2 de abril de 2013

Literacia quotidiana | Everyday literacy

A noite estava escura e fria. A chuva entranhava-se-lhe nos ossos. Chegou ao destino, descarregou as malas, fez o check-in e subiu ao piso mais alto do hotel: esperava-a um quarto de decoração minimalista, de cores clean, recuado, e com um terraço a roçar céu e com vista para o Oceano Atlântico. Despiu o casaco, refrescou o rosto -- sempre se maçara imenso com viagens de automóvel -- e abriu as portadas. Quis sentir a brisa, mesmo que fria. Do alto dos seus sapatos de saltos elevadíssimos, atravessou o degrau que a separava do exterior. O pé direito assentou no chão. Este estava escorregadio. Ela rodou sobre o seu corpo, tentou suportar a queda amparando-se com a mão direita, torceu o pulso, embateu sobre o seu lado esquerdo e bateu com a cabeça na cerâmica gélida e aguada, absorvendo todo o impacto. E foi assim, com o olho negro exibido no post anterior, que deu início ao seu fim-de-semana pascoal.

The night was dark and cold. The rain went deep in her bones. She arrived at her destiny, unloaded the baggage, checked-in and went upstairs, to the highest floor of the hotel: a secluded room, with minimalist decoration and clean colors, was expecting her. The terrace cropped the sky and had a view to the Atlantic Ocean. She took her coat off, freshened up her face -- she had always felt bored with long car journeys-- and opened the portals. She wanted to feel the breeze, even if it was cold. From the top of her high heel shoes, she crossed the step that separated her from the outside. The right foot sat on the floor. It was slippery. She rolled onto her body, tried to stand up bolstering the fall with her right hand, sprained her wrist, struck on her left side and hit her head on the cold and watery ceramic, absorbing the full impact. And that was how she started her Easter weekend, with the black eye displayed in the previous post.

24 comentários:

  1. Estávamos a ir tão bem até à sexta linha...Até me doeu cá deste lado =/

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  2. Como é que um olho negro dá um texto, digno de ser manuscrito num caderno qualquer, qualquer não, O Adequado, O Merecedor de tais palavras?
    Quando é que o lanças?
    Podias ter dito que vinham volta por Lisboa. Sempre vos indicava sítios melhores que a casa da guia, que com o tempo que esteve não deve ter tido piada nenhuma.
    Bom regresso.

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    1. Oh Diogo, eu não caibo em mim de vaidade com esses comentários. :-)))
      Não disse que não ia a Lisboa, porque não previa que estivesse sempre a chover a cântaros no Estoril. Já que íamos fazer programas de interior, ao menos que fossem pela capital. Que sugestões seriam essas?

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  3. Concordo com o Diogo. Um evento desagradável origina parágrafos absolutamente deliciosos. Por favor, para quando o livro R.?

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    1. Não adianta só saber escrever: é preciso um bom enredo. É isso que vende, não a literatura. :-(

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    2. Não estamos a ver a parte comercial, falamos sim da tal experiência do caderno manuscrito. Sinceramente acho que seria uma inovação na escrita trazia para junto dos leitores.
      O quê?! Para além disso ainda vais enviar os teus textos, aqui do blog outros conflitos, escritos pela tua mão, para a nossa morada?!
      És a maior!

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    3. Vá, este, o de cima, comentário pode ser apagado. Não vá alguém cobrar.

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    4. Quem cobrar, que dê dinheiro à entrada antes. ;-)

      Mas agora diz-me tu, Diogo. Quem escreve, não almeja vender, de modo a chegar mais longe junto dos leitores, e até obter benefícios com isso? Se for para escrever para as paredes, vou continuando a fazê-lo aqui por minha casa. :-P

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    5. Ontem tive precisamente essa discussão com dois amigos meus, ali pelos lados do cais do sodré, já tarde, e já sem "sede", em que o tema, o negócio, mas no desporto. Sempre joguei futebol, inclusive, em clubes com equipas na primeira liga, e nunca, nunca pedi um euro que fosse. Fazia-o pelo puro prazer que a actividade me dava e dá, bem sei que se fosse mais longe teria de ganhar a minha subsistência, mas ter isso como factor mais importante ainda vai um bom bocado.
      Tenho a ideia que primeiro vem o prazer depois, naturalmente, chegam os dividendos. Outro tema que terei de desenvolver. Pena é ser só conversa e o meu blog continuar "vazio" de conteúdo.

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  4. só posso dizer que és uma poeta de prosas! :)

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    1. Vou guardar essa junto de outras expressões engraçadas que já me "ofereceram".

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    1. E continua a doer... Por vezes nem consigo mexer o sobrolho. *snif, snif*

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  6. Auch!!! Que biolência! E o hotel não te recompensou de alguma forma? Uma massagenzinha por exemplo...

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    1. Nem me lembrei de indagá-los sobre isso, NTW. Mas tinha vindo a calhar, tinha.

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  7. Pena o que te aconteceu, felizmente sem gravidade pelos vistos....mas realmente o texto está escrito com perfeição.

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    1. Obrigada, Laura. Vindo de ti, é um elogio a dobrar. :-D

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  8. Eish devem ter sido dores horríveis, quando vi a foto fez-me impressão. As melhoras querida

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    1. Na hora foi mau, muito mau. Mas em menos de 10min estava a rir às gargalhadas, enquanto mantinha um saco cheio de gelo sobre o bendito olho!

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  9. Credo... espero que esteja tudo bem agora.

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    1. Tem estado a mudar de cor à medida do tempo. :-)

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