16 de abril de 2013

Desafio à Leitura


Os que ao longo destes dois meses passearam com mais atenção neste blog, terão percebido que tenho uma relação visceral com a leitura, e por consequência com os livros. (Os mais distraídos, puderam talvez percebê-lo graficamente.) Falo em leitura genericamente, pois todos os dias tenho que acalmar esta ânsia de conhecimento que me consome, e por vezes só há tempo para uma visualização diagonal de algumas páginas. Quando os minutos estão contados, contento-me com a leitura de um ou dois artigos da Revista Sábado, a qual adquiro religiosa e semanalmente. Quando o tempo o permite, mergulho nos livros com toda a minha atenção e devoção. Sou a favor da monogamia no que aos livros diz respeito; quer isto dizer que nunca leio mais do que um título de cada vez. De um modo geral o livro e as personagens consomem todos os meus sentidos, pelo que me permito apenas um título de cada vez. (E sempre fiquei fascinada ao olhar para a mesa-de-cabeceira do J., onde se acumulam sempre 4 ou 5 livros, cuja leitura ele consegue fazer no mesmo espaço temporal, sem se deixar atropelar por confusões ou desarrumações de narrativas.)

Posto isto, já estava há imenso tempo em falta com a resposta àquele que foi o primeiro (e único, até à data) selo / desafio deste blog. Ainda em Março a Vivi do Esqueci-me de Viver lançou-me neste repto à leitura, e porque entretanto outros temas e assuntos se sobrepuseram, vim hoje responder ao mesmo.


Responder ao desafio é a parte mais fácil. Difícil foi seleccionar o título de sugestão. Assim, para não ferir as minhas susceptibilidades, decidi mencionar (e por consequência, sugerir) o título que estou a reler no momento (um dos meus favoritos de sempre) e aquele que eu arrisco apontar como o favorito (digo “arriscar”, porque os livros são como os amigos: cada um tem alguma coisa de especial, e quando seleccionamos aquele a quem queremos chamar de “melhor”, de certo modo estamos a relegar para segundo plano outros que são também muiiiiiito bons).

O do momento:
«A insustentável leveza do ser» -- Milan Kundera, Edições Dom Quixote.


Kundera escreveu este romance com uma intenção crítica: a imposição do kitsch. Segundo ele, o kitsh arruína a arte porque lhe confere uma falsa ideia de perfeição. E todos os sistemas e esferas, mesmo a arte, têm aspectos negativos que não podem, nem devem, ser omitidos. A minha personagem favorita é Sabina: complexa e inconformista, tem a sua própria noção de alguns dos léxicos sociais, e recusa-se a fazer parte de uma maioria não indagadora. Acima de tudo esta narrativa pretende focar-se na necessidade que todos temos de nos inserirmos num grupo, numa sociedade, levando a que muitas vezes nos esqueçamos dos nossos próprios intuitos e vontades em prol dessa necessidade de inserção. Perfeito para o momento em que me encontro.

“O tal”:
«As velas ardem até ao fim» -- Sándor Márai, Edições Dom Quixote


Esta história tem dois narradores diferentes, mas ambos igualmente interessantes, com o poder de nos manter agarrados à acção, que é sobretudo emocional. Talvez seja isto que eu mais gosto neste título. O segundo narrador é concomitantemente protagonista da história, e tem um discurso muito introspectivo, fazendo inúmeros flashbacks para nos inteirar do porquê de um jantar à luz das velas tornar tão sombria uma existência física tão nobre, num palácio perdido no meio da floresta. Este livro é um verdadeiro tratado de psicanálise, a fazer lembrar muitas teorias freudianas. No final ficamos sem saber com que protagonistas nos identificamos, pois todos têm inúmeras nuances que atropelam as várias alçadas sobre as quais todos somos construídos. Não revelo muito mais, mas estas páginas consumir-vos-ão até ao tutano, tal como o fogo consome as velas que iluminam a narrativa.


Agora queria lançar o mesmo repto a algumas pessoas. Este selo / desafio tem algumas regras, que passo a transcrever:

* Referir quem nos indicou.
* Escolher 10 blogues a quem passar este selo.
* É expressamente proibido levar o selo sem convite.
* Avisar os blogues que foram convidados.

E porque eu não posso passar o selo a toda a gente, fiquei com vontade de o entregar…
…à Rachelet (Sei que és devoradora de livros, e pelo teu carácter megalómano, aposto que as sugestões serão igualmente grandiosas.)
…ao Ice Truck Killer (Porque já percebi que percebe carradas desta coisa de livros, e eu gostava de saber para que géneros se inclina.)
…ao Diogo (Os teus leitores sabem quais os livros na tua cabeceiras. Mas… qual é “o tal”?)
…à Wallis (Porque gostava de saber o que te prende aos livros para lá de Saramago. E porque ainda por cima não páro de pensar no teu comentário que insinuava a criação de um Clube de Leitura.)
…à Ana  (O que lês quando estás sozinha nos quartos de hotéis por esse mundo fora?)
...ao Mustache (Porque aposto que haverá muita filosofia na tua sugestão.)

[Peço desculpa aos que não visei como destinatários(as) deste desafio. Mas se se sentirem impelidos a isso, utilizem a caixa de comentários para me(nos) falar dos vossos títulos de eleição.]

I didn’t translate this post because it consists in a challenge to some Portuguese bloggers. Please come back again another day. Thank you. .¸¸.*

13 de abril de 2013

Ególatras Umbilicais | Umbilical egotistical


Saí esbaforida naquele dia. Apressei-me pelas escadas abaixo, cruzei com um vizinho que não consigo descrever e deixei escapar um "bom dia, como vai?". Nem dei importância à ausência do seu feedback! Sabia ir encontrar um dia agitado depois da porta do prédio, e não me podia deter em hesitações.

Enquanto descia a avenida e analisava o meu reflexo nas montras das lojas, não fosse ter trajado algo do lado do avesso, tropecei nuns quantos rostos familiares. A eles sorri e questionei "passou bem?". Alguns espécimes mais distraídos responderam em gestos mecânicos. Talvez até nem me tenham notado.

Outros conhecidos, menos desatentos, devolveram-me a questão com a devida direcção, mas na verdade eu também não lhes ofereci qualquer resposta.

Quando começava a reflectir que naquela manhã ainda não me tinha aberto ao mundo, ou recebido um sinal da sua abertura para comigo, algo fez-me despertar numa maior clarividência. Já quase a chegar ao local de trabalho, avistei a Ana. Sustive-me por alguns segundos na ponderação das minhas obrigações sociais e escolhi esperar para lhe dar um "olá".

Assim que percebeu a minha presença, rasgou o sorriso e acelerou o passo. Enquanto nos cumprimentávamos, deixei escapar um natural "estás boa?", quando quase em simultâneo recebia a questão "como estás?". Em frases apressadas e atropeladas contei-lhe do projecto em que estava envolta e de como andava tão realizada, quanto cansada.

De sorriso solidário, a Ana afagou o meu ânimo com algumas palavras de força e falou-me de si. Entre relatos e histórias breves dos seus sucessos pessoais e profissionais, percebi no seu júbilo quão cristalina estava a sua aura.

Não despendi mais do que dez dos meus preciosos minutos e acabei aquele deleitoso encontro com um suspiro sorridente invejavelmente invejoso. Fiquei feliz pela minha amiga! Mas acima de tudo fiquei surpreendida pelo carácter rejuvenescedor daquela troca de palavras.

Quando me sentei à secretária para começar a organizar o trabalho daquele dia, já nada me soava a aborrecido ou fastidioso! Foi então que fui assaltada por uma questão concreta do meu subconsciente:

Em que altura da nossa vida somos forçados a voltar-nos para o nosso umbigo, acreditando que nunca há tempo para mimar as nossas afeições, ao invés de realmente desejar uma resposta quando saudamos alguém?




I left breathless that day. I hurried down the stairs, ran into a neighbor who I cannot describe and I let out a “good morning, how are you”. I didn’t mind with the absence of his feedback! I knew I was going to face a busy day on the other side of the door of the building, and I could not halt myself.

While walking down the street and looked at my reflection in the shop windows (to check if I’d dressed something inside out), I stumbled on many familiar faces. I smiled at them and questioned “how are you?”. The more sidetracked specimens responded with mechanical gestures. Maybe they haven’t even noticed me.

Other acquaintances, less distracted, returned the question to me with proper direction, but I actually did not offer them any answer.

When I started thinking that on that morning I hadn’t open myself to the world, or received a signal of its opening to me, something made ​​me wake up in greater clarity. Almost arriving to work, I saw Ana and I held me for a few seconds in the weighting of my social obligations and I chose to wait to tell her “hi”.

As soon as she noticed my presence, she tore her smile and quickened her pace. As we greeted each other, I let out a natural "are you ok?", when almost simultaneously I received the question "how are you? '. In hasty and run over sentences I told her about the project in which I was wrapped and how I was fulfilled, even if tired.

With a supportive smiling, Ana petted my spirits with some words of strength and told me about herself. Among reports and brief stories of her personal and professional successes, I realized in her exultation how crystal clear her aura was.

I did not spend more than 10 minutes of my precious time and I finished that delightful encounter with an enviably envious smiling sigh. I was happy for my friend! But most of all, I was surprised by the rejuvenating nature of that exchange of words.

When I sat at my desk to start organizing the job for that day, nothing sounded boring or tedious to me! It was then when I was assaulted by a concrete question of my subconscious:

At what point of our lives are we forced to turn to our belly, believing that there is never time to indulge our affections, rather than really wanting an answer when we greet someone?

12 de abril de 2013

R. del Piño vs. R. del Pumba

Baptizada de Maria das Lamentações, a Vivi eternizou-se no seu Esqueci-me de Viver, e em menos de 2 meses de blogosfera, conseguiu um número impressionante de leitores, seguidores e comentadores. Tal proeza deve-se em parte à sua simpatia, mas sobretudo à interactividade que ela própria gera na sua página. Fui incitada por ela a participar num desafio que consistia em contar algum episódio engraçado, aproveitando o anonimato de que normalmente fazemos uso por aqui. Eis a minha participação hoje publicada por lá:

21 anos. Primeiro dia de trabalho na administração de uma grande superfície comercial. Roupa nova. Casaco de cabedal vermelho, top lindo de seda (sem costas, mas não era suposto ninguém ver), calcinha preta, vincada, com dobra no fundo da perna (na altura usava-se), e umas botas vermelhas, com um salto de 12cm. A apresentação correu bem, o início do trabalho também, e teria sido o perfeito primeiro dia de trabalho, não fosse o… incidente. A hora de almoço estava apertada. Como estava em início de funções, tinha trabalho atrasado. Decidi descer ao shopping para comer uma sopa rápida, ou outra coisa qualquer. Acontece que o que separava o espaço da administração com a o primeiro piso do centro eram três lanços de escadas, íngremes e cansativas. Correr nelas já era suicídio. Correr de saltos altos, era para kamikazes. Correr de saltos e com calças compridas com dobra no fundo foi combinação catastrófica: o salto prendeu-se na dobra, a bainha das calças descoseu, o salto partiu, para me tentar equilibrar lancei-me com os braços na frente, fiz demasiada força, as mangas do casaco descoseram, e eu estatelei-me por 7 ou 8 degraus abaixo. De repente estava ali, toda rota, descosida, descabelada e sem um salto de uma bota. Estava a tentar cair em mim de novo, quando ouvi a porta de cima. Tentei levantar-me a tempo, para que ninguém me visse naquele estado, mas já não fui a tempo. A secretária da administração viu-me, tentou dar-me cobertura, e querida, disse que me ia buscar uma sopa, para eu não ir “passear” assim para o shopping. Voltei ao escritório, e como estava com o casaco descosido, decidi tirá-lo. A ausência do salto da bota foi disfarçada em bicos de pés. A bainha das calças disfarçada com fita-cola. E eu fiquei o resto da tarde a trabalhar assim, de costas desnudadas, com o meu director a insinuar que não estava assim tanto calor. A secretária não contou a ninguém, e só meses mais tarde decidimos abrir o jogo de como eu tinha assentado logo no meu primeiro dia. A partir daí ninguém me tratou mais por R. del Piño, mas por R. del Pumba.

11 de abril de 2013

Ontem | Yesterday


Depois da revelação de ontem, são poucas as palavras que me trazem hoje aqui. Houve quem dissesse que foi corajoso. Houve quem dissesse que foi arrojado. Houve quem se comovesse. Houve quem chorasse. Houve quem tentou animar-me. Houve quem quis devolver-me a esperança. Houve quem se identificasse. Houve quem dissesse esperar que tal não lhes acontecesse. Houve comentários e houve e-mails. Se as minhas palavras e a minha exposição serviram para sensibilizar mais alguém para o tema, então valeu a pena. Se os meus aforismos e a minha manifestação servirem para, futuramente, ajudarem alguém [ou a vós mesmos(as)], então dou por bem empregue ter usado este poderoso veículo de comunicação para falar sem tabus sobre um assunto que pelos vistos muitos tentam calar -- porque ninguém gosta de falar de rubricas sérias. Porque quando eu precisei, não houve ninguém que estivesse realmente preparado para me ouvir, para me confortar. Desenganem-se os que pensam que a forma como expus foi demasiado crua e bruta. É assim, tal e qual, que se sentem todas as mulheres que tiveram vidas arrancadas do ventre. O discurso, a vontade de morrer, o desespero e a esperança em decréscimo são traços transversais a todas nós. E não importam credos, crenças, raças ou cores. Uma esperança roubada dói no coração de todas nós de modo semelhante.

Obrigada por estarem desse lado e não desistirem de me ler.

Afteryesterday’s disclosure, there are only a few words that made me come here today. Some said it was gutsy. Some said it was daring. Some were moved at that. Some cried. Some tried to cheer me up. Some tried to give me back hope. Some identified to it. Some said they were not expecting that to happen with them. Some stated it on the commentaries form and some e-mailed me. If my words and my exposure served to sensitize the subject to someone else, then they were worth it. If my aphorisms and my manifestation help someone in the future [or even yourselves], then it was worth it using this powerful means of communication to talk about a subject without taboos; a subject that many apparently try to silence -- because no one likes to talk about serious things. Because when I needed it, there was no one really prepared to listen to me, to comfort me. Don’t make a fool of yourselves thinking that the way I expressed it was raw and brutal. This is it: the way all women who have had lives ripped away from their womb feel. The speech, the wish to die, the despair and the hope in decline are traits that cut across all of us. And creeds, beliefs, races or colours don’t matter at all. A stolen hope hurts our heart in similar ways.

Thank you for being on that side and not giving up reading this.

10 de abril de 2013

Olá!, eu sou a R. e já sofri duas perdas gestacionais | Hi!, I’m R., and I’ve had two miscarriages

Faz hoje dois meses que, exactamente por esta hora, dei entrada num hospital que ainda me estava cravejado na memória, na pele e nos ossos. Um hospital de onde tinha saído dilacerada e partida ao meio, 72 dias antes, depois de acordar do recobro de uma situação idêntica à que me levara ali naquele dia. A dor já me era familiar. A vontade de morrer também.

Deus, se estás a ouvir os meus pensamentos ou a ler este blog, quero que saibas que já não acredito em Ti. Crê que Te respeitei toda a vida, e que tentei regrar a minha conduta de acordo com os princípios pronunciados pela Tua doutrina. Fui Tua fã e acérrima defensora, contra tudo e contra todos. Às vezes as pessoas diziam-me vacilar na sua fé, e eu tinha sempre uma palavra de conforto em Tua defesa. Agora as pessoas devolvem-me o gesto e dizem que És grande e misericordioso. Para mim isto não passa de uma ideia fantasiada. Treta do pior! Agora sei que andamos todos “cá em baixo” sozinhos, entregues à nossa própria sorte e a um destino incerto. Estou magoada Contigo. Já não quero saber de Te amar. Já não quero saber do Teu catecismo. Já não creio nesse grandioso amor que todos dizem que tens por nós. Queria ter a rede de conforto e a confiança que sempre julguei e acreditei ter.

Se é verdade que nos vais colocando frente a frente com estes infortúnios para nos pores à prova, então admito que falhei redondamente. Tenho uma ferida aberta, exposta, onde se acumula matéria e ódio, impaciência pela Tua criação e total desrespeito para com o curso que escolheste para mim. Desejava estar a agradecer-Te, ao invés de pensar com desprezo no que a vida me reservou. Se o Teu problema é comigo, por que raio roubaste a vida à menina que já vivia no meu ventre há alguns meses? Se é a minha fé que queres medir, por que razão tornaste a segunda vida gerada no meu ventre num mar de sangue? Quantas vidas tens roubado Tu do ventre de outras mulheres? Quantas vidas tens empurrado para o ventre de outras? Vai ser sempre assim? Roubas os filhos das mulheres que os desejam, das mulheres que tornam a simples talha de engravidar na mais majestosa e nobre tarefa das suas vidas, e vais oferecendo um sem número de filhos às mulheres que não os querem, que não os desejam, que nem sequer se esforçam para criar as devidas condições para os receberem? Eu sei que se algum dia tornar a engravidar não vou poder sequer mexer um braço, esticar uma perna ou contorcer o abdómen. Sei que vou estar sempre exposta ao risco. Sei que a vida de um filho no meu ventre vai estar sempre presa por um fio. Mas entretanto vou ouvindo falar de mulheres que se atiram escadas abaixo para perder os frutos do seu ventre, e que ainda assim os mantêm; vou conhecendo cada vez mais casos de mulheres que vendem os seus filhos para superar a crise; vou sabendo que há um sem número de mulheres que não se privam de nada, nem sequer de dar cambalhotas ao 5º mês de gestação, e que dão à luz crianças saudáveis. É a isto que chamas de justiça divina? São as iguais condições que ofereces a todos os Teus filhos? É o amor incondicional que ofereces a todos os elementos da Tua criação?

A vida nunca me deu nada de mão beijada. Os estudos, o trabalho, o dinheiro ao final do mês… foi tudo construído com sangue e suor, e a ter de me esforçar o dobro das outras pessoas. Nunca me resignei e sempre Te estive agradecida por me teres ensinado a dar mais valor ao conquistado. Mas as vidas que não ajudaste a segurar no meu ventre? Essas… essas nunca Te irei perdoar.


At exactly this time, it has been two months since I was admitted in a hospital that was still encrusted in my memory, skin and bones. A hospital where I had left torn apart and split in two only 72 days before, after waking up from an identical situation that brought me there that day. The pain was already familiar. The willingness to die too.
God, if You’re listening to my thoughts or reading this blog, I want You to know that I no longer believe in You. Believe that I’ve always respected You, and that I always tried to regulate my conduct in accordance with the principles pronounced by Thy doctrine. I was always Your fan and a staunch defender, against everything and everyone. Sometimes people would show some lack of faith, and I always had a word of comfort in Thy defense. Now people return me that gesture, saying You’re great and merciful. To me this is just a costume idea. Bulshit! Now I know that we're all "down here" alone, left to our own luck and to an uncertain fate. You’ve hurt me. I don’t want to know anything about loving You. I do not want to know Thy catechism. I no longer believe in this great love that everyone says You have for us. I wanted to have the comfort net and confidence that always believed I had.

If it is true that You put us face to face with these misfortunes to put us to the test, I have to admit I failed miserably. I have an exposed open wound, where anger, substance, impatience for Your creation and total disrespect for the course you have chosen for me are accumulating. I wanted to be thanking Thee, instead of thinking with the contempt about what life has reserved for me. If Your problem is with me, why the hell did you stole the life to the little girl who was living in my belly for a few months? If you wanted to measure my faith, why did You turn the second life I’d generated in my womb into a sea of blood? How many lives have You stolen from the womb of other women? How many lives have You pushed into the womb of others? Will it always be like this? Are You going to keep stealing the children of women who desire them, and offering a countless number of children to the ones that don’t want them? I know that if I ever become pregnant again I won’t even be allowed to move an arm, to stretch a leg or contracting my abdomen. I know I'll always be at risk. I know that the life of a child in my womb will always be hanging by a thread. But in the meantime I'll hear about women who throw themselves down stairs to lose the fruit of their womb, and yet keep them; I'll know more and more cases of women who sell their children to overcome the crisis; I’ll know that there is a countless women who doesn’t deprive themselves of anything, not even somersaulting by the 5th month of pregnancy and giving birth to healthy children. Is this the so-called divine justice? Are these the same conditions that you offer to everyone? Is this the unconditional love that You offer to all elements of your creation?

Life has never given me anything for granted. Studies, work, money at the end of the month… it was all built with blood and sweat, having to push myself twice as many others. I never resigned and I’ve always been grateful about You to teaching me how to give more value to what I’ve conquered. But the lives You didn’t keep in my womb? Those… those I’ll never forgive You.

9 de abril de 2013

Amanhã | Tomorrow

Amanhã vou finalmente abrir o jogo. Vou soltar os demónios, as inseguranças, as questões e as inquietações que me assolam. Vou deitar cá para fora aquilo de que as pessoas não querem falar. Vou mostrar a minha ferida. Vou exibir a sombra e a nuvem sobre as quais tenho vivido. Não quero saber se vão gostar ou não. Tudo na vida é mesmo assim: um dia identificamo-nos, no outro dia repudiamo-nos. Já não consigo calar o tema. Não consigo fazer de conta que de momento não é sobre esta preocupação que conduzo a minha leva diária. Apesar de já o ter insinuado algumas vezes, penso que ainda ninguém entendeu o verdadeiro motivo do meu regresso à blogosfera. Ainda ninguém sabe porque tive de ocupar os meus tempos livres com alguma coisa que me prenda a atenção. Ainda ninguém compreendeu o verdadeiro motivo de eu me ter tornado uma pessoa tão zangada. Amanhã eu vou dizer. Amanhã irão saber.

Tomorrow I will finally show my game. I'll release the demons, the insecurities, the issues and the concerns that plague me. I'll throw out what people do not want to talk about. I will show my wound. I’ll scatter the shadow and the cloud under which I’ve been living. I do not care whether you like it or not. Everything in life is that way: one day we identify ourselves with someone; on the other day we reject each other. I just cannot shut the theme anymore. I cannot pretend that this isn’t my biggest current concern. Despite having already hinted it a few times, I think that nobody understood the real reason of my return to the blogosphere. No one knows why I had to occupy my spare time with something that caught my attention. No one understood the real reason I have become a so angry person. Tomorrow I'm going to tell it. Tomorrow you will know.

8 de abril de 2013

E porque a Segunda-feira me deixa pior que estragada... | And because Monday makes me worse than "rotten"...

Não gosto de brócolos, de queijo de cabra, que acelerem quando os estou a ultrapassar, de falar ao telefone, de chico-espertismo, que vivamos sobre o sacrifício animal, de pessoas irritadas, de pessoas irritantes, de café, de vinho, de cerveja, de conversas interrompidas, que falem por cima de mim, de calças de ganga, de dormir de peúgas, de música baiana, de Quim Barreiros, do "Apita ao Comboio", de autocarros, de campismo, de ostentação, que o J. me mexa nas unhas, de andar de mão dada, de conversas "fofinhas" depois de fazer amor, que me tratem por "querida", "amor" ou "linda", que me olhem de lado, de hipocrisia, de mentiras, de falsos amigos, de ares condicionados, do barulho de aparelhos eléctricos, de motrizadas, de perfumes enjoativos, do choro de crianças em aviões, da ignorância intencional, de pessoas que nem sequer se esforçam, de chocolate negro, do cheiro do queijo da serra, de perder, de ficar doente, de hospitais, de correr, de esperar, de perder tempo, de perder o controlo, que tentem comandar a minha vida, de conversas de circunstância, de ir no banco do "pendura", que me contrariem quando tenho razão, de pessoas que sabem demais, de pessoas que querem saber demais, de vizinhos cuscos, de bêbedos, de indigentes, de mexer em dinheiro, de fazer cafuné, de ficar retida no trânsito, de acordar cedo, de acordar tarde, de vinagre, de Sabados à noite em casa, de rodeios, de rodeos, de touradas, de circos, de jardins zoológicos, de mal tratos a animais, do abandono na terceira idade, de pessoas demasiado sérias, de batota, que não respondam ao meu "bom dia", de reuniões, de segundas-feiras, de ciganos romenos, de corrupção, de jogos de poder, de ter medo, de vendedores de "banha da cobra", de pedantes, de títulos honoríficos, do cheiro de suor, de areia colada ao corpo, de tocar em maçanetas de portas de locais públicos, de desculpas esfarrapadas, de pessoas que não pedem desculpa, de caça, de acender a luz quando ainda há luz do sol, de saunas, de sotaques acentuados, de arrumadores de carros, de desorganização, de depilar as sobrancelhas, de baratas, de centopeias, de bichas-cadela, do cheiro de tabaco, de passar a ferro, de dormir em camas por fazer, de ter tiques nervosos, de ser assediada por pessoas à porta de lojas, de futebol, de falta de originalidade, da falta de formação cívica, de chuva, de pessoas lentas, do cheiro de vinhadalho, de U2, da rotina, de frases feitas, de claustrofobias, de falar "para o boneco", de roupa com borbotos, de me secar depois do banho, de livros de auto-ajuda, de gurus de espécie alguma, de GPSs, de não ter 100% de audição, que me tratem pelo meu primeiro nome, de pessoas que fazem as rotundas pelo lado de fora, de insinuações, de trabalhar por objectivos, de marcas de base na roupa e de promessas de amor eterno.

I don’t like broccoli, goat’s cheese, someone speeding up when I’m overcoming him/her, talking on the phone, living upon animal sacrifice, irritated people, irritating people, coffee, wine, beer, interrupted conversations, someone talking over me, jeans, sleeping with socks, Bahia music, Quim Barreiros, "Apita o Comboio", buses, camping, ostentation, J . stirring my nails, walking hand in hand, fluffy talk after making love, someone treating me as "dear", "love" or "beautiful", someone looking at me sideways, hypocrisy, lies, phonies, air conditioners, the noise from electrical appliances, motor assisted bicycles, cloying perfumes, crying children on airplanes, willful ignorance, people who do not even strive, dark chocolate, the smell of mountain cheese, losing, getting sick, hospitals, running, waiting, wasting time, losing control, someone trying to control my life, small talk, sitting on the side of the driver, someone contradicting me when I’m right, people knowing too much, people wanting to know to much, curious neighbors, drunk people, touching money, caressing, being retained in traffic, waking up early, waking up late, vinegar, Saturday evenings at home, subterfuges, rodeos, bullfights, circuses, zoos, mistreating to animals, abandonment of the elderly, too serious people, cheating, the ones who don’t respond to my "good morning", meetings, Mondays, Romanian gypsies, corruption, games of power, being afraid, pedants, honorary degrees, the smell of sweat, sand glued to the body, touching doorknobs in public places, lame excuses, people who do not apologize, hunting, turn on the light when there is sunlight, saunas, sharp accents, disorganization, plucking the eyebrows, cockroaches, centipedes, earwigs, the smell of tobacco, ironing, sleeping in beds that weren’t previously made, having tics, being harassed by people on the door of shops, football, lack of originality, lack of civic, rain, slow people, the smell of wine garlic marinade, U2, the routine, cliché sentences, claustrophobia, talking to the backside , clothes with fluffs, drying after bathing, self-help books, any kind of gurus, GPSs, not having 100% of hearing ability, be treated by my first name, people who make roundabouts on the outside, insinuations, working for goals, foundation stains on clothes and eternal love promises.

7 de abril de 2013

O meu mais recente passatempo: "árvore em bandeja" | My most recent hobby: "planting in a tray"

Dizer que as mulheres gostam de receber flores é um cliché; trata-se de uma ideia generalizada, que por vezes não encontra contextualização junto de alguns elementos do sexo feminino. Considerem-me como exemplo. Particularmente sempre preferi que me levassem a passear a um jardim, do que me oferecessem um grande ramo de rosas. Por isso, a cada Domingo de Ramos, a mãe da minha afilhada excede-se em criatividade para me surpreender, cumprindo com a tradição em concomitância. Foi assim que este ano recebi algo que há muito me gerava curiosidade, e sobre o qual queria aprender o que me fosse permitido: um bonsai.

Entretanto descobri que grandes superfícies como o Max Mat, o Bricomarché e o Continente há muito deixaram de ter artigos próprios, pois a “moda já passou” (eu cá adoro o retro-chic).

Tenho dedicado algum tempo à leitura de artigos que nos ensinam a cuidar destas pequenas árvores em bandeja cuja origem é, afinal, chinesa (pois há registos de cultivo de plantas envasadas -- conhecidas por Penjing -- no país mais populoso do mundo já por volta do ano 200 d.c.), e não japonesa, como todos anunciam.

Por ora parece que estou a fazer tudo comme il faut, e até já desenvolvi carinho por aquele pequeno ser vivo. Espero estar à altura da minuciosa e paciente tarefa, e quero oferecer-lhe uma longa e próspera vida.

Se desse lado houver entendidos, dicas serão bem-vindas.


Saying that women like to be given flowers is a cliché; it is a widespread thought that sometimes doesn’t fit some of female elements contexts. Take me for example. I’ve always preferred to be taken for a walk in a garden, than to receive a big bouquet of roses. So every Easter Sunday, the mother of my goddaughter exceeds herself in creativity in order to amaze me, fulfilling the tradition simultaneously. So this year I received something that made me curious for a long time, and about what I wanted to learn everything I was allowed to: a bonsai.

Meanwhile I found out that big commercial establishments have long ceased to have proper articles, once that’s not fashion these days (but I love retro-chic).

I've been spending some time reading articles that teach how to take care of these small trees in a tray, which origin is, after all, Chinese (as there are records of cultivated potted plants -- known as Penjing -- in the most populous country in the world around the year of 200 AD), and not Japanese, like everyone thinks.

For now it seems I'm doing everything properly, and I even developed affection for the little living being. I hope to be up to the meticulous and patient task, and I want to offer the tree a long and prosperous life.

If you are experts on this matter, tips are welcome.