Primeiro senti calafrios de ansiedade. Depois tremores de curiosidade. A seguir uma esfusiante vibração de desassossego. Ainda alguns arrepios de medo. A adrenalina… Não voltei atrás. Estava decidida a deixar que o desconhecido me invadisse, me usasse a seu bel-prazer. Queria sentir o inebriante gozo da novidade, conhecer pelo toque e pelo cheiro os que comigo partilhavam da experiência. Queria. E ao mesmo tempo temia.
Assim, sem tabus ou preconceitos.
Primeiro falaram comigo, pediram que eu confiasse. E eu confiei. Mas também percebi que nada estaria sob o meu controle, que teria de deixar-me levar por todas aquelas mãos a todos os lugares onde queriam que eu fosse. E eu não sabia onde ia.
Colocaram-me a venda, e eu fui. Guiaram-me por sons, deixaram-me tocar em que estava à minha frente. Fui, pé ante pé, reconhecendo o lugar sob todos os outros sentidos, mas completamente cega, às escuras. Tocavam-me se eu desse um passo em falso, mas deixaram-me descobrir por mim. Não sei de que cor eram as paredes, mas senti a sua textura, os cheiros que lhe estavam impregnados. Queriam que eu me embriagasse sofregamente nos meus sentidos. E de êxtase, perdi-me..
Ouvi risinhos tímidos e nervosos, e percebi que não estava sozinha. Mais alguém, gente, muita gente, também dançava ao acorde dos sentidos, cheirando, tocando, escutando, saboreando. Os minutos foram correndo sobre o relógio, correndo sobre os nossos ombros, massajando os nossos arrepios. Libertá-mo nos, gozámos da liberdade de não ver, nem ser vistos.
No fim de contas, correu tudo bem, e a experiência foi sensorialmente entusiasmante. Se nunca experimentaram, façam o vosso próprio Jantar às Cegas.
