2 de maio de 2013

A flor e a gotinha | The flower and the little drop

*******A sua beleza resplandecia ao brilho do orvalho, mas se tremia, não era de frio. O seu coração estava gélido de abandono, sedento após perda que se acusava irremediável.
*******Uma pequena e escorregadia gota de chuva pousou nas suas coloridas folhas e perguntou com acidez:
*******– Porque choras? Porque tentas atrair a pena das outras flores a uma dor fingida?
*******Ainda mais magoada, a flor respondeu:
*******– Quem és tu para julgar aquilo que sinto? És minha amiga? Se não és, não tenho que confiar…
*******– Desculpa, presumi apenas que uma flor não tem pelo que chorar! Tu és muito bonita, esplendorosa e toda a gente te admira! – desculpou-se a gotinha.
*******– Mania de todos julgarem por aquilo que vêem, e não pelo que está por detrás de um olhar.
*******– Mas eu já te pedi desculpa. – reiterou a pequena gota! – Queres agora dizer-me porque estás assim tão triste?
*******– Porque conheci a dor provocada pela perda, e sinto-me murcha de impotência… – chorou a flor!
*******– De que falas tu, que eu não percebo nada? – indagou a ténue gota.
 ******– Já alguém disse que te amava?
*******– Não, nem tão pouco percebo o que isso possa significar!
*******– Pois a mim já! Houve um jardineiro, um jovem jardineiro, que me encontrou e regou. Com a força do seu carinho, as minhas folhas ganharam nova cor e brilho, e todos os dias me pareciam ensolarados. Ele fazia sentir-me tão especial… Dizia que eu era a flor mais bonita, tocava-me delicadamente e eu sentia-me realmente única. – explicou a flor.
*******– E o que aconteceu depois? Desapareceu? – questionou a gotinha.
*******– Ele continua a aparecer para me regar. Mas penso que já não o faz por afecto, mas por habituação. Pesar-lhe-ia a consciência se me deixasse morrer por falta de rega, mas há muito que não me oferece verdadeiramente o dom da vida! Já não diz que me ama e muito menos me faz sentir especial.
*******Quando a flor terminou, já a pequena gota havia sido absorvida por ela! A gotinha acreditava que podia matar um pouco a sede da flor, embora percebesse também que muitas mais gotas seriam necessárias.
*******Quando outra delicada gota pousou nas suas folhas, a flor perguntou-lhe:
*******– Porque nos fazem as pessoas habituar ao amor e à amizade, se não tencionam regar os seus afectos durante o resto das suas vidas, fazendo os outros sentir o quanto dói perder aquilo que outrora lhes prometeram?



*******Its beauty gleamed under the brilliance of dew, but if it shivered, it was not because of cold. Its heart was icy with abandonment, thirsty after the loss that seemed hopeless.
*******A small and slippery drop of rain landed on its colorful leaves and asked cuttingly:
*******- Why are you crying? Why are you trying to appeal for the other flowers pity with a feigned pain?
*******Further hurt, the flower replied:
*******- Who are you to judge what I feel? Are you my friend? If you’re not, I don’t have to trust in you…
*******- Sorry, I just assumed that a flower doesn’t have reasons to cry! You are very beautiful, splendorous and everyone admires you! – the little drop apologized.
*******- Everyone judges for what they see, and not for what is behind a look...
*******- But I’ve already apologized. - restated the little drop! – Can you now tell me why you're so sad?
*******- Because I knew the pain of loss, and I feel wilt with weakness ... - cried the flower!
*******- What are you talking about? I don’t understand anything. - asked the fainted drop.
*******- Has anyone ever told you «I loveyou»?
*******- No, and I don’t even know its meaning!
*******- Someone has told me that! There was a gardener, a young gardener, who found me and showered me. With the strength of his affection, my leaves have gained a whole new color and brightness, and everyday seemed sunny days. He made me feel so special... He said I was the most beautiful flower, touched me gently and I felt really unique. - explained the flower.
*******- And what happened next?  Did he disappear? - questioned the droplet.
*******- He still shows up to shower me. But I don’t think he’s doing it affectionately any longer. His conscience would weigh if he let let me die from lack of watering, but he doesn’t offer me the truly gift of life for a while! He doesn’t’ say he loves me anymore; and he doesn’t make me feel special now.
*******When the flower finished, the small drop has already been absorbed by it! The droplet believed it could nourish the flower a little, though it also realized many more drops would be needed.
*******When another delicate drop landed on its leaves, the flower asked:
*******- Why do people make us get used to love and friendship, if they do not intend to shower their affections for the rest of their lives, making others feel how much it hurts to lose what they once promised them?

22 comentários:

  1. A dor da perda, seja ela de amor ou de amizade, é uma dor que demora a passar e a explicar, disfarçando-se muitas vezes em sorrisos. E nunca sabemos o que está por detrás de um sorriso. Alegre, triste ou divertido pode esconder um verdadeiro turbilhão de sentimentos...

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    1. Como dizia a raposa de Saint-Exupery, «o essencial é invisível aos olhos»-

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  2. Um texto que descreve uma grande realidade, devemos sempre alimentar o amor e amizade a cada dia que passa!

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    1. Aparentemente fácil, é afinal uma tarefa difícil.

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  3. lindoooooo
    ;)
    bjs*


    http://se-tu-saltas-eu-salto.blogspot.pt/

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  4. Antes de mais muito obrigada pela dica!!! Vou aproveita-la :)

    Quanto ao teu texto... Tens tod a razão, porque motivo as pessoas cultivam as amizades e as relações se depois não dão mais continuidade?!

    Bjxxx

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    1. Porque vão com muita sede ao pote, apostam tudo no início, gastam energias, e cansam-se rápido da novidade.

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  5. O teu texto deixou-me a pensar. Como leonina que se preze dou muito valor aos meus afectos e vou até ao fim do Mundo por eles. Mas sinto que, pelos mais variados motivos, também já fui "jardineira", já magoei algumas pessoas :( Um pouco como o principezinho e a sua rosa.

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    1. Já fomos todos a gotinha e a flor. Vamos mutuando papéis todos os dias, e inevitavelmente magoamos e somos magoados(as). Como a raposa dizia ao principezinho, é preciso cativar. Mas cativar dá trabalho. É aquela coisa de alguém vir às quatro horas, e às três já estarmos preparados(as) e em pulgas... :-)

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  6. Um texto muito bonito. Fez-me lembrar a temática d' "O Principezinho"... Na prática, salienta a importância (pelo menos), de que não se deve suscitar o interesse de alguém se não existe uma vontade de amar. As pessoas existem para serem amadas, não para serem usadas como algo de descartável.

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    1. Nem mais, Laura; está bem resumido. Por vezes acho que as pessoas são inconsequentes sem querer, mas isso não as desculpa. É preciso analisarmos sempre, e percebermos se estamos a entregar-mo-nos como as outras pessoas se entregam. Se estivermos a dar mais, muito bem. Se estivermos a dar menos, devemos concluir rapidamente se realmente queremos sequer dar.

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    2. No fundo, o que está sempre em questão é ser verdadeiro. Eu já levei tanto estalo de pessoas que nunca imaginei que a partir de agora tudo para mim é desporto... Mas não abdico de ser verdadeira.

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    3. Eu também não. Antes controversa com a verdade, do que estupidamente falsa. Prefiro também as pessoas que dizem na cara, do que as que dizem por trás.

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  7. ohhh está super lindo! Amei... a tua profissão é ligada à escrita?

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    1. Não, Audrey, já te tinha respondido que não tem nada a ver com artes ou letras. Eu trabalho com números. (Mas eu sei, estou na profissão errada. :-D)

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  8. As pessoas iludem, magoam... e nem percebem.

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