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13 de maio de 2013

O desencontro do encontro | The mismatch of the encounter

Ele amava-a, mas ela não sabia. Viam-se todos os dias no comboio, e pousavam demoradamente o olhar um no outro. Não sorriam, e as expressões faciais não eram fáceis de ler. Ela entrava na estação da Cruz Quebrada, ele já vinha de trás. Ela não conseguia perceber de onde, mas a sua origem pouco lhe importava; o destino era o mesmo. Ela saciava o seu velho hábito de leitura, fazendo-se acompanhar por russos e suecos, norte-americanos ou espanhóis. Ele distraía-se com um tablet onde escorregavam os seus dedos, e de quando em vez erguia o olhar para se cruzar propositadamente com o dela. Não importava que houvesse pessoas de pé, a interpor-se na sua direcção: eles já conseguiam ver-se através da opacidade. Ele queria saber mais dela, para lá da cor dos olhos, da rebeldia dos caracóis e do eclecticismo dos livros. Ela montava puzzles com o intuito de construir a história dele: vestia um fato cuidado, sinal de emprego sério; ostentava gravatas impecáveis, sinal de estatuto; carregava uma mala de pele preta de marca cara, sinal de opulência. Ele esforçava-se para perceber qual seria a agenda dela em cada dia. Ela imaginava que ele teria uma agenda preenchida. Saltavam ambos para fora do comboio no Cais do Sodré. Se saísse primeiro da carruagem, ele pousava a mala e fingia um gesto faustoso, apenas com o desígnio de se deter junto às máquinas dispensadoras dos bilhetes, enquanto a apreciava no seu frenesi diário. Ela corria até à porta que dava acesso à rua, e no final voltava o rosto para o ver uma última vez naquele dia. Todos os dias ela tinha medo que aquela fosse a última de sempre. Quando ela voltava o rosto, a sua boca estava ligeiramente aberta, lábios tensos. Uma mecha de cabelo cobria-lhe superficialmente a face, e sombreava o brilho intenso do olhar. Ela não sabia, mas aquele era o ponto alto do dia dele: quando ela não se esforçava para ser bonita, ele via-a como o supra-sumo de tudo o que é belo. Ela lia-lhe charme e sentia-se atraída pelo seu ar enigmático, emoldurado por cabelos fartos, a fugir para o grisalho. Ela amava-o, mas ele não sabia.


He loved her, but she did not know. They saw each other in the train every day and laid down the look at each other at length. They didn’t smile, and the facial expressions were not easy to read. She entered in the Cruz Quebrada station; he came from somewhere back. She could not tell from where, but his origin mattered little; their destiny was the same. She sated her old habit of reading, being accompanied by the Russians and the Swedes, the North Americans and the Spaniards. He amused himself with a tablet in which their fingers slipped; now and then he lifted his gaze to cross with hers on purpose. They never minded people standing, just like obstacles on their direction: they could see each other already through opacity. He wanted to know her better, beyond her eye color, the rebellion of her curls and the eclecticism of her books. She rode puzzles in order to build his story: he wore a neat suit, sign of a serious job; he flaunted stylish ties, sign of status; he carried a black leather handbag of an expensive trade mark, sign of opulence. He struggled to understand what would be her schedule of the day. She imagined that he would have a busy schedule. Both jumped out of the train at Cais do Sodré. If he left the carriage first, he rested his handbag and pretended a stately gesture, only with the purpose of stopping next to the ticket vending machines, while appreciating her daily frenzy. She ran to the door leading to the street, and at the end she would turn to see him one last time that day. Every day she was afraid that that was the last time ever. When she turned her face, her mouth was slightly open, her lips tight. A strand of hair covered her face slightly, and shadowed her look. She didn’t know, but that was the high point of his day: when she did not strive to be beautiful, he saw her as the pinnacle of all that was beautiful. She read charm in him and was attracted by his enigmatic appearance, framed by filled and almost gray hair. She loved him, but he did not know.

6 de maio de 2013

“Quando fiz onze anos parti o mealheiro e fui ver as putas.”


A fenda do mealheiro, um porquinho em porcelana envernizada, cor de vomitado, permitia introduzir moedas mas não as deixava sair. O meu pai escolhera esse mealheiro de sentido único por ele corresponder à sua concepção da vida: o dinheiro foi feito para ser guardado e não para ser gasto.
(De “O Sr. Ibrahim e as Flores do Corão” | Texto francês | Em cena pelo Teatro Meridional)

Foi com este parágrafo que começou. Pela voz e interpretação de Miguel Seabra, e ao som da música de Rui Rebelo, o texto de Eric-Emmanuel Schmitt leva-nos reflectir sobre a importância dos valores e a relativização da nossa vida. Um miúdo foi abandonado pela mãe quando nasceu. O pai deixou-o anos mais tarde, e suicidou-se. O miúdo sentia-se culpado e não conseguia entender porque não era constituído de matéria passível de ser amada. Faz uma viagem pela pré-adolescência, pede para ser adoptado pelo Sr. Ibrahim da mercearia -- que não era, afinal, Árabe, mas Muçulmano -- e parte em descoberta da tolerância e da amizade, numa viagem entre a Europa do sul e o médio oriente. Moma, nome menos despretensioso que Moisés, o de baptismo, termina autodenominando-se Mohamed, dono de um espaço comercial contíguo na Rua Bleu, que afinal não é realmente azul. Porque nem sempre as coisas são o que parecem.

Pessoalmente gostei muito desta peça, à qual fui assistir ontem. Podia ter sido perfeita, se tivessem roubado 20min ao texto, pois é difícil ouvir uma narrativa de quase 2h. À parte disso, a história é densa, é sincera, é simples, é bonita, e a interpretação convincente. À medida que Miguel Seabra vai debitando o texto, Rui Rebelo vai acompanhando o ritmo com a sua guitarra, depois o piano, e por fim a flauta. O compasso musical ajuda à emotividade.

E porque aqui não se evitam temas, queria dar uma nota: inicialmente não compreendemos quaisquer limitações ao actor, mas a determinada altura é perceptível a paralisia do braço direito, o coxear da perna direita, e uma gaguez ténue, quase subtil. Vim a saber que ele foi surpreendido por um AVC há mais de 10 anos, mas que nunca se deixou vencer pelo incidente, levando a paixão do teatro em frente. Merecedor de ovação em pé, de facto.



I didn’t translate this post because it has to do with a cultural and entertainment programme in Portugal. Please come back here some other time. Thank you. .¸¸.*

2 de maio de 2013

A flor e a gotinha | The flower and the little drop

*******A sua beleza resplandecia ao brilho do orvalho, mas se tremia, não era de frio. O seu coração estava gélido de abandono, sedento após perda que se acusava irremediável.
*******Uma pequena e escorregadia gota de chuva pousou nas suas coloridas folhas e perguntou com acidez:
*******– Porque choras? Porque tentas atrair a pena das outras flores a uma dor fingida?
*******Ainda mais magoada, a flor respondeu:
*******– Quem és tu para julgar aquilo que sinto? És minha amiga? Se não és, não tenho que confiar…
*******– Desculpa, presumi apenas que uma flor não tem pelo que chorar! Tu és muito bonita, esplendorosa e toda a gente te admira! – desculpou-se a gotinha.
*******– Mania de todos julgarem por aquilo que vêem, e não pelo que está por detrás de um olhar.
*******– Mas eu já te pedi desculpa. – reiterou a pequena gota! – Queres agora dizer-me porque estás assim tão triste?
*******– Porque conheci a dor provocada pela perda, e sinto-me murcha de impotência… – chorou a flor!
*******– De que falas tu, que eu não percebo nada? – indagou a ténue gota.
 ******– Já alguém disse que te amava?
*******– Não, nem tão pouco percebo o que isso possa significar!
*******– Pois a mim já! Houve um jardineiro, um jovem jardineiro, que me encontrou e regou. Com a força do seu carinho, as minhas folhas ganharam nova cor e brilho, e todos os dias me pareciam ensolarados. Ele fazia sentir-me tão especial… Dizia que eu era a flor mais bonita, tocava-me delicadamente e eu sentia-me realmente única. – explicou a flor.
*******– E o que aconteceu depois? Desapareceu? – questionou a gotinha.
*******– Ele continua a aparecer para me regar. Mas penso que já não o faz por afecto, mas por habituação. Pesar-lhe-ia a consciência se me deixasse morrer por falta de rega, mas há muito que não me oferece verdadeiramente o dom da vida! Já não diz que me ama e muito menos me faz sentir especial.
*******Quando a flor terminou, já a pequena gota havia sido absorvida por ela! A gotinha acreditava que podia matar um pouco a sede da flor, embora percebesse também que muitas mais gotas seriam necessárias.
*******Quando outra delicada gota pousou nas suas folhas, a flor perguntou-lhe:
*******– Porque nos fazem as pessoas habituar ao amor e à amizade, se não tencionam regar os seus afectos durante o resto das suas vidas, fazendo os outros sentir o quanto dói perder aquilo que outrora lhes prometeram?



*******Its beauty gleamed under the brilliance of dew, but if it shivered, it was not because of cold. Its heart was icy with abandonment, thirsty after the loss that seemed hopeless.
*******A small and slippery drop of rain landed on its colorful leaves and asked cuttingly:
*******- Why are you crying? Why are you trying to appeal for the other flowers pity with a feigned pain?
*******Further hurt, the flower replied:
*******- Who are you to judge what I feel? Are you my friend? If you’re not, I don’t have to trust in you…
*******- Sorry, I just assumed that a flower doesn’t have reasons to cry! You are very beautiful, splendorous and everyone admires you! – the little drop apologized.
*******- Everyone judges for what they see, and not for what is behind a look...
*******- But I’ve already apologized. - restated the little drop! – Can you now tell me why you're so sad?
*******- Because I knew the pain of loss, and I feel wilt with weakness ... - cried the flower!
*******- What are you talking about? I don’t understand anything. - asked the fainted drop.
*******- Has anyone ever told you «I loveyou»?
*******- No, and I don’t even know its meaning!
*******- Someone has told me that! There was a gardener, a young gardener, who found me and showered me. With the strength of his affection, my leaves have gained a whole new color and brightness, and everyday seemed sunny days. He made me feel so special... He said I was the most beautiful flower, touched me gently and I felt really unique. - explained the flower.
*******- And what happened next?  Did he disappear? - questioned the droplet.
*******- He still shows up to shower me. But I don’t think he’s doing it affectionately any longer. His conscience would weigh if he let let me die from lack of watering, but he doesn’t offer me the truly gift of life for a while! He doesn’t’ say he loves me anymore; and he doesn’t make me feel special now.
*******When the flower finished, the small drop has already been absorbed by it! The droplet believed it could nourish the flower a little, though it also realized many more drops would be needed.
*******When another delicate drop landed on its leaves, the flower asked:
*******- Why do people make us get used to love and friendship, if they do not intend to shower their affections for the rest of their lives, making others feel how much it hurts to lose what they once promised them?

26 de abril de 2013

A felicidade…


…por Armando Silva: «Havia um menino pequenino que tinha uma moeda de €0,50 no bolso. Não sabia o que comprar com ela, mas decidiu entrar numa mercearia. Entrou na mercearia e avistou uma grande tablete de chocolate. Quis comprá-la e pediu a um senhor grande, por detrás do balcão: “Senhor, tenho aqui esta moeda de €0,50 e queria aquela tablete de chocolate”. O senhor conferiu: “Queres AQUELA tablete de chocolate, menino?”. “Sim, senhor, é AQUELA que eu quero.” “Mas aquela tablete custa €1,00, menino.” Inconformado, o menino retorquiu: “Senhor, eu tenho esta moeda de €0,50 e vou dar-lha. O senhor parte AQUELA tablete ao meio, dá-me uma metade e o senhor fica com a outra metade”. O merceeiro replicou: “Ai tu queres que eu parta AQUELA tablete ao meio, te dê metade e fique com a outra metade?”. “Sim, senhor, é isso que eu lhe estou a pedir.” “Mexe mas é o rabo para fora da minha loja, e vai gastar essa moeda noutro lado qualquer.” Sem se resignar, o menino abriu a porta da mercearia para aceder ao rogo do senhor, mas… voltou atrás e agarrou na g-r-a-n-d-e-t-a-b-l-e-t-e-d-e-c-h-o-c-o-l-a-t-e, e saiu a correr porta fora. O menino correu, correu pela rua abaixo, correu sem pensar. Mas depois parou, esbaforido. Olhou para a sua mão direita e encantou-se com a tablete de chocolate. Depois ocorreu-lhe…  e reparou que na sua mão esquerda ainda tinha a m-o-e-d-a-d-e-c-i-n-q-u-e-n-t-a-c-ê-n-t-i-m-o-s. Foi inundado por uma sensação maravilhosa: aquilo era a felicidade.»

E para ti[vocês], o que é?

25 de abril de 2013

Preocupo-me, logo vou!


Quando gostamos muito de uma música, o que fazemos?
- Ouvimo-la várias vezes.

Quando gostamos imenso de algum prato específico, o que acontece?
-Cresce-nos água na boca quando pensamos nele.

Quando um filme nos toca de um modo peculiar, o que se sucede?
- Vemo-lo repetidas vezes.

Quando as páginas de um livro encerram uma literatura com a qual nos identificamos, o que ocorre?
- Invariavelmente, em alguma altura da nossa vida, voltamos às mesmas, para as reler com avidez.

Então, e quando vamos ao teatro e gostamos imenso do texto, da encenação e da interpretação? Voltamos?

(…)

E porque não?

Esta noite eu vou voltar. Vou voltar à cena, ao actor, ao texto, à inquietação, às gargalhadas, às lágrimas, à indagação, à crítica, ao pensamento, ao frenesim, à perscrutação e à reflexão. E o mais provável é voltar para casa com esse tal de Armando Silva na cabeça, um homem rechonchudo, armado em guru motivacional, que apela a darmos voz ao nosso “bebé interior”, esse tal que vive em si, sobre si, chorando e reclamando o que julga ser seu de direito, sem se preocupar com os demais circundantes. O actor vestirá outras personagens, mas esta é -- indubitavelmente -- a que tem mais sumo, a que nos coloca de imediato colados(as) à cadeira, a questionar como seria se nos preocupássemos apenas e só com a nossa felicidade.



«Preocupo-me, logo existo» é uma excelente crítica à nossa contemporaneidade, ironizando a ideia de que apenas os main stream, os que vivem de acordo com as regras, sem nunca sair da linha, são válidos na nossa sociedade. Como se aqueles que não querem, saber não existissem! Ou como se nós mesmos(as), se não ligássemos às opiniões alheias, tantas vezes transversais, não fôssemos matéria.

A teatralidade deste monólogo (nem sei se devemos chamar-lhe assim, pois o silêncio inquietante do público torna-o quase num diálogo) é muito brechtiana, característica que atravessa os textos de (Eric) Bogosian. (Quem se lembra de «Sexo, Drogas & Rock and Roll»?) (Eu, após ter assistido 4 vezes.) O seu humor é inteligente, e não se importa de levar o dedo à ferida. Ao todo são 8 personagens distintas, mas correlacionadas pela necessidade de validar preocupação e sentimentos.

E se a tudo isto somarmos Diogo Infante? Eu cá não preciso de mais argumentos.

Já tive oportunidade de assistir à peça há uns meses. E se não tivesse valido a pena, não estaria ansiosa por rever. Mas estou! Até porque da outra vez saí do teatro a questionar o porquê do gesto que o actor faz no final (atentem ao cartaz de apresentação), que não me parece ser aleatório. Será que lhe vou descobrir o significado desta vez?



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23 de abril de 2013

Carta aos meus 15 anos | Letter to my 15 years-old

Olá, R. de 15 anos.

Quis escrever-te, sobretudo por ter imensas saudades tuas. Tu não me conheces, e se te cruzasses comigo na rua, até nem te irias identificar. À parte dos caracóis e do mau feitio, guardo muito pouco de ti. Não porque não te respeite; mas porque já não sou feita da matéria dos sonhos que tão bem te constitui.

Mantém-te segura nesse liceu para onde acabaste de te transferir. Os outros alunos não vão ser imediatamente simpáticos contigo, pois vens de uma cidade sobre a qual eles não querem sequer falar. Não te preocupes se tiveres de passar os intervalos do primeiro período sempre sozinha. Os teus colegas vão estar de olho em ti, e um dia um vai convidar-te a juntares-te ao grupo dele. Dentro de pouco tempo farás amizade com montes de gente gira, e passarás a ser convidada para as suas festas. Dentro de dois anos serás vice-presidente da AE, e serás um peão importante na dinamização dos alunos no contexto escolar. Irás sempre orgulhar-te disso.

Vais começar a embeiçar-te por rapazes de estilo grunge e com o cabelo mais comprido e mais cuidado que o teu. Não tem mal nenhum. Nessa idade tudo é permitido, e algumas dessas pessoas não são realmente tão indolentes como parecem.

Sabes o P., aquele rapaz que tu conheceste há dias naquele bar onde gostas de ir à Sexta-feira à noite? Ele vai tornar-se o teu melhor amigo. Não agora, mas dentro de 5 anos não darás um passo na tua vida sem o consultar. Vais construir com ele uma cumplicidade de que poucas pessoas podem gabar-se de conhecer. Vais ter os momentos mais alucinantes e alucinados com ele. Vais ligar-lhe, ocasionalmente, de madrugada para ele te ir oferecer o ombro para chorar. Vais pedir-lhe conselhos de rapazes, e vais sempre discutir por ele não te oferecer as respostas que queres ouvir. O mesmo acontecerá ao contrário. Entre jogos de detectives e muitas conversas sobre assuntos sérios -- e outros que nem tanto -- serão felizes, e sem grandes exigências mútuas. Infelizmente isso não vai durar para sempre, e um aneurisma na melhor fase do P. levará a melhor sobre a sua vida e sobre a vossa amizade. Não saberás lidar com isso. Mas não te preocupes: o P. vai deixar-te alguém, e virás a acreditar que algures num local não-terreno, ele continuará a preservar a tua felicidade. De que é que estou a falar? De um rapaz de olhos verdes, giro, que ele te vai apresentar. Esse rapaz não te vai ligar nenhuma inicialmente, e não será senão 2 após a morte do P. que se vão reencontrar e apaixonar-se. Mais tarde ele pedir-te-á em casamento.

Não acreditas? Eu sei que não te imaginas obediente aos cânones sociais, mas tu vais casar. As pessoas não se vão acreditar quando lhes deres a boa nova, e algumas farão questão de estar no teu casamento só para ver com os seus próprios olhos algo em que ninguém acreditava ser possível. Mas calma: as coisas não são assim fáceis. Antes disto haverá uma altura em que vais estar de costas voltadas ao amor. Porém não te preocupes: como a tua mãe sempre diz, o que for para ti, a ti virá.

Vais entrar na faculdade e no curso que queres. Dois anos depois ver-te-ás forçada a transferir-te para outra universidade, numa cidade mais desenvolvida, só para que possas arranjar trabalho para continuares a pagar os estudos. Vais entusiasmar-te com o dinheiro no final do mês e vais relegar o curso para segundo plano. Durante uns tempos manter-te-ás confusa, questionarás todas as tuas decisões e aprenderás cedo demais que no mundo do trabalho só sobrevivem os mais fortes. Não sobreviverás na primeira vez, mas ganharás calo para enfrentares outros obstáculos. Mesmo que não o saibas imediatamente, todos os momentos menos bons farão parte das boas lições de vida. Goza-as.

Eu sei que hoje proclamas a toda a gente que nasceste para seres tia e que não te imaginas como mãe. A profecia vai cumprir-se: nascerá a tua sobrinha e amá-la-ás imenso. Mas um dia vais desejar que ela tivesse nascido das tuas vísceras. Decidirás que estás pronta, e que queres afinal ser mãe. As coisas não vão correr logo bem nesta matéria, e vais culpar-te. Tenta erguer-te do melhor modo possível. Espero que consigas fazer um melhor trabalho nesta área do que eu. Gostava de te poder dizer mais coisas, mas repara, apesar de mais velha, eu ainda não sei.

Não te detenhas nesses pequeninos “quês” que te roubam o sorriso. Não há nada melhor, do que tua adolescência. Usufrui-a.

* Da R. mais crescida.


Hi, 15 year-old R.

I wanted to write to you, above all because I miss you. You don’t know me, and if you’ve met me on the street, you wouldn’t even identify yourself. Besides the curly hair and the bad temper, I don’t keep much from you. Not because I don’t respect you; but because I’m not built of the substance of dreams that carries you on.

Stay safe in the school to where you’ve just transferred. The other students won’t immediately be nice to you, because you come from a city that they don’t even want to talk about. Don’t worry if you have to be alone during the breaks of the first term. Your colleagues will be watching you, and one day one of them will invite you to join his group. Within no time you’ll be friends with lots of beautiful people, and you’ll be invited to their parties. Within two years you will be vice president of the Students Association, and you’ll become an important pawn in boosting the students in the school context. You'll always be proud of that.

You'll start being interested in grunge guys, with longer and more careful hair than yours. There is no harm in that. At that age everything is permitted, and some of these people are not really as sluggish as they seem.

Are you familiar to P., that guy you met on that bar where you like to go on Friday nights? He’s going to become your best friend. Not now, but within 5 years you won’t give a step in your life without asking for his opinion. You'll build a complicity with him that only few people have the chance to know. You'll have the cooler and more hallucinatory moments with him. You'll call him occasionally at dawn for him to go offer his shoulder for you to cry. You’re gonna ask him for advice about guys, and you'll always discuss with him because he doesn’t give you the answers you really want to hear. The same will happen in reverse. Between detective games and lots of conversations about serious issues -- or others not so much -- you’ll be happy together, without major mutual demands.

Unfortunately this will not last forever and an aneurysm in the best chapter of P. will take the better over his life and your friendship. You won’t know how to deal with it. But do not worry: he’s going to leave you with someone, and you will start believing that somewhere he continues preserving your happiness. What am I talking about? About a cute green-eyed boy he’ll introduce you. This guy is not gonna show you much interest initially, and it won’t be before the second year after P.’s death that you two will meet and fall in love. Later he will ask you to marry him.

Don’t you believe it? I know that you don’t picture yourself as an obedient to social canons, but you’re going to get married. People won’t believe when you announce it to them, and some will want to be on your wedding just to check with their own eyes something in which none of them believed. But easy: things are not really that straightforward. Before that, there will be a time when you’re going to be back to back to love. But don’t worry: as your mother always said, what is to thee shall come to you naturally.

You'll go to the college you want. Two years later you’ll see yourself forced to change to another university in a more developed city, just so you can get a job to continue your studies. You'll thrill you with the money at the end of the month and the course will be relegated to the background. You’ll be confused for a while and you’ll question all your decisions. You’ll soon learn that only the fittest survive in the working world. You won’t survive the first time, but you’ll gain strength to face other obstacles. Even if you don’t understand it immediately, all the less good times will be part of good life lessons. Enjoy them.

I know that nowadays you proclaim to everyone that you were born to be an aunt and that you don’t see yourself as a mother. The prophecy will be fulfilled: your niece will be born and you will love her enormously. But someday you'll wish she had been born through your inward. You’ll decide you're ready, and you want to be a mother after all. Things won’t be very good on this matter and you’ll blame yourself. Try to raise yourself the best way possible. I hope you do a better job in this area than I did. I wish I could say more, but notice: even older, I still don’t know nothing about it.

Don’t hold on to the little problems that steal your smile. There is nothing better than your adolescence. Enjoy it.

* From the older R.

16 de abril de 2013

Desafio à Leitura


Os que ao longo destes dois meses passearam com mais atenção neste blog, terão percebido que tenho uma relação visceral com a leitura, e por consequência com os livros. (Os mais distraídos, puderam talvez percebê-lo graficamente.) Falo em leitura genericamente, pois todos os dias tenho que acalmar esta ânsia de conhecimento que me consome, e por vezes só há tempo para uma visualização diagonal de algumas páginas. Quando os minutos estão contados, contento-me com a leitura de um ou dois artigos da Revista Sábado, a qual adquiro religiosa e semanalmente. Quando o tempo o permite, mergulho nos livros com toda a minha atenção e devoção. Sou a favor da monogamia no que aos livros diz respeito; quer isto dizer que nunca leio mais do que um título de cada vez. De um modo geral o livro e as personagens consomem todos os meus sentidos, pelo que me permito apenas um título de cada vez. (E sempre fiquei fascinada ao olhar para a mesa-de-cabeceira do J., onde se acumulam sempre 4 ou 5 livros, cuja leitura ele consegue fazer no mesmo espaço temporal, sem se deixar atropelar por confusões ou desarrumações de narrativas.)

Posto isto, já estava há imenso tempo em falta com a resposta àquele que foi o primeiro (e único, até à data) selo / desafio deste blog. Ainda em Março a Vivi do Esqueci-me de Viver lançou-me neste repto à leitura, e porque entretanto outros temas e assuntos se sobrepuseram, vim hoje responder ao mesmo.


Responder ao desafio é a parte mais fácil. Difícil foi seleccionar o título de sugestão. Assim, para não ferir as minhas susceptibilidades, decidi mencionar (e por consequência, sugerir) o título que estou a reler no momento (um dos meus favoritos de sempre) e aquele que eu arrisco apontar como o favorito (digo “arriscar”, porque os livros são como os amigos: cada um tem alguma coisa de especial, e quando seleccionamos aquele a quem queremos chamar de “melhor”, de certo modo estamos a relegar para segundo plano outros que são também muiiiiiito bons).

O do momento:
«A insustentável leveza do ser» -- Milan Kundera, Edições Dom Quixote.


Kundera escreveu este romance com uma intenção crítica: a imposição do kitsch. Segundo ele, o kitsh arruína a arte porque lhe confere uma falsa ideia de perfeição. E todos os sistemas e esferas, mesmo a arte, têm aspectos negativos que não podem, nem devem, ser omitidos. A minha personagem favorita é Sabina: complexa e inconformista, tem a sua própria noção de alguns dos léxicos sociais, e recusa-se a fazer parte de uma maioria não indagadora. Acima de tudo esta narrativa pretende focar-se na necessidade que todos temos de nos inserirmos num grupo, numa sociedade, levando a que muitas vezes nos esqueçamos dos nossos próprios intuitos e vontades em prol dessa necessidade de inserção. Perfeito para o momento em que me encontro.

“O tal”:
«As velas ardem até ao fim» -- Sándor Márai, Edições Dom Quixote


Esta história tem dois narradores diferentes, mas ambos igualmente interessantes, com o poder de nos manter agarrados à acção, que é sobretudo emocional. Talvez seja isto que eu mais gosto neste título. O segundo narrador é concomitantemente protagonista da história, e tem um discurso muito introspectivo, fazendo inúmeros flashbacks para nos inteirar do porquê de um jantar à luz das velas tornar tão sombria uma existência física tão nobre, num palácio perdido no meio da floresta. Este livro é um verdadeiro tratado de psicanálise, a fazer lembrar muitas teorias freudianas. No final ficamos sem saber com que protagonistas nos identificamos, pois todos têm inúmeras nuances que atropelam as várias alçadas sobre as quais todos somos construídos. Não revelo muito mais, mas estas páginas consumir-vos-ão até ao tutano, tal como o fogo consome as velas que iluminam a narrativa.


Agora queria lançar o mesmo repto a algumas pessoas. Este selo / desafio tem algumas regras, que passo a transcrever:

* Referir quem nos indicou.
* Escolher 10 blogues a quem passar este selo.
* É expressamente proibido levar o selo sem convite.
* Avisar os blogues que foram convidados.

E porque eu não posso passar o selo a toda a gente, fiquei com vontade de o entregar…
…à Rachelet (Sei que és devoradora de livros, e pelo teu carácter megalómano, aposto que as sugestões serão igualmente grandiosas.)
…ao Ice Truck Killer (Porque já percebi que percebe carradas desta coisa de livros, e eu gostava de saber para que géneros se inclina.)
…ao Diogo (Os teus leitores sabem quais os livros na tua cabeceiras. Mas… qual é “o tal”?)
…à Wallis (Porque gostava de saber o que te prende aos livros para lá de Saramago. E porque ainda por cima não páro de pensar no teu comentário que insinuava a criação de um Clube de Leitura.)
…à Ana ✈ (O que lês quando estás sozinha nos quartos de hotéis por esse mundo fora?)
...ao Mustache (Porque aposto que haverá muita filosofia na tua sugestão.)

[Peço desculpa aos que não visei como destinatários(as) deste desafio. Mas se se sentirem impelidos a isso, utilizem a caixa de comentários para me(nos) falar dos vossos títulos de eleição.]

I didn’t translate this post because it consists in a challenge to some Portuguese bloggers. Please come back again another day. Thank you. .¸¸.*

13 de abril de 2013

Ególatras Umbilicais | Umbilical egotistical


Saí esbaforida naquele dia. Apressei-me pelas escadas abaixo, cruzei com um vizinho que não consigo descrever e deixei escapar um "bom dia, como vai?". Nem dei importância à ausência do seu feedback! Sabia ir encontrar um dia agitado depois da porta do prédio, e não me podia deter em hesitações.

Enquanto descia a avenida e analisava o meu reflexo nas montras das lojas, não fosse ter trajado algo do lado do avesso, tropecei nuns quantos rostos familiares. A eles sorri e questionei "passou bem?". Alguns espécimes mais distraídos responderam em gestos mecânicos. Talvez até nem me tenham notado.

Outros conhecidos, menos desatentos, devolveram-me a questão com a devida direcção, mas na verdade eu também não lhes ofereci qualquer resposta.

Quando começava a reflectir que naquela manhã ainda não me tinha aberto ao mundo, ou recebido um sinal da sua abertura para comigo, algo fez-me despertar numa maior clarividência. Já quase a chegar ao local de trabalho, avistei a Ana. Sustive-me por alguns segundos na ponderação das minhas obrigações sociais e escolhi esperar para lhe dar um "olá".

Assim que percebeu a minha presença, rasgou o sorriso e acelerou o passo. Enquanto nos cumprimentávamos, deixei escapar um natural "estás boa?", quando quase em simultâneo recebia a questão "como estás?". Em frases apressadas e atropeladas contei-lhe do projecto em que estava envolta e de como andava tão realizada, quanto cansada.

De sorriso solidário, a Ana afagou o meu ânimo com algumas palavras de força e falou-me de si. Entre relatos e histórias breves dos seus sucessos pessoais e profissionais, percebi no seu júbilo quão cristalina estava a sua aura.

Não despendi mais do que dez dos meus preciosos minutos e acabei aquele deleitoso encontro com um suspiro sorridente invejavelmente invejoso. Fiquei feliz pela minha amiga! Mas acima de tudo fiquei surpreendida pelo carácter rejuvenescedor daquela troca de palavras.

Quando me sentei à secretária para começar a organizar o trabalho daquele dia, já nada me soava a aborrecido ou fastidioso! Foi então que fui assaltada por uma questão concreta do meu subconsciente:

Em que altura da nossa vida somos forçados a voltar-nos para o nosso umbigo, acreditando que nunca há tempo para mimar as nossas afeições, ao invés de realmente desejar uma resposta quando saudamos alguém?




I left breathless that day. I hurried down the stairs, ran into a neighbor who I cannot describe and I let out a “good morning, how are you”. I didn’t mind with the absence of his feedback! I knew I was going to face a busy day on the other side of the door of the building, and I could not halt myself.

While walking down the street and looked at my reflection in the shop windows (to check if I’d dressed something inside out), I stumbled on many familiar faces. I smiled at them and questioned “how are you?”. The more sidetracked specimens responded with mechanical gestures. Maybe they haven’t even noticed me.

Other acquaintances, less distracted, returned the question to me with proper direction, but I actually did not offer them any answer.

When I started thinking that on that morning I hadn’t open myself to the world, or received a signal of its opening to me, something made ​​me wake up in greater clarity. Almost arriving to work, I saw Ana and I held me for a few seconds in the weighting of my social obligations and I chose to wait to tell her “hi”.

As soon as she noticed my presence, she tore her smile and quickened her pace. As we greeted each other, I let out a natural "are you ok?", when almost simultaneously I received the question "how are you? '. In hasty and run over sentences I told her about the project in which I was wrapped and how I was fulfilled, even if tired.

With a supportive smiling, Ana petted my spirits with some words of strength and told me about herself. Among reports and brief stories of her personal and professional successes, I realized in her exultation how crystal clear her aura was.

I did not spend more than 10 minutes of my precious time and I finished that delightful encounter with an enviably envious smiling sigh. I was happy for my friend! But most of all, I was surprised by the rejuvenating nature of that exchange of words.

When I sat at my desk to start organizing the job for that day, nothing sounded boring or tedious to me! It was then when I was assaulted by a concrete question of my subconscious:

At what point of our lives are we forced to turn to our belly, believing that there is never time to indulge our affections, rather than really wanting an answer when we greet someone?

23 de março de 2013

A lenda do Espantalho | La leyenda del Espantapájaros | The legend of the Scarecrow


Não sou particularmente aficionada da partilha de conteúdo. Mas quando alguma coisa é realmente boa, fico com vontade de deixar saber ao maior número de pessoas que aquilo merece ser visto ou ouvido. Esta manhã, enquanto olhava pela janela e via as árvores estremecerem de frio, veio-me à memória aquela que há poucos anos se tornou a minha fábula favorita. E é assim que, neste Sábado cinzento e frio, de uma Primavera que nos faz lembrar o Outono, me apetece dizer-vos que estes poderão ser os melhores 10 minutos do vosso dia. Para os que quiserem “perder” este tempo.

A mí no me encanta compartir contenidos. Pero cuando alguna cosa es realmente buena, me quedo com ganas de hacer saber a la gente que aquello merece ser visto o escuchado. Esta mañana, mientras miraba por la ventana y veía los árboles temblar de frío, me acordé de aquella que hace algunos años se convirtió en mi fábula favorita. Y es así que, en este Sábado gris y frío, de una Primavera que nos recuerda al Otoño, quiero decir que estos pueden ser los mejores 10 minutos de vuestro día. Para aquellos que quieren “perder” ese tiempo.

I’m not a fan of shared contents. But when something is really good, I feel the need to let lots of people know that it is worth to be seen or listened to. This morning, when I was looking through the window and saw trees shaking with cold, came to my mind something that some years ago became my favourite fable. And this how, in this gray and cold Saturday, of a Spring that reminds us Autumn, I feel like telling you that these may be the best 10 minutes of your day. To the ones who want to “lose” this time.



Realizado por Marco Besas.
Realizado por Marco Besas.
Directed by Marco Besas.



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PT | Tradução livre |

Era uma vez um espantalho que não tinha amigos. Ele trabalhava num campo de trigo. Não era um trabalho difícil, mas sim muito solitário. Sem ninguém com quem conversar, os seus dias e suas noites eram eternas. Tudo o que podia fazer era observar os pássaros.

Cada vez que passavam, ele cumprimentava-os. Mas eles nunca respondiam. Era como se eles lhe tivessem medo. Um dia ele fez algo proibido: ofereceu-lhes algumas sementes. Mas ainda assim, eles não queriam saber de nada. O Espantalho perguntava-se porque ninguém queria ser seu amigo.

Assim passou o tempo. Até que numa noite fria, caiu a seus pés um corvo cego. O corvo estava a tremer e com fome. O Espantalho decidiu cuidar dele. Depois de vários dias, o corvo cego melhorou. Antes de o deixar partir, o Espantalho perguntou por que os pássaros nunca faziam amizade com os espantalhos. O corvo explicou que o trabalho dos espantalhos era assustar as pobres aves que só queriam comer; eram seres malvados e desprezíveis. Uns monstros.

Ofendido, o Espantalho explicou-lhe que ele não era mau, apesar de ser um espantalho.

Uma vez mais, o espantalho ficou sem amigos. Naquela noite decidiu mudar a sua vida. Ele acordou o seu dono e disse-lhe que queria um outro trabalho; ele não queria assustar mais aves. Apavorado, o dono acordou todos os seus vizinhos, disse-lhes que o seu espantalho tinha ganho vida e que isso só poderia ser obra do diabo.

Perto dali estava o corvo cego. Os seus amigos contaram-lhe que os moradores da vila estavam a queimar um moinho, dentro do qual estava a tentar esconder-se um espantalho com um cachecol muito longo. O corvo cego explicou então que esse era o espantalho bondoso, o que tinha salvo a sua vida. Emocionados com a história, os corvos queriam salvar o Espantalho, mas era tarde demais e não podiam fazer nada; o Espantalho morreu queimado. Os corvos esperaram até o amanhecer e quando não havia chamas, aproximaram-se dos restos do moinho, colheram as cinzas do Espantalho e voaram alto, muito alto… E do mais alto que puderam, espalharam as cinzas no ar. O vento soprou as cinzas por todo o campo. As cinzas voaram junto com todos os pássaros, deste modo o Espantalho nunca voltou a estar só. Por que suas cinzas agora voavam com os seus novos amigos.

E em memória da trágica morte do Espantalho, o corvo cego e todos os seus companheiros decidiram vestir-se de luto. E assim, desde então, em memória do Espantalho, todos os corvos são… pretos.


ESP | En el original |

Erase una vez un espantapájaros que no tenía amigos. Trabajaba en un campo de trigo, no era un trabajo difícil, pero si, muy solitario. Sin nadie con quien hablar, sus días y sus noches, se hacían eternas...Lo único que podía hacer era mirar los pájaros.

Cada vez que pasaban, él, los saludaba, pero ellos nunca respondían, era como... si le tuviesen medo. Un día, el Espantapájaros hizo algo que estaba prohibido, les ofreció unas semillas, pero aun así, ellos no querían saber nada. El Espantapájaros se preguntaba por qué nadie quería ser su amigo.

Así pasó el tiempo, hasta que una noche fría, cayó a sus pies un cuervo, ciego. El cuervo estaba tiritando y hambriento, el espantapájaros decidió cuidar de él. Tras varios días, el cuervo ciego mejoró. Antes de despedirse, el Espantapájaros preguntó porque los pájaros nunca querían hacerse amigos de los espantapájaros; y el cuervo explico que el trabajo de los espantapájaros era asustar a los pobres pájaros, que solo querían comer. Eran unos seres malvados y despreciables, ¡unos monstruos!

Ofendido, el Espantapájaros, le explico que él, no era malo, a pesar de ser un espantapájaros.

Una vez más el Espantapájaros se quedó sin amigos. Esa misma noche decidió cambiar su vida. Despertó a su amo, y le dijo que quería otro oficio, que ya no quería asustar más a los pájaros. Aterrorizado el amo, despertó a todos los vecinos, les contó que su espantapájaros había cobrado vida, y que esto sólo podía ser obra del diablo.

Cerca del molino, estaba el cuervo ciego, sus compañeros le explicaron que los vecinos de la aldea estaban quemando un molino donde se intentaba esconder un espantapájaros con una bufanda muy larga. El cuervo ciego entonces, les explico que ese, era el espantapájaros bueno, ¡el que le había salvado la vida! Conmocionados por la historia, los cuervos quisieron salvar al espantapájaros, pero era demasiado tarde y ya no podían hacer nada. El Espantapájaros murió quemado. Los cuervos esperaron hasta el amanecer, y cuando no había llamas se acercaron a los restos del molino, cogieron las cenizas del espantapájaros y volaron alto, ¡muy alto! Y desde lo más alto, esparcieron sus cenizas por el aire. El viento llevó las cenizas por toda la comarca. Las cenizas volaron junto con todos los pájaros, y de esta manera, el Espantapájaros nunca volvió a estar solo porque sus cenizas ahora volaban con sus nuevos amigos.

Y en recuerdo de la trágica muerte del Espantapájaros, el cuervo ciego, y todos sus compañeros, decidieron vestir de luto. Y por eso desde entonces, en memoria del Espantapájaros, todos los cuervos ¡son... negros!


ENG | Here |

Once upon a time, there was a scarecrow who had no friends. He worked in a wheat field and the work was not hard, but it was very lonely. Days and nights passed by and the scarecrow had no one to talk to.  The only thing he could do was to look at the birds-

Each time they flew by, he'd wave at them, but they would never answer him. They flew away as if they were afraid of him. One day, the scarecrow did something forbidden and offered the birds some seeds, but the birds only flew away. The lonely scarecrow wondered why no-one wanted to be his friend.

And so time went by till, one cold night, a blind purple crow fell at his feet. The crow was shivering and starving to death and the lonely scarecrow decided to take care of him. After several days, the blind crow began to get better. As he held him close, the scarecrow told the crow how he had wrapped him in his soft scarf, stroked his purple feathers until they became smooth, and gave him seeds to eat. Before the crow flew away the scarecrow asked why the birds never wanted to be friend with the scarecrows. And the crow explained that the job of the scarecrows was to scare the poor birds who only wanted to eat. “Scarecrows are evil and despicable… they are monsters!” said the bird.

Humiliated, the scarecrow replied:   “It´s not true! Take me, for example. I’m not evil, and I’m a scarecrow.”   But the crow flew away, and once more, the scarecrow was left with no friends.

That same night, that scarecrow made a decision, he wanted another job and no longer wanted to frighten birds.  Gathering his courage, the scarecrow went to the farmer’s house and woke up the farmer.  Seeing his scarecrow talking, the farmer screamed. Terrified, the farmer woke up all his neighbors and told everyone that his scarecrow had come to life and that could only be something from the devil.

The neighbors chased the frightened scarecrow across the fields until he found an old windmill to hide in. Climbing the stairs to escape the angry people, he at last reached the top, but could not escape the flames the people had lit. The scarecrow screamed in pain and fear, crying for help but nobody heard, or cared, except for a few beautiful purple crows flying around. One of them was the blind crow. Asking what was happening, his friends told him that the villagers were burning down an old windmill where a scarecrow with a very long scarf was trying to hide. The blind crow knew it was the kind scarecrow who once had saved his life and quickly told the others his story. Touched by the tale of the scarecrow’s kindness, the crows longed to save the scarecrow and flew close, but it was too late, the fire’s heat raged too hot, and they could only watch as the lonely scarecrow burned and died. The crows waited until dawn, and when the flames had died down and it was safe to get near, they flew to the crumbled and burned remains of the windmill and gathered the ashes of the scarecrow. Flying high into the sky until their wings ached, they scattered the ashes through the air. Caught by the wind, the scarecrow’s ashes flew and swirled side by side with all the birds he had longed to be friend.

In memory of the tragic death of the scarecrow the blind crow and all his friends decided to dress in mourning. And this is why, to this day all crows are black, in memory of the lonely scarecrow who only wanted to be friends with the birds.

9 de março de 2013

Eu ou um velho apeadeiro | Me or an old halt

Acordei hoje com uma enorme sensação de impotência. Há dias assim! Os cheiros, as cores, as texturas, os sabores… Tudo parecia tão enraizado, tão impossível de ser transformado. Nem tentei lutar contra o improvável. Saí!

O cabelo desgrenhado caía desajeitadamente sobre os ombros. As roupas velhas tresandavam a mofo. Aos sapatos gastos não era oferecido qualquer atrito pelas pedras da calçada. Passo após passo, conduzida pelo instinto, fui seguindo na direcção das respostas às minhas perguntas. Não posso afirmar tê-las encontrado, mas quando reparei naquela estação velha, a perder o estatuto para um simples apeadeiro, uma força estranha impeliu-me a descobrir-lhe o interior.

Lá dentro vi velhos que esperavam o fim dos seus dias. Sentados, conversavam sobre tudo e sobre nada. Riam em atitude despreocupada, pois estes vivem já com o descrédito no dia de amanhã. Já não acreditam que um dia melhor virá! Consegui ver para lá do que me foi permitido ver. Cada ruga fazia-me adivinhar o peso do mundo carregado para lá do olhar. Não evitei que uma ou duas lágrimas caíssem.

Saí daquela sala de espera feia, escura e com cheiro impregnado de urina, para vir descobrir os trilhos gastos. Os bancos de madeira estavam velhos e pouco seguros. Ainda assim não hesitei em ocupar o único que estava vazio. Antes de me sentar raspei um fósforo na parede até que este incendiasse de amarelo-fogo. Este foi um gesto demorado. Só depois percebi porquê: as paredes estavam cobertas com azulejos que mostravam costumes de antigamente. Por uns segundos desejei ter vivido nos dias de ontem. Os de hoje são demasiado ingratos. Infelizes as gerações vindouras…

Acendi o cigarro, olhei à minha volta, e detive o olhar num casal de adolescentes que namorava às escondidas, atrás de uma carruagem ferrugenta e abandonada. Não impedi que uma gargalhada cúmplice fosse solta dos meus lábios em direcção aos seus ouvidos. Aperceberam-se da presença de olhares alheios e correram de mãos dadas.

Sentei-me. Não tardou que aparecesse um comboio velho que transportava pessoas velhas. Detive-me naquele lugar todo o dia. Vi o comboio transportar a mesma carruagem inúmeras vezes. Durante tantas horas, o comboio percorreu o mesmo trilho, como se não pudesse mudar a sua rota.

Então levantei-me e caminhei em direcção a casa. Havia encontrado possíveis respostas:

* Os velhos personificam o meu ego naqueles dias em que só me apetece desaparecer, nos dias em que até respirar é um exercício pesado, nos dias em que grito aos 4 ventos que não desejo mais viver. * Os azulejos pintam a enorme vontade que me inunda mais vezes do que seria de desejar de voltar ao passado e lá viver; é o mais inconsciente desejo de voltar à infância quando tudo era tão simples como contas de somar 2 + 2 = 4.

* O casal apaixonado é um retrato do meu imo naqueles dias em que me encontro em inexplicável êxtase. Sou eu com uma enorme vontade de virar os meus dias ao contrário e viver a vida dos que sorriem.

* O comboio foi a imagem que me tirou do estado de inércia: aquela carruagem sou eu, insistindo trilhar os mesmos caminhos, desiludindo-me quando não encontro algo de novo. Mas esta carruagem pode ainda decidir mudar de rota!

Agora percebo: tenho de me libertar das cordas que me detêm na busca do sorriso perdido. Tenho de seguir uma estrada diferente da que piso…


Today I woke up with an overwhelming sense of powerlessness. There are days like this! The odors, the colors, the textures, the flavors… Everything seemed so rooted, so impossible of being transformed. I didn’t even bother to fight against the improbable. I went out!

The shaggy hair fell awkwardly on my shoulders. The old clothes stank of mold. The worn shoes were not offered any friction by the paving stones. Step by step, driven by the instinct, I went straight to the answers of my questions. I cannot claim to have found them, but when I noticed that old train station, loosing status to a simple halt, a strange strength impelled me to discover its inner.

Inside I say old people waiting for the end of his days. Seated, they talk about everything and about nothing at all. They laugh with a carefree attitude, because they already live with disrepute on tomorrows. They don’t believe anymore that a better day will come! I managed to see beyond what I was allowed to see. Each wrinkle made me guess the weight of the world loaded beyond their look. I did not that I avoid one or two tears from falling.

I left that ugly, dark space, impregnated with the smell of urine, to come discover the shabby rails. The wooden benches were old and unsafe. Even so I did not hesitate to occupy the one that was empty. Before sitting down, I scraped a match on the wall until it burned down in yellow-fire. This was a slow act. I only understood why then: the walls were covered with tiles depicting ancient costumes. For a while I wished I had lived in the days of yesterday. Those of today are too ungrateful. Unfortunate are the future generations…

I lit a cigarette, looked around, and stopped to stare a couple of teenagers who was secretly dating behind a rusty and abandoned chariot. I did not stop an accomplice laughter leaving my lips towards their ears. They became aware of the presence of unfamiliar looks and ran hand in hand.

I sat. It didn’t take long to appear an old train carrying old people. I stood there all day. I saw the train carrying that same carriage numerous times. The train travelled the same path during lots of hours, as if it could not change his route.

Then I got up and walked towards home. I may have found possible answers:

* The old people personify my ego on those days when I just want to disappear, on the days when even breathing is a heavy exercise, the days I scream I do not wish to live anymore.

* The tiles paint the urge need that floods me more times than I would want to, to go back and live in the past; it is the most unconscious desire to return to my childhood, when everything was as simple as two plus two equals four.

* The couple in love is a picture of my inner self on those days when I find myself in an unspeakable ecstasy. It is me with a huge desire to turn my days around and live the life of the ones that smile.

* The train was the picture that got me out of a state of inertia: that carriage is me, insisting on treading the same paths, disillusioning myself when I don’t find something new. But this carriage can still decide to change the route!

I understand now: I have to get rid of the strings that hold my search for the lost smile. I have to follow a different road from the one I step on…