
perda que se acusava irremediável.
*******Uma pequena e escorregadia gota de chuva pousou nas suas
coloridas folhas e perguntou com acidez:
*******– Porque choras? Porque tentas atrair a pena das outras
flores a uma dor fingida?
*******Ainda mais magoada, a flor respondeu:
*******– Quem és tu para julgar aquilo que sinto? És minha
amiga? Se não és, não tenho que confiar…
*******– Desculpa, presumi apenas que uma flor não tem pelo que
chorar! Tu és muito bonita, esplendorosa e toda a gente te admira! –
desculpou-se a gotinha.
*******– Mania de todos julgarem por aquilo que vêem, e não pelo
que está por detrás de um olhar.
*******– Mas eu já te pedi desculpa. – reiterou a pequena gota!
– Queres agora dizer-me porque estás assim tão triste?
*******– Porque conheci a dor provocada pela perda, e sinto-me
murcha de impotência… – chorou a flor!
*******– De que falas tu, que eu não percebo nada? – indagou a ténue
gota. ******– Já alguém disse que te amava?
*******– Não, nem tão pouco percebo o que isso possa significar! *******– Pois a mim já! Houve um jardineiro, um jovem
jardineiro, que me encontrou e regou. Com a força do seu carinho, as minhas
folhas ganharam nova cor e brilho, e todos os dias me pareciam ensolarados. Ele
fazia sentir-me tão especial… Dizia que eu era a flor mais bonita, tocava-me
delicadamente e eu sentia-me realmente única. – explicou a flor.
*******– E o que aconteceu depois? Desapareceu? – questionou a
gotinha.
*******– Ele continua a aparecer para me regar. Mas penso que já
não o faz por afecto, mas por habituação. Pesar-lhe-ia a consciência se me
deixasse morrer por falta de rega, mas há muito que não me oferece
verdadeiramente o dom da vida! Já não diz que me ama e muito menos me faz
sentir especial.
*******Quando a flor terminou, já a pequena gota havia sido
absorvida por ela! A gotinha acreditava que podia matar um pouco a sede da
flor, embora percebesse também que muitas mais gotas seriam necessárias.
*******Quando outra delicada gota pousou nas suas folhas, a flor
perguntou-lhe:
*******– Porque nos fazem as pessoas habituar ao amor e à
amizade, se não tencionam regar os seus afectos durante o resto das suas vidas,
fazendo os outros sentir o quanto dói perder aquilo que outrora lhes
prometeram?
*******Its beauty gleamed under the brilliance of dew, but if
it shivered, it was not because of cold. Its heart was icy with abandonment,
thirsty after the loss that seemed hopeless.
*******A small and slippery drop of rain landed on its
colorful leaves and asked cuttingly:
*******- Why are you crying? Why are you trying to appeal for
the other flowers pity with a feigned pain?
*******Further hurt, the flower replied:
*******- Who are you to judge what I feel? Are you my friend?
If you’re not, I don’t have to trust in you…
*******- Sorry, I just assumed that a flower doesn’t have
reasons to cry! You are very beautiful, splendorous and everyone admires you! –
the little drop apologized.
*******- Everyone judges for what they see, and not for what is
behind a look...
*******- But I’ve already apologized. - restated the little
drop! – Can you now tell me why you're so sad?
*******- Because I knew the pain of loss, and I feel wilt with
weakness ... - cried the flower!
*******- What are you talking about? I don’t understand anything.
- asked the fainted drop.
*******- Has anyone ever told you «I loveyou»?
*******- No, and I don’t even know its meaning!
*******- Someone has told me that! There was a gardener, a
young gardener, who found me and showered me. With the strength of his
affection, my leaves have gained a whole new color and brightness, and everyday
seemed sunny days. He made me feel so special... He said I was the most
beautiful flower, touched me gently and I felt really unique. - explained the
flower.
*******- And what happened next? Did he disappear? - questioned the droplet.
*******- He still shows up to shower me. But I don’t think he’s
doing it affectionately any longer. His conscience would weigh if he let let me
die from lack of watering, but he doesn’t offer me the truly gift of life for a
while! He doesn’t’ say he loves me anymore; and he doesn’t make me feel special
now.
*******When the flower finished, the small drop has already
been absorbed by it! The droplet believed it could nourish the flower a little,
though it also realized many more drops would be needed.
*******When another delicate drop landed on its leaves, the
flower asked:
*******- Why do people make us get used to love and
friendship, if they do not intend to shower their affections for the rest of
their lives, making others feel how much it hurts to lose what they once
promised them?
…por Armando Silva: «Havia um menino pequenino que tinha
uma moeda de €0,50 no bolso. Não sabia o que comprar com ela, mas decidiu
entrar numa mercearia. Entrou na mercearia e avistou uma grande tablete de
chocolate. Quis comprá-la e pediu a um senhor grande, por detrás do balcão: “Senhor,
tenho aqui esta moeda de €0,50 e queria aquela tablete de chocolate”. O senhor conferiu:
“Queres AQUELA tablete de chocolate, menino?”. “Sim, senhor, é AQUELA que eu
quero.” “Mas aquela tablete custa €1,00, menino.” Inconformado, o menino
retorquiu: “Senhor, eu tenho esta moeda de €0,50 e vou dar-lha. O senhor parte AQUELA
tablete ao meio, dá-me uma metade e o senhor fica com a outra metade”. O
merceeiro replicou: “Ai tu queres que eu parta AQUELA tablete ao meio, te dê
metade e fique com a outra metade?”. “Sim, senhor, é isso que eu lhe estou a
pedir.” “Mexe mas é o rabo para fora da minha loja, e vai gastar essa moeda
noutro lado qualquer.” Sem se resignar, o menino abriu a porta da mercearia
para aceder ao rogo do senhor, mas… voltou atrás e agarrou na
g-r-a-n-d-e-t-a-b-l-e-t-e-d-e-c-h-o-c-o-l-a-t-e, e saiu a correr porta fora. O
menino correu, correu pela rua abaixo, correu sem pensar. Mas depois parou,
esbaforido. Olhou para a sua mão direita e encantou-se com a tablete de chocolate.
Depois ocorreu-lhe… e reparou que na sua
mão esquerda ainda tinha a m-o-e-d-a-d-e-c-i-n-q-u-e-n-t-a-c-ê-n-t-i-m-o-s. Foi
inundado por uma sensação maravilhosa: aquilo era a felicidade.»
Quando gostamos muito de uma música, o que fazemos?
- Ouvimo-la várias vezes.
Quando gostamos imenso de algum prato específico, o que acontece?
-Cresce-nos água na boca quando pensamos nele.
Quando um filme nos toca de um modo peculiar, o que se sucede?
- Vemo-lo repetidas vezes.
Quando as páginas de um livro encerram uma literatura com a qual nos identificamos, o que ocorre?
- Invariavelmente, em alguma altura da nossa vida, voltamos às mesmas, para as reler com avidez.
Então, e quando vamos ao teatro e gostamos imenso do texto, da encenação e da interpretação? Voltamos?
(…)
E porque não?
Esta noite eu vou voltar. Vou voltar à cena, ao actor, ao texto, à inquietação, às gargalhadas, às lágrimas, à indagação, à crítica, ao pensamento, ao frenesim, à perscrutação e à reflexão. E o mais provável é voltar para casa com esse tal de Armando Silva na cabeça, um homem rechonchudo, armado em guru motivacional, que apela a darmos voz ao nosso “bebé interior”, esse tal que vive em si, sobre si, chorando e reclamando o que julga ser seu de direito, sem se preocupar com os demais circundantes. O actor vestirá outras personagens, mas esta é -- indubitavelmente -- a que tem mais sumo, a que nos coloca de imediato colados(as) à cadeira, a questionar como seria se nos preocupássemos apenas e só com a nossa felicidade.
«Preocupo-me, logo existo» é uma excelente crítica à
nossa contemporaneidade, ironizando a ideia de que apenas os main
stream, os que vivem de acordo com as regras, sem nunca sair da
linha, são válidos na nossa sociedade. Como se aqueles que não querem, saber não
existissem! Ou como se nós mesmos(as), se não ligássemos às opiniões alheias,
tantas vezes transversais, não fôssemos matéria.
A teatralidade deste monólogo (nem sei se devemos chamar-lhe assim, pois o silêncio inquietante do público torna-o quase num diálogo) é muito brechtiana,
característica que atravessa os textos de (Eric) Bogosian. (Quem se lembra
de «Sexo, Drogas & Rock and Roll»?) (Eu, após ter assistido 4 vezes.) O seu
humor é inteligente, e não se importa de levar o dedo à ferida. Ao todo são 8 personagens
distintas, mas correlacionadas pela necessidade de validar preocupação e
sentimentos.
E se a tudo isto somarmos Diogo Infante? Eu cá não preciso
de mais argumentos.
Já tive oportunidade de assistir à peça há uns meses. E se
não tivesse valido a pena, não estaria ansiosa por rever. Mas estou! Até porque da outra
vez saí do teatro a questionar o porquê do gesto que o actor faz no final (atentem
ao cartaz de apresentação), que não me parece ser aleatório. Será que lhe vou
descobrir o significado desta vez?
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Quis escrever-te, sobretudo por ter imensas saudades
tuas. Tu não me conheces, e se te cruzasses comigo na rua, até nem te irias
identificar. À parte dos caracóis e do mau feitio, guardo muito pouco de ti. Não
porque não te respeite; mas porque já não sou feita da matéria dos sonhos que tão
bem te constitui.
Mantém-te segura nesse liceu para onde acabaste de te
transferir. Os outros alunos não vão ser imediatamente simpáticos contigo, pois
vens de uma cidade sobre a qual eles não querem sequer falar. Não te preocupes
se tiveres de passar os intervalos do primeiro período sempre sozinha. Os teus
colegas vão estar de olho em ti, e um dia um vai convidar-te a juntares-te ao
grupo dele. Dentro de pouco tempo farás amizade com montes de gente gira, e passarás
a ser convidada para as suas festas. Dentro de dois anos serás vice-presidente
da AE, e serás um peão importante na dinamização dos alunos no contexto
escolar. Irás sempre orgulhar-te disso.
Vais começar a embeiçar-te por rapazes de estilo grunge e
com o cabelo mais comprido e mais cuidado que o teu. Não tem mal nenhum. Nessa idade
tudo é permitido, e algumas dessas pessoas não são realmente tão indolentes
como parecem.
Sabes o P., aquele rapaz que tu conheceste há dias naquele
bar onde gostas de ir à Sexta-feira à noite? Ele vai tornar-se o teu melhor
amigo. Não agora, mas dentro de 5 anos não darás um passo na tua vida sem o
consultar. Vais construir com ele uma cumplicidade de que poucas pessoas podem
gabar-se de conhecer. Vais ter os momentos mais alucinantes e alucinados com
ele. Vais ligar-lhe, ocasionalmente, de madrugada para ele te ir oferecer o
ombro para chorar. Vais pedir-lhe conselhos de rapazes, e vais sempre discutir
por ele não te oferecer as respostas que queres ouvir. O mesmo acontecerá ao
contrário. Entre jogos de detectives e muitas conversas sobre assuntos sérios
-- e outros que nem tanto -- serão felizes, e sem grandes exigências mútuas. Infelizmente
isso não vai durar para sempre, e um aneurisma na melhor fase do P. levará a
melhor sobre a sua vida e sobre a vossa amizade. Não saberás lidar com isso. Mas
não te preocupes: o P. vai deixar-te alguém, e virás a acreditar que algures
num local não-terreno, ele continuará a preservar a tua felicidade. De que é
que estou a falar? De um rapaz de olhos verdes, giro, que ele te vai
apresentar. Esse rapaz não te vai ligar nenhuma inicialmente, e não será senão
2 após a morte do P. que se vão reencontrar e apaixonar-se. Mais tarde ele
pedir-te-á em casamento.
Não acreditas? Eu sei que não te imaginas obediente aos
cânones sociais, mas tu vais casar. As pessoas não se vão acreditar quando lhes
deres a boa nova, e algumas farão questão de estar no teu casamento só para ver
com os seus próprios olhos algo em que ninguém acreditava ser possível. Mas
calma: as coisas não são assim fáceis. Antes disto haverá uma altura em que
vais estar de costas voltadas ao amor. Porém não te preocupes: como a tua mãe
sempre diz, o que for para ti, a ti virá.
Vais entrar na faculdade e no curso que queres. Dois anos
depois ver-te-ás forçada a transferir-te para outra universidade, numa cidade
mais desenvolvida, só para que possas arranjar trabalho para continuares a
pagar os estudos. Vais entusiasmar-te com o dinheiro no final do mês e vais
relegar o curso para segundo plano. Durante uns tempos manter-te-ás confusa,
questionarás todas as tuas decisões e aprenderás cedo demais que no mundo do
trabalho só sobrevivem os mais fortes. Não sobreviverás na primeira vez, mas
ganharás calo para enfrentares outros obstáculos. Mesmo que não o saibas
imediatamente, todos os momentos menos bons farão parte das boas lições de
vida. Goza-as.
Eu sei que hoje proclamas a toda a gente que nasceste
para seres tia e que não te imaginas como mãe. A profecia vai cumprir-se:
nascerá a tua sobrinha e amá-la-ás imenso. Mas um dia vais desejar que ela
tivesse nascido das tuas vísceras. Decidirás que estás pronta, e que queres
afinal ser mãe. As coisas não vão correr logo bem nesta matéria, e vais
culpar-te. Tenta erguer-te do melhor modo possível. Espero que consigas fazer
um melhor trabalho nesta área do que eu. Gostava de te poder dizer mais coisas,
mas repara, apesar de mais velha, eu ainda não sei.
Não te detenhas nesses pequeninos “quês” que te roubam o
sorriso. Não há nada melhor, do que tua adolescência. Usufrui-a.
* Da R. mais crescida.
Hi, 15 year-old R.
I wanted to write to you, above all because I miss
you. You don’t know me, and if you’ve met me on the street, you wouldn’t even
identify yourself. Besides the curly hair and the bad temper, I don’t keep much
from you. Not because I don’t respect you; but because I’m not built of the
substance of dreams that carries you on.
Stay safe in the school to where you’ve just transferred.
The other students won’t immediately be nice to you, because you come from a
city that they don’t even want to talk about. Don’t worry if you have to be
alone during the breaks of the first term. Your colleagues will be watching
you, and one day one of them will invite you to join his group. Within no time
you’ll be friends with lots of beautiful people, and you’ll be invited to their
parties. Within two years you will be vice president of the Students
Association, and you’ll become an important pawn in boosting the students in
the school context. You'll always be proud of that.
You'll start being interested in grunge guys, with
longer and more careful hair than yours. There is no harm in that. At that age
everything is permitted, and some of these people are not really as sluggish as
they seem.
Are you familiar to P., that guy you met on that bar
where you like to go on Friday nights? He’s going to become your best friend. Not
now, but within 5 years you won’t give a step in your life without asking for
his opinion. You'll build a complicity with him that only few people have the
chance to know. You'll have the cooler and more hallucinatory moments with him.
You'll call him occasionally at dawn for him to go offer his shoulder for you
to cry. You’re gonna ask him for advice about guys, and you'll always discuss with
him because he doesn’t give you the answers you really want to hear. The same will
happen in reverse. Between detective games and lots of conversations about
serious issues -- or others not so much -- you’ll be happy together, without major
mutual demands.
Unfortunately this will not last forever and an
aneurysm in the best chapter of P. will take the better over his life and your
friendship. You won’t know how to deal with it. But do not worry: he’s going to
leave you with someone, and you will start believing that somewhere he continues
preserving your happiness. What am I talking about? About a cute green-eyed boy
he’ll introduce you. This guy is not gonna show you much interest initially,
and it won’t be before the second year after P.’s death that you two will meet
and fall in love. Later he will ask you to marry him.
Don’t you believe it? I know that you don’t picture
yourself as an obedient to social canons, but you’re going to get married. People
won’t believe when you announce it to them, and some will want to be on your
wedding just to check with their own eyes something in which none of them
believed. But easy: things are not really that straightforward. Before that, there
will be a time when you’re going to be back to back to love. But don’t worry:
as your mother always said, what is to thee shall come to you naturally.
You'll go to the college you want. Two years later you’ll
see yourself forced to change to another university in a more developed city,
just so you can get a job to continue your studies. You'll thrill you with the
money at the end of the month and the course will be relegated to the background.
You’ll be confused for a while and you’ll question all your decisions. You’ll
soon learn that only the fittest survive in the working world. You won’t
survive the first time, but you’ll gain strength to face other obstacles. Even
if you don’t understand it immediately, all the less good times will be part of
good life lessons. Enjoy them.
I know that nowadays you proclaim to everyone that you
were born to be an aunt and that you don’t see yourself as a mother. The
prophecy will be fulfilled: your niece will be born and you will love her
enormously. But someday you'll wish she had been born through your inward. You’ll
decide you're ready, and you want to be a mother after all. Things won’t be
very good on this matter and you’ll blame yourself. Try to raise yourself the
best way possible. I hope you do a better job in this area than I did. I wish I
could say more, but notice: even older, I still don’t know nothing about it.
Don’t hold on to the little problems that steal your
smile. There is nothing better than your adolescence. Enjoy it.
Os que ao longo destes dois meses
passearam com mais atenção neste blog, terão percebido que tenho uma relação
visceral com a leitura, e por consequência com os livros. (Os mais distraídos,
puderam talvez percebê-lo graficamente.) Falo em leitura genericamente, pois
todos os dias tenho que acalmar esta ânsia de conhecimento que me consome, e
por vezes só há tempo para uma visualização diagonal de algumas páginas. Quando
os minutos estão contados, contento-me com a leitura de um ou dois artigos da
Revista Sábado, a qual adquiro religiosa e semanalmente. Quando o tempo o
permite, mergulho nos livros com toda a minha atenção e devoção. Sou a favor da
monogamia no que aos livros diz respeito; quer isto dizer que nunca leio mais
do que um título de cada vez. De um modo geral o livro e as personagens
consomem todos os meus sentidos, pelo que me permito apenas um título de cada
vez. (E sempre fiquei fascinada ao olhar para a mesa-de-cabeceira do J., onde
se acumulam sempre 4 ou 5 livros, cuja leitura ele consegue fazer no mesmo
espaço temporal, sem se deixar atropelar por confusões ou desarrumações de
narrativas.)
Posto isto, já estava há imenso tempo
em falta com a resposta àquele que foi o primeiro (e único, até à data) selo /
desafio deste blog. Ainda em Março a Vivi do Esqueci-me de Viver lançou-me
neste repto à leitura, e porque entretanto outros temas e assuntos se
sobrepuseram, vim hoje responder ao mesmo.
Responder ao desafio é a parte mais
fácil. Difícil foi seleccionar o título de sugestão. Assim, para não ferir as
minhas susceptibilidades, decidi mencionar (e por consequência, sugerir) o
título que estou a reler no momento (um dos meus favoritos de sempre) e aquele
que eu arrisco apontar como o favorito (digo “arriscar”, porque os livros são
como os amigos: cada um tem alguma coisa de especial, e quando seleccionamos
aquele a quem queremos chamar de “melhor”, de certo modo estamos a relegar para
segundo plano outros que são também muiiiiiito bons).
O do momento:
«A insustentável leveza
do ser» -- Milan Kundera, Edições Dom Quixote.
Kundera escreveu este romance com uma intenção
crítica: a imposição do kitsch. Segundo ele, o kitsh arruína a arte porque lhe
confere uma falsa ideia de perfeição. E todos os sistemas e esferas, mesmo a
arte, têm aspectos negativos que não podem, nem devem, ser omitidos. A minha
personagem favorita é Sabina: complexa e inconformista, tem a sua própria noção
de alguns dos léxicos sociais, e recusa-se a fazer parte de uma maioria não indagadora.
Acima de tudo esta narrativa pretende focar-se na necessidade que todos temos
de nos inserirmos num grupo, numa sociedade, levando a que muitas vezes nos
esqueçamos dos nossos próprios intuitos e vontades em prol dessa necessidade de
inserção. Perfeito para o momento em que me encontro.
“O tal”:
«As velas ardem até ao fim»
-- Sándor Márai, Edições Dom Quixote
Esta história tem dois narradores
diferentes, mas ambos igualmente interessantes, com o poder de nos manter
agarrados à acção, que é sobretudo emocional. Talvez seja isto que eu mais
gosto neste título. O segundo narrador é concomitantemente protagonista da
história, e tem um discurso muito introspectivo, fazendo inúmeros flashbacks
para nos inteirar do porquê de um jantar à luz das velas tornar tão sombria uma
existência física tão nobre, num palácio perdido no meio da floresta. Este
livro é um verdadeiro tratado de psicanálise, a fazer lembrar muitas teorias
freudianas. No final ficamos sem saber com que protagonistas nos identificamos,
pois todos têm inúmeras nuances que atropelam as várias alçadas sobre as quais
todos somos construídos. Não revelo muito mais, mas estas páginas
consumir-vos-ão até ao tutano, tal como o fogo consome as velas que iluminam a
narrativa.
Agora queria lançar o mesmo repto a
algumas pessoas. Este selo / desafio tem algumas regras, que passo a
transcrever:
* Referir quem nos indicou.
* Escolher 10 blogues a quem passar
este selo.
* É expressamente proibido levar o
selo sem convite.
* Avisar os blogues que foram
convidados.
E porque eu não posso passar o selo a
toda a gente, fiquei com vontade de o entregar…
…à Rachelet (Sei que és devoradora de
livros, e pelo teu carácter megalómano, aposto que as sugestões serão
igualmente grandiosas.)
…ao Ice Truck Killer (Porque já
percebi que percebe carradas desta coisa de livros, e eu gostava de saber para
que géneros se inclina.)
…ao Diogo (Os teus leitores sabem
quais os livros na tua cabeceiras. Mas… qual é “o tal”?)
…à Wallis (Porque gostava de saber o
que te prende aos livros para lá de Saramago. E porque ainda por cima não páro de pensar no teu comentário que insinuava a criação de um Clube de Leitura.)
…à Ana✈(O que lês quando estás sozinha nos quartos de hotéis por esse
mundo fora?)
...ao
Mustache (Porque aposto que haverá muita filosofia na tua sugestão.)
[Peço
desculpa aos que não visei como destinatários(as) deste desafio. Mas se se
sentirem impelidos a isso, utilizem a caixa de comentários para me(nos) falar
dos vossos títulos de eleição.]
I didn’t
translate this post because it consists in a challenge to some Portuguese bloggers.
Please come back again another day. Thank you..¸¸.*
Saí
esbaforida naquele dia. Apressei-me pelas escadas abaixo, cruzei com um vizinho
que não consigo descrever e deixei escapar um "bom dia, como vai?".
Nem dei importância à ausência do seu feedback! Sabia ir encontrar um dia
agitado depois da porta do prédio, e não me podia deter em hesitações.
Enquanto
descia a avenida e analisava o meu reflexo nas montras das lojas, não fosse ter
trajado algo do lado do avesso, tropecei nuns quantos rostos familiares. A eles
sorri e questionei "passou bem?". Alguns espécimes mais distraídos
responderam em gestos mecânicos. Talvez até nem me tenham notado.
Outros
conhecidos, menos desatentos, devolveram-me a questão com a devida direcção,
mas na verdade eu também não lhes ofereci qualquer resposta.
Quando
começava a reflectir que naquela manhã ainda não me tinha aberto ao mundo, ou
recebido um sinal da sua abertura para comigo, algo fez-me despertar numa maior
clarividência. Já quase a chegar ao local de trabalho, avistei a Ana.
Sustive-me por alguns segundos na ponderação das minhas obrigações sociais e
escolhi esperar para lhe dar um "olá".
Assim
que percebeu a minha presença, rasgou o sorriso e acelerou o passo. Enquanto
nos cumprimentávamos, deixei escapar um natural "estás boa?", quando
quase em simultâneo recebia a questão "como estás?". Em frases
apressadas e atropeladas contei-lhe do projecto em que estava envolta e de como
andava tão realizada, quanto cansada.
De
sorriso solidário, a Ana afagou o meu ânimo com algumas palavras de força e
falou-me de si. Entre relatos e histórias breves dos seus sucessos pessoais e
profissionais, percebi no seu júbilo quão cristalina estava a sua aura.
Não
despendi mais do que dez dos meus preciosos minutos e acabei aquele deleitoso
encontro com um suspiro sorridente invejavelmente invejoso. Fiquei feliz pela
minha amiga! Mas acima de tudo fiquei surpreendida pelo carácter rejuvenescedor
daquela troca de palavras.
Quando
me sentei à secretária para começar a organizar o trabalho daquele dia, já nada
me soava a aborrecido ou fastidioso! Foi então que fui assaltada por uma
questão concreta do meu subconsciente:
Em
que altura da nossa vida somos forçados a voltar-nos para o nosso umbigo,
acreditando que nunca há tempo para mimar as nossas afeições, ao invés de
realmente desejar uma resposta quando saudamos alguém?
I left breathless that day. I hurried down the stairs,
ran into a neighbor who I cannot describe and I let out a “good morning, how
are you”. I didn’t mind with the absence of his feedback! I knew I was going to
face a busy day on the other side of the door of the building, and I could not
halt myself.
While walking down the street and looked at my
reflection in the shop windows (to check if I’d dressed something inside out), I
stumbled on many familiar faces. I smiled at them and questioned “how are you?”.
The more sidetracked specimens responded with mechanical gestures. Maybe they
haven’t even noticed me.
Other acquaintances, less distracted, returned the question
to me with proper direction, but I actually did not offer them any answer.
When I started thinking that on that morning I hadn’t
open myself to the world, or received a signal of its opening to me, something
made me wake up in
greater clarity. Almost arriving to work, I saw Ana and I held me for a few
seconds in the weighting of my social obligations and I chose to wait to tell her “hi”.
As soon as she noticed my presence, she tore her smile
and quickened her pace. As we greeted each other, I let out a natural "are
you ok?", when almost simultaneously I received the question "how are
you? '. In hasty and run over sentences I told her about the project in which I
was wrapped and how I was fulfilled, even if tired.
With a supportive smiling, Ana petted my spirits with
some words of strength and told me about herself. Among reports and brief
stories of her personal and professional successes, I realized in her
exultation how crystal clear her aura was.
I did not spend more than 10 minutes of my precious
time and I finished that delightful encounter with an enviably envious smiling
sigh. I was happy for my friend! But most of all, I was surprised by the rejuvenating
nature of that exchange of words.
When I sat at my desk to start organizing the job for
that day, nothing sounded boring or tedious to me! It was then when I was
assaulted by a concrete question of my subconscious:
At what point of our lives are
we forced to turn to our belly, believing that there is never time to indulge
our affections, rather than really wanting an answer when we greet someone?
Não sou particularmente aficionada da partilha de conteúdo. Mas quando alguma coisa é realmente boa, fico com vontade de deixar saber ao maior número de pessoas que aquilo merece ser visto ou ouvido. Esta manhã, enquanto olhava pela janela e via as árvores estremecerem de frio, veio-me à memória aquela que há poucos anos se tornou a minha fábula favorita. E é assim que, neste Sábado cinzento e frio, de uma Primavera que nos faz lembrar o Outono, me apetece dizer-vos que estes poderão ser os melhores 10 minutos do vosso dia. Para os que quiserem “perder” este tempo.
A mí no me encanta compartir contenidos. Pero cuando alguna cosa es realmente buena, me quedo com ganas de hacer saber a la gente que aquello merece ser visto o escuchado. Esta mañana, mientras miraba por la ventana y veía los árboles temblar de frío, me acordé de aquella que hace algunos años se convirtió en mi fábula favorita. Y es así que, en este Sábado gris y frío, de una Primavera que nos recuerda al Otoño, quiero decir que estos pueden ser los mejores 10 minutos de vuestro día. Para aquellos que quieren “perder” ese tiempo.
I’m not a fan of shared contents. But when
something is really good, I feel the need to let lots of people know that it is
worth to be seen or listened to. This morning, when I was looking through the
window and saw trees shaking with cold, came to my mind something that some
years ago became my favourite fable. And this how, in this gray and cold
Saturday, of a Spring that reminds us Autumn, I feel like telling you that
these may be the best 10 minutes of your day. To the ones who want to “lose”
this time.
Realizado por Marco Besas.
Realizado por Marco Besas.
Directed by Marco Besas.
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PT | Tradução
livre |
Era uma vez um espantalho que não tinha amigos. Ele
trabalhava num campo de trigo. Não era um trabalho difícil, mas sim muito
solitário. Sem ninguém com quem conversar, os seus dias e suas noites eram
eternas. Tudo o que podia fazer era observar os pássaros.
Cada vez que passavam, ele cumprimentava-os. Mas eles
nunca respondiam. Era como se eles lhe tivessem medo. Um dia ele fez algo
proibido: ofereceu-lhes algumas sementes. Mas ainda assim, eles não queriam
saber de nada. O Espantalho perguntava-se porque ninguém queria ser seu amigo.
Assim passou o tempo. Até que numa noite fria, caiu a seus
pés um corvo cego. O corvo estava a tremer e com fome. O Espantalho decidiu cuidar
dele. Depois de vários dias, o corvo cego melhorou. Antes de o deixar partir, o
Espantalho perguntou por que os pássaros nunca faziam amizade com os
espantalhos. O corvo explicou que o trabalho dos espantalhos era assustar as pobres
aves que só queriam comer; eram seres malvados e desprezíveis. Uns monstros.
Ofendido, o Espantalho explicou-lhe que ele não era mau,
apesar de ser um espantalho.
Uma vez mais, o espantalho ficou sem amigos. Naquela
noite decidiu mudar a sua vida. Ele acordou o seu dono e disse-lhe que queria
um outro trabalho; ele não queria assustar mais aves. Apavorado, o dono acordou
todos os seus vizinhos, disse-lhes que o seu espantalho tinha ganho vida e que
isso só poderia ser obra do diabo.
Perto dali estava o corvo cego. Os seus amigos contaram-lhe
que os moradores da vila estavam a queimar um moinho, dentro do qual estava a
tentar esconder-se um espantalho com um cachecol muito longo. O corvo cego explicou
então que esse era o espantalho bondoso, o que tinha salvo a sua vida. Emocionados
com a história, os corvos queriam salvar o Espantalho, mas era tarde demais e
não podiam fazer nada; o Espantalho morreu queimado. Os corvos esperaram até o amanhecer
e quando não havia chamas, aproximaram-se dos restos do moinho, colheram as
cinzas do Espantalho e voaram alto, muito alto… E do mais alto que puderam,
espalharam as cinzas no ar. O vento soprou as cinzas por todo o campo. As
cinzas voaram junto com todos os pássaros, deste modo o Espantalho nunca voltou
a estar só. Por que suas cinzas agora voavam com os seus novos amigos.
E em memória da trágica morte do Espantalho, o corvo cego
e todos os seus companheiros decidiram vestir-se de luto. E assim, desde então,
em memória do Espantalho, todos os corvos são… pretos.
ESP | En el original |
Erase una vez un espantapájaros que no tenía amigos.
Trabajaba en un campo de trigo, no era un trabajo difícil, pero si, muy
solitario. Sin nadie con quien hablar, sus días y sus noches, se hacían
eternas...Lo único que podía hacer era mirar los pájaros.
Cada vez que pasaban, él, los saludaba, pero ellos nunca
respondían, era como... si le tuviesen medo. Un día, el Espantapájaros hizo
algo que estaba prohibido, les ofreció unas semillas, pero aun así, ellos no
querían saber nada. El Espantapájaros se preguntaba por qué nadie quería ser su
amigo.
Así pasó el tiempo, hasta que una noche fría, cayó a sus
pies un cuervo, ciego. El cuervo estaba tiritando y hambriento, el
espantapájaros decidió cuidar de él. Tras varios días, el cuervo ciego mejoró.
Antes de despedirse, el Espantapájaros preguntó porque los pájaros nunca
querían hacerse amigos de los espantapájaros; y el cuervo explico que el
trabajo de los espantapájaros era asustar a los pobres pájaros, que solo
querían comer. Eran unos seres malvados y despreciables, ¡unos monstruos!
Ofendido, el Espantapájaros, le explico que él, no era
malo, a pesar de ser un espantapájaros.
Una vez más el Espantapájaros se quedó sin amigos. Esa
misma noche decidió cambiar su vida. Despertó a su amo, y le dijo que quería
otro oficio, que ya no quería asustar más a los pájaros. Aterrorizado el amo,
despertó a todos los vecinos, les contó que su espantapájaros había cobrado
vida, y que esto sólo podía ser obra del diablo.
Cerca del molino, estaba el cuervo ciego, sus compañeros
le explicaron que los vecinos de la aldea estaban quemando un molino donde se
intentaba esconder un espantapájaros con una bufanda muy larga. El cuervo ciego
entonces, les explico que ese, era el espantapájaros bueno, ¡el que le había
salvado la vida! Conmocionados por la historia, los cuervos quisieron salvar al
espantapájaros, pero era demasiado tarde y ya no podían hacer nada. El
Espantapájaros murió quemado. Los cuervos esperaron hasta el amanecer, y cuando
no había llamas se acercaron a los restos del molino, cogieron las cenizas del
espantapájaros y volaron alto, ¡muy alto! Y desde lo más alto, esparcieron sus
cenizas por el aire. El viento llevó las cenizas por toda la comarca. Las
cenizas volaron junto con todos los pájaros, y de esta manera, el
Espantapájaros nunca volvió a estar solo porque sus cenizas ahora volaban con
sus nuevos amigos.
Y en recuerdo de la trágica muerte del Espantapájaros, el
cuervo ciego, y todos sus compañeros, decidieron vestir de luto. Y por eso
desde entonces, en memoria del Espantapájaros, todos los cuervos ¡son...
negros!
Once upon a time, there was a
scarecrow who had no friends. He worked in a wheat field and the work was not
hard, but it was very lonely. Days and nights passed by and the scarecrow had
no one to talk to. The only thing he could
do was to look at the birds-
Each time they flew by, he'd wave at
them, but they would never answer him. They flew away as if they were afraid of
him. One day, the scarecrow did something forbidden and offered the birds some
seeds, but the birds only flew away. The lonely scarecrow wondered why no-one
wanted to be his friend.
And so time went by till, one cold
night, a blind purple crow fell at his feet. The crow was shivering and
starving to death and the lonely scarecrow decided to take care of him. After
several days, the blind crow began to get better. As he held him close, the
scarecrow told the crow how he had wrapped him in his soft scarf, stroked his
purple feathers until they became smooth, and gave him seeds to eat. Before the
crow flew away the scarecrow asked why the birds never wanted to be friend with
the scarecrows. And the crow explained that the job of the scarecrows was to
scare the poor birds who only wanted to eat. “Scarecrows are evil and
despicable… they are monsters!” said the bird.
Humiliated, the scarecrow
replied: “It´s not true! Take me, for
example. I’m not evil, and I’m a scarecrow.”
But the crow flew away, and once more, the scarecrow was left with no
friends.
That same night, that scarecrow made a
decision, he wanted another job and no longer wanted to frighten birds. Gathering his courage, the scarecrow went to
the farmer’s house and woke up the farmer.
Seeing his scarecrow talking, the farmer screamed. Terrified, the farmer
woke up all his neighbors and told everyone that his scarecrow had come to life
and that could only be something from the devil.
The neighbors chased the frightened
scarecrow across the fields until he found an old windmill to hide in. Climbing
the stairs to escape the angry people, he at last reached the top, but could
not escape the flames the people had lit. The scarecrow screamed in pain and
fear, crying for help but nobody heard, or cared, except for a few beautiful
purple crows flying around. One of them was the blind crow. Asking what was
happening, his friends told him that the villagers were burning down an old
windmill where a scarecrow with a very long scarf was trying to hide. The blind
crow knew it was the kind scarecrow who once had saved his life and quickly
told the others his story. Touched by the tale of the scarecrow’s kindness, the
crows longed to save the scarecrow and flew close, but it was too late, the
fire’s heat raged too hot, and they could only watch as the lonely scarecrow
burned and died. The crows waited until dawn, and when the flames had died down
and it was safe to get near, they flew to the crumbled and burned remains of
the windmill and gathered the ashes of the scarecrow. Flying high into the sky
until their wings ached, they scattered the ashes through the air. Caught by
the wind, the scarecrow’s ashes flew and swirled side by side with all the birds
he had longed to be friend.
In memory of the tragic death of the
scarecrow the blind crow and all his friends decided to dress in mourning. And
this is why, to this day all crows are black, in memory of the lonely scarecrow
who only wanted to be friends with the birds.
Acordei hoje com uma enorme sensação de impotência. Há dias assim! Os cheiros, as cores, as texturas, os sabores… Tudo parecia tão enraizado, tão impossível de ser transformado. Nem tentei lutar contra o improvável. Saí!
O cabelo desgrenhado caía desajeitadamente sobre os ombros. As roupas velhas tresandavam a mofo. Aos sapatos gastos não era oferecido qualquer atrito pelas pedras da calçada. Passo após passo, conduzida pelo instinto, fui seguindo na direcção das respostas às minhas perguntas. Não posso afirmar tê-las encontrado, mas quando reparei naquela estação velha, a perder o estatuto para um simples apeadeiro, uma força estranha impeliu-me a descobrir-lhe o interior.
Lá dentro vi velhos que esperavam o fim dos seus dias. Sentados, conversavam sobre tudo e sobre nada. Riam em atitude despreocupada, pois estes vivem já com o descrédito no dia de amanhã. Já não acreditam que um dia melhor virá! Consegui ver para lá do que me foi permitido ver. Cada ruga fazia-me adivinhar o peso do mundo carregado para lá do olhar. Não evitei que uma ou duas lágrimas caíssem.
Saí daquela sala de espera feia, escura e com cheiro impregnado de urina, para vir descobrir os trilhos gastos. Os bancos de madeira estavam velhos e pouco seguros. Ainda assim não hesitei em ocupar o único que estava vazio. Antes de me sentar raspei um fósforo na parede até que este incendiasse de amarelo-fogo. Este foi um gesto demorado. Só depois percebi porquê: as paredes estavam cobertas com azulejos que mostravam costumes de antigamente. Por uns segundos desejei ter vivido nos dias de ontem. Os de hoje são demasiado ingratos. Infelizes as gerações vindouras…
Acendi o cigarro, olhei à minha volta, e detive o olhar num casal de adolescentes que namorava às escondidas, atrás de uma carruagem ferrugenta e abandonada. Não impedi que uma gargalhada cúmplice fosse solta dos meus lábios em direcção aos seus ouvidos. Aperceberam-se da presença de olhares alheios e correram de mãos dadas.
Sentei-me. Não tardou que aparecesse um comboio velho que transportava pessoas velhas. Detive-me naquele lugar todo o dia. Vi o comboio transportar a mesma carruagem inúmeras vezes. Durante tantas horas, o comboio percorreu o mesmo trilho, como se não pudesse mudar a sua rota.
Então levantei-me e caminhei em direcção a casa. Havia encontrado possíveis respostas:
* Os velhos personificam o meu ego naqueles dias em que só me apetece desaparecer, nos dias em que até respirar é um exercício pesado, nos dias em que grito aos 4 ventos que não desejo mais viver.
* Os azulejos pintam a enorme vontade que me inunda mais vezes do que seria de desejar de voltar ao passado e lá viver; é o mais inconsciente desejo de voltar à infância quando tudo era tão simples como contas de somar 2 + 2 = 4.
* O casal apaixonado é um retrato do meu imo naqueles dias em que me encontro em inexplicável êxtase. Sou eu com uma enorme vontade de virar os meus dias ao contrário e viver a vida dos que sorriem.
* O comboio foi a imagem que me tirou do estado de inércia: aquela carruagem sou eu, insistindo trilhar os mesmos caminhos, desiludindo-me quando não encontro algo de novo. Mas esta carruagem pode ainda decidir mudar de rota!
Agora percebo: tenho de me libertar das cordas que me detêm na busca do sorriso perdido. Tenho de seguir uma estrada diferente da que piso…
Today I woke up with an overwhelming sense of powerlessness. There are days like this! The odors, the colors, the textures, the flavors… Everything seemed so rooted, so impossible of being transformed. I didn’t even bother to fight against the improbable. I went out!
The shaggy hair fell awkwardly on my shoulders. The old clothes stank of mold. The worn shoes were not offered any friction by the paving stones. Step by step, driven by the instinct, I went straight to the answers of my questions. I cannot claim to have found them, but when I noticed that old train station, loosing status to a simple halt, a strange strength impelled me to discover its inner.
Inside I say old people waiting for the end of his days. Seated, they talk about everything and about nothing at all. They laugh with a carefree attitude, because they already live with disrepute on tomorrows. They don’t believe anymore that a better day will come! I managed to see beyond what I was allowed to see. Each wrinkle made me guess the weight of the world loaded beyond their look. I did not that I avoid one or two tears from falling.
I left that ugly, dark space, impregnated with the smell of urine, to come discover the shabby rails. The wooden benches were old and unsafe. Even so I did not hesitate to occupy the one that was empty. Before sitting down, I scraped a match on the wall until it burned down in yellow-fire. This was a slow act. I only understood why then: the walls were covered with tiles depicting ancient costumes. For a while I wished I had lived in the days of yesterday. Those of today are too ungrateful. Unfortunate are the future generations…
I lit a cigarette, looked around, and stopped to stare a couple of teenagers who was secretly dating behind a rusty and abandoned chariot. I did not stop an accomplice laughter leaving my lips towards their ears. They became aware of the presence of unfamiliar looks and ran hand in hand.
I sat. It didn’t take long to appear an old train carrying old people. I stood there all day. I saw the train carrying that same carriage numerous times. The train travelled the same path during lots of hours, as if it could not change his route.
Then I got up and walked towards home. I may have found possible answers:
* The old people personify my ego on those days when I just want to disappear, on the days when even breathing is a heavy exercise, the days I scream I do not wish to live anymore.
* The tiles paint the urge need that floods me more times than I would want to, to go back and live in the past; it is the most unconscious desire to return to my childhood, when everything was as simple as two plus two equals four.
* The couple in love is a picture of my inner self on those days when I find myself in an unspeakable ecstasy. It is me with a huge desire to turn my days around and live the life of the ones that smile.
* The train was the picture that got me out of a state of inertia: that carriage is me, insisting on treading the same paths, disillusioning myself when I don’t find something new. But this carriage can still decide to change the route!
I understand now: I have to get rid of the strings that hold my search for the lost smile. I have to follow a different road from the one I step on…