25 de abril de 2013

Preocupo-me, logo vou!


Quando gostamos muito de uma música, o que fazemos?
- Ouvimo-la várias vezes.

Quando gostamos imenso de algum prato específico, o que acontece?
-Cresce-nos água na boca quando pensamos nele.

Quando um filme nos toca de um modo peculiar, o que se sucede?
- Vemo-lo repetidas vezes.

Quando as páginas de um livro encerram uma literatura com a qual nos identificamos, o que ocorre?
- Invariavelmente, em alguma altura da nossa vida, voltamos às mesmas, para as reler com avidez.

Então, e quando vamos ao teatro e gostamos imenso do texto, da encenação e da interpretação? Voltamos?

(…)

E porque não?

Esta noite eu vou voltar. Vou voltar à cena, ao actor, ao texto, à inquietação, às gargalhadas, às lágrimas, à indagação, à crítica, ao pensamento, ao frenesim, à perscrutação e à reflexão. E o mais provável é voltar para casa com esse tal de Armando Silva na cabeça, um homem rechonchudo, armado em guru motivacional, que apela a darmos voz ao nosso “bebé interior”, esse tal que vive em si, sobre si, chorando e reclamando o que julga ser seu de direito, sem se preocupar com os demais circundantes. O actor vestirá outras personagens, mas esta é -- indubitavelmente -- a que tem mais sumo, a que nos coloca de imediato colados(as) à cadeira, a questionar como seria se nos preocupássemos apenas e só com a nossa felicidade.



«Preocupo-me, logo existo» é uma excelente crítica à nossa contemporaneidade, ironizando a ideia de que apenas os main stream, os que vivem de acordo com as regras, sem nunca sair da linha, são válidos na nossa sociedade. Como se aqueles que não querem, saber não existissem! Ou como se nós mesmos(as), se não ligássemos às opiniões alheias, tantas vezes transversais, não fôssemos matéria.

A teatralidade deste monólogo (nem sei se devemos chamar-lhe assim, pois o silêncio inquietante do público torna-o quase num diálogo) é muito brechtiana, característica que atravessa os textos de (Eric) Bogosian. (Quem se lembra de «Sexo, Drogas & Rock and Roll»?) (Eu, após ter assistido 4 vezes.) O seu humor é inteligente, e não se importa de levar o dedo à ferida. Ao todo são 8 personagens distintas, mas correlacionadas pela necessidade de validar preocupação e sentimentos.

E se a tudo isto somarmos Diogo Infante? Eu cá não preciso de mais argumentos.

Já tive oportunidade de assistir à peça há uns meses. E se não tivesse valido a pena, não estaria ansiosa por rever. Mas estou! Até porque da outra vez saí do teatro a questionar o porquê do gesto que o actor faz no final (atentem ao cartaz de apresentação), que não me parece ser aleatório. Será que lhe vou descobrir o significado desta vez?



I didn’t translate this post because it has to do with a cultural and entertainment programme in Portugal. Please come back here some other time. Thank you. .¸¸.*

29 comentários:

  1. Respostas
    1. O melhor da sua geração. E nada atrás dos grandes donos do palco, como são exemplo Ruy de Carvalho ou Eunice Muñoz. :-)

      Eliminar
  2. Uma pessoa pode voltar ao teatro... Mas por muito que o guião e o encenador seja o mesmo, a apresentação é sempre diferente!
    Boa escolha do actor :)

    Bjxxx

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Até porque há sempre dinâmica com o público, e este nem sempre reage do mesmo modo. (E o actor? My favourite. Quando era pequenina tinha uma crush on him e tudo. :-P)

      Eliminar
  3. Gosto imenso do Diogo Infante, tenho a certeza de que vale muito a pena.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ele vai andar pelo norte nos próximos dias, S*. Se quiseres aproveitar... ;-)

      Eliminar
  4. Parece-me lógico :) Tenho que voltar ao teatro agora que vivo numa cidade onde ha uma agenda digna desse nome :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não tens por hábito ir? Eu costumo erguer as mãos ao céu a agradecer não estar perto da capital. Porque se já assim, estouro o meu dinheiro com espectáculos e afins, se os tivesse mais perto, desconfio que nem me levantava da tribuna. :-D O J. é que me costuma pôr um "freio", senão eu arranjo sempre programa cultural em qualquer lado.

      Eliminar
    2. Quase nunca me organizo para arranjar tempo/companhia. Mas agora vou (re)começar :D

      Eliminar
    3. Não precisas de esperar por companhia. Nem sempre existe quem nos queira acompanhar, e eu sou a favor de -- mesmo assim -- não nos privarmos do que queremos. :-D

      Eliminar
  5. Parece-me muito bem!

    Adorei o blogue e a tua forma de escrever!

    Já te estou a seguir! :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Parece-te bem, porque é realmente... bom. :-D
      Obrigada pelo encómio, Carpe Diem.

      Eliminar
  6. hum, goste muito, sabes se ele vem ao Porto?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Inês, tenho ideia de ontem ter lido que nos próximos dias ele vai estar pelo Norte, mas não me recordo exactamente onde. De qualquer modo podes procurar a página oficial da peça no Facebook, e seguir por lá. Eles informam sempre com antecedência. :-)

      Eliminar
  7. O Diogo Infante é realmente um grande actor; empresta qualidade a tudo que faz. Além disso tem carradas de charme!
    Eu não costumo assistir a boas peças de teatro, por um lado porque não criei grande hábito nesse sentido, por outro lado aqui na minha zona não existe muita oferta. Contudo existe uma associação de teatro experimental que tenta dinamizar a vida cultural da cidade e tem por vezes apresentações interessantes...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não sei qual o teu código postal, Laura. Mas eu também não tenho assim tanta oferta na minha cidade. Vou hoje e irei na próxima semana, pois esta é a semana do teatro por cá, e as peças de abertura e de encerramento são, no geral, muito boas. Particularmente esta, eu já tinha visto. Não aqui, claro. Mas como estou sempre atenta ao cartaz cultural das duas capitais de distrito mais próximas, fica difícil perder-lhes o rasto.
      O que ainda não decidi é se faço um workshop de teatro ou não deste Sábado a uma semana. Apesar de gostar imenso, fiz um há dois anos, e não me correu particularmente bem. No exercício de apresentação no final do workshop, bloqueei. 8-)

      Eliminar
    2. Ah, não comentei o charme do Diogo Infante. Mas... errr... não era preciso, pois não? :-D

      Eliminar
    3. Não sabes o meu código postal, mas vais saber... dentro de pouco tempo mostrarei algumas fotos da cidade onde vivo...;-) Pois. A oferta aqui também não é regular...
      Tenta o workshop novamente, para tentares ultrapassar esse bloqueio. Será uma vitória boa, já que gostas tanto de teatro. Eu não teria qualquer talento para isso.
      Pois não, não era necessário comentar o charme do Diogo.; está à vista !

      Eliminar
  8. Não conheço bem o trabalho do Diogo Infante, mas sei que é um excelente actor! Tenho imensas saudades de ir ao teatro!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Para mim é o melhor da sua geração. E é tão dono do palco com os grandes Ruy e Eunice.

      Eliminar
  9. Eu fui ver essa peça de teatro e tenho a dizer que adorei! Se voltasse à minha cidade voltava a vê-la sem pensar duas vezes :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pelos vistos ontem terminou a digressão, e agora já só volta ao São Jorge em Julho.

      Eliminar
  10. adorava ir ver

    =S

    bjs*

    http://se-tu-saltas-eu-salto.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
  11. Eu e o namorado andamos para ir ao teatro à imenso tempo.
    Nunca fomos os dois juntos e parece-me um bom programa =D

    Beijocas

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É um óóóóóóóóptimo programa a 2. :-)

      Eliminar