17 de março de 2013

O dia em que ele se afastou | The day he drifted away.

Há 5 anos, neste mesmo dia, dormi -- parte no chão, parte num banco frio -- no aeroporto de Schiphol, em Amesterdão. Curiosamente tinha deixado para trás um quarto de hotel em Utrecht: confortável, previamente reservado, previamente pago, com lençóis frescos e cobertores aconchegantes. E apesar de o regresso a casa estar marcado para o dia seguinte, havendo já bilhete de avião pago, dormi no aeroporto de modo a convencer a TAP de que realmente necessitava de um lugar num voo naquela manhã, que não queria saber do voo mais tarde, nem do dinheiro do bilhete que eles não me iriam restituir. Eu tinha de voltar. Queria estar onde eu pertencia, junto daqueles que me queriam. Uma noite mal dormida, 8h debaixo de um frio descomunal e €600,00 à frente, a maior companhia de linha aérea de Portugal estava convencida de que as minhas lágrimas eram verdadeiras, e estava a disposta a pôr-me em solo português o mais brevemente possível. Uma hospedeira chegou junto de mim, acarinhou-me o ombro para me despertar, e disse: «está na hora da sua partida». E eu vim. Deixei para trás os amigos com quem tinha viajado, e fiz o percurso sozinha. Talvez a palavra se tenha espalhado, pois só assim se justifica a contagiante simpatia com que fui brindada por toda a tripulação. Sem que o pedisse, ofereceram-me almofada e cobertor. «Está com um ar cansado», diziam. E eu mal esperava por chegar a casa. Cinco horas depois estava a abraçar a minha família. Estava a abraçar todos os membros que mais amo, excepto um. Ele estava num caixão aberto, com funeral adiado para aguardar o meu regresso, e à espera que eu o beijasse derradeiramente. Eu cheguei, abracei-o, beijei-o na testa, disse-lhe “obrigada”, limpei-lhe o rosto com as minhas lágrimas e tapei-o com uma espécie de véu branco. O caixão fechou-se. O seu corpo ficou debaixo de terra; mas a sua imagem, os seus ensinamentos, o seu amor incondicional, o seu carinho, as suas palavras de conforto, as suas mãos fortes, as suas unhas impecavelmente limpas, as bochechas continuamente perfumadas, a roupa perfeitamente asseada e sem vincos e as memórias de quase 3 décadas de convivência frequente, esses… esses ninguém mos tira. Se o Céu existe, não tenho dúvidas que é lá que estás, Vozinho, e isso inspira-me a ser melhor pessoa, para mais tarde vir a encontrar um espaço eterno ao teu lado.


5 years ago, on this same day, I slept -- partially on the floor, partially on a cold bench -- at Schiphol airport, in Amsterdam. Curiously I had left behind a hotel room in Utrecht: comfortable, previously booked, previously paid, with fresh sheets and comfy blankets. And despite having my return on next day’s agenda, even having the plane ticket paid, I’ve slept at the airport to convince TAP that I really needed a place in a flight on that morning, that I didn’t care about the later flight, nor the ticket money they would not reimburse me. I had to come back. I wanted to be where I belonged, together with the ones that wanted me. A bad night’s sleep, 8 hours under a huge cold and €600,00 later, the largest airline company in Portugal was convinced that my tears were real, and it was willing to put me on Portuguese soil as soon as possible. A hostess came near me, caressed my shoulder to wake me up, and said: «it’s time for you to go». And I came. I’ve left behind the friends with whom I’ve traveled, and I’ve done this journey alone. Maybe the word had been spread, because only this justifies the contagious friendliness with which I was offered by the whole crew. Without requesting it, they gave me a pillow and a blanket. «You look tired», they said. And I was hardly waiting to get home. Five hours later I was hugging my family. I was hugging all the relatives I love, except one. He was in and open casket, with a postponed funeral, waiting for my return, waiting for me to kiss him for the last time. I arrived, hugged him, kiss him on his forehead, said «thank you», cleaned his face with my tears and I covered him with a kind of a white veil. The coffin was closed. His body stayed beneath earth; but his image, his teachings, his unconditional love, his kindness, his words of comfort, his strong hands, his impeccably clean nails, his continuously fragrant cheeks, his clothes perfectly cleaned and without creases and the memories of almost three decades of frequently coexistence, those... those cannot be taken away from me. If Heaven really exists, I have no doubts that you’re there, Grandpa, and that inspires me to be a better person, for me to find later a timeless place next to you.

16 de março de 2013

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades | Times change, wills move

...dizia Camões. E é isto que me vem à mente para iniciar o que aqui vos queria contar. E eu conto: nas minhas primeiras viagens com o J. eu agia qual japonês de máquina fotográfica em riste a retratar as pedras da calçada, as esquinas dos edifícios e os pombos nos bebedouros (como se não houvesse calçada, esquinas ou pombos no nosso cantinho à beira-mar plantado). E ele, para além de aborrecer-se imenso com a minha demora, não evitava uma torcida de nariz sempre que eu lhe pedia para me tirar uma fotografia (o que acontecia com muita cadência, admitamos -- «Olha a Torre Eiffel.» Tira foto. «Olha um tobogã!» Tira foto. «Olha a Casa Milà.» Tira foto.)

Talvez tenha sido por esta minha obsessão. Talvez seja sintoma contagioso. Ou talvez nada disto. Mas a verdade é que o J. um dia decidiu: «se é para fazer fotografia, então que seja a sério». Investiu em material, investiu em alguma formação, e lançou-se à produção de imagens.

E agora vos digo: cuidado com aquilo que desejam. Porque eu almejei que ele não se mostrasse tão fastidioso quando eu lhe pedia para me retratar (porque o meu sorriso reage a estímulos), e quando dei por mim estava a ser alvo de milhares centenas de fotografias e a desesperar: «já chega, J.», «estou cansada», «já me doem os maxilares de tanto sorrir», «por favor pára», «já estás a exagerar», «não sejas chato», «olha, vou-me embora, sim?». E a verdade é que ele desenvolveu um inquestionável engenho, mostrou uma verdadeira aptidão, e ainda agora começou.

E sim, podem considerar-me suspeita a bradar acerca do seu talento. Eu suspeitaria. Mas pelos vistos a opinião é partilhada por uns quantos entendidos, pois no outro dia nós fomos ele foi surpreendido por um convite inusitado.

Então este dia vai ser passado na execução do objecto do convite: entre produção, maquilhagem, guarda-roupa, cenários, cenas e actores (um mais amador do que outra). O J. vai fazer a sua primeira realização cinematográfica. É certo que é apenas a de uma ínfima parte de uma longa-metragem, mas que importa? Uma casa não se constrói do tecto.

J. na mira da minha objectiva.
J. under the sight of my lens.

…said Camões. And this is what comes to my mind to kick off what I wanted to tell you about. And I’ll tell you: during my first trips with J. I acted as Japanese with my camera poised to portray cobblestones, buildings corners and pigeons in drinkers (as if there weren’t sidewalks, corners or pigeons in our little country planted on beachfront). And J., besides getting bored with my delay, he wouldn’t avoid twisting his nose whenever I asked him to photograph me (what happened too often, let’s admit it -- «Look, there’s Eiffel Tower.» Take a photograph. «Look, there’s a toboggan.» Take a photograph. «Look, there’s Milà House.» Take a photograph.)

Maybe it was because of this obsession. Maybe this symptom is contagious. Or maybe because none of this. But the truth is J. once decided: «if the purpose is to shoot, then you shall shoot perfectly». He invested in material, invested in his education, and he tossed himself to image production.

And now I tell you: be careful what you wish for. Because I wished that he wouldn’t show himself so fastidious when I asked him to take photographs to me (because my smile reacts to spur), and then I found myself being the target of thousands hundreds of photographs and despairing: «it’s enough, J.», «I’m tired», «my jaws already hurt because of smiling so much», «please stop», «you’re over reacting», «don’t be so boring», «look, I’m going away now, ok?». And the truth is that he developed an unquestionable ingenuity, showed a true ability, and he has just started.

And yes, you may consider myself suspect when crying out about his talent. I’d suspect it. But apparently my opinion is shared by some connoisseurs; because on the other day we were he was surprised by an unusual invitation.

So we are going to spend this day executing the object of the invitation: between productions, make-up, costumes, sceneries, scenes and actors (one more amateur than other). J. is going to make his first filmmaking. Admittedly, it is only a tiny part of a feature film, but who cares? A house is not built from the ceiling.

15 de março de 2013

1º Mesiversário do Umbilicalidades da R. | 1st Monthaversary of Umbilicalidades da R.

Há um mês apregoei que o dia 15 era um excelente dia parafazer “nascer” um blog. Ainda não tem 30 dias, e o Umbilicalidades da R. já tem tantas coisas. Tantas coisas de mim, mas sobretudo tantas coisas de vós. Publiquei 36 mensagens (umas com mais conteúdo do que outras). Recebi para lá de 2.000 visitas (assumamos que as restantes centenas foram minhas em busca de novos comentários, novos seguidores, novas interacções), e ganhei 20 seguidores. Diverti-me em busca de blogs com que me identifico, e fiquei feliz a cada comentário de simpatia, de identificação e de reconhecimento que recebi.

Aos que vieram e não voltaram, aos que ainda estão para vir, mas sobretudo aos que vieram e ficaram, o-b-r-i-g-a-d-a.

1º Mesiversário do Umbilicalidades da R.
1st Monthaversary of Umbilicalidades da R.

A month ago I cried out that the 15th day was an excellent day to “give birth”to a blog. It still isn’t 30 days old, and Umbilicalidades da R. has already lots of things. So many things of me, but especially so many things from you. I published 36 messages (some with more content than others). I received more than 2.000 visits (I assume that the remaining are from me searching for new comments, new followers, new interactions), and I gained 20 followers. I had fun searching for blogs with which I identify myself, and I got happy at every comment of affection, identification and recognition.

To the ones who came here and did not return, to the ones that hadn’t come yet, but above all to the ones that came and stayed here, t-h-a-n-k-y-o-u.

14 de março de 2013

Certezas e orgasmos | Certainties and orgasms

Há uns anos atrás, nessa pérola da literatura do povo que é a Revista Maria (“A sua melhor amiga”, como apregoam) li a resposta a uma dúvida colocada por uma qualquer jovem, não casta, mas inocente: ela contava um episódio que se teria passado entre ela e o namorado, dizia que tinha sentido uma espécie de tremuras quando brincava às casinhas com ele, e indagava se tinha tido um orgasmo. O(a) psicólogo(a) da revista, esse supra-sumo da sabedoria, ciência e instrução, terá respondido simplesmente: «no dia em que tiver um orgasmo vai saber; não vai ficar com qualquer dúvida».

Hoje dei comigo a recordar este pedaço de leitura que tanto aprecio, e pensei «quão simples seria se tudo na vida fosse assim?». Porque tenho vindo a esquadrinhar com dúvida:

Quando é que sabemos que alguma coisa já deu o que tinha a dar?


A few years ago, in this literature pearl that Maria¹ is (“Your best friend”, they say), I read the answer to the question posed by a young girl, not caste, but innocent: she was telling about an episode between her and her boyfriend, said she felt a kind of shakiness when they were playing doctors with each other, and was wondering if what she felt was an orgasm. The psychologist of the magazine, the pinnacle of wisdom, science and education, answered with simplicity: «you’ll know when you have an orgasm; you won’t have doubts at all».

Today I found myself remembering this piece of reading I appreciate so much, and I thought «how simple it would be if everything in life was like this». Because I have been marveling with doubt:

When do we know that something has already given you what it had to give?

_______________________
¹ Maria is a generic Portuguese magazine aiming its content especially to women.

13 de março de 2013

Será que alguém adivinhou? | Did anyone guess it?

E a propósito da adivinha lançada...
And on the purpose of the tossed riddle...


...o Diogo e a Audrey apostaram em Rita.
...Diogo and Audrey bet on Rita.

Ficava bem, é certo.
It would look good, certainly.

A Laura arriscou primeiro com Romance, mas corrigiu mais tarde para Rosa.
Laura ventured first with Romance, but later she corrected to Rosa.

Eu sou realmente uma flor, mas...
I'm definitely a flower, but...

A Gata e a Wallis arriscaram com Raquel.
Gata and Wallis risked in Raquel.

Também calhava bem.
It would also fit well.

A Wallis, ainda indecisa, jogou também com Rute.
Wallis, still unsure, played also in Rute.

Oh dear, não gosto nem um bocadinho!
Oh dear, I don't like it at all!

A Marafada pleiteou com Realizada.
Marafada pleaded with Realizada.

É uma boa hipótese, mas duvido que algum dia esta hipótese seja contextualizada.
It is a good shot, but I doubt that someday this hypothesis gains context.

Se é para jogar, então lançam-se vários trunfos. Foi o que fez a Ana : defendeu Ricarda, Roberta e Rapunzel.
If the purpose is to play, so you must handle various trumps. That’s what Ana  did: she defended Ricarda, Roberta and Rapunzel.

Não jogo voleibol, nem sou brasileira. :-)
I don't play voleyball, and I'm not brazilian. :-)

Com amigas assim, Ana... ;-)
With friends like that, Ana... ;-)

Não me importava pelo cabelão.
I wouldn't mind because of the long hair.

O Icetruckkiller [gosto do alter-ego, mas assassino por assassino, prefiro o Trinity], defendeu Rafa de Rafaela.
Icetruckkiller [I like the alter-ego, but killer by killer, I prefer Trinity], defended Rafa of Rafaela.

Cá em casa há uma Rafa, mas não sou eu. Vê-a aqui.
Here at home there's a Rafa, but I'm not it. See her here.

A a.i. ficou indecisa e decidiu não jogar.
A.i. stuck in doubt and decided not to play.

Vamos jogar às adivinhas? | Let's riddle!



R. stands for?

12 de março de 2013

Aquele momento (3) | That moment #3


This post has no translation, once it has to do with portuguese orthography. Please come back here another time. Thank you .¸¸.*

11 de março de 2013

Umbilicalidades ou...

Ontem ouvi o J. emitir uma sonora gargalhada. Ele não é de riso assim tão fácil, por isso apressei-me a saber o motivo do júbilo: aconteceu, portanto, que ele quis visitar este blog, e googlou “Umbilicalidades da R”. E o que é que o Google retorquiu de imediato?

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Não pude evitar rir efusivamente também. E pensei: «É!, às vezes não passa realmente disso mesmo».

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O meu ódio de estimação | My pet hate


O meu chefe não é só idiota; é um perfeito imbecil.
O meu chefe não é só parvalhão; é um absoluto obtuso.
O meu chefe não é só ignorante; é um total néscio.
O meu chefe não é só pateta; é um completo mentecapto.
O meu chefe não é só tolo; é um totalitário psicótico.
O meu chefe não é só palerma; é um exemplar bipolar.
O meu chefe não é só absurdo; é um digno inepto.
O meu chefe não é só inábil; é um rigoroso incapaz.
O meu chefe não é só contraditório; é um duro ilógico.
O meu chefe não é só bobo; é um cru simplório.
O meu chefe não é só mentiroso; é um severo farsante.
O meu chefe não é só totó; é um sério palhaço.

Dizem que a natureza é perfeita; o meu chefe é a prova viva de que isso não é verdade.


O meu chefe às 8h00 da manhã.
My boss at 8:00 am.

My boss is not only stupid; he is a perfect imbecile.
My boss is not only asshole; he is an absolute obtuse.
My boss is not only ignorant; he is a total fool.
My boss is not only goofy; he is a complete moron.
My boss is not only foolish; he is a totalitarian psycho.
My boss is not only bamboozled; he is a copy bipolar.
My boss is not only absurd; he is a worthy inept.
My boss is not only awkward; he is a rigorous incapable.
My boss is not only contradictory; he is a hard illogical.
My boss is not only silly; is a crude simpleton.
My boss is not only liar; he is a strict fraud.
My boss is not only geek; he is a serious clown.

They say that nature is perfect; my boss is the living proof that this is not true.

10 de março de 2013

Preocupa-me o estado da nação... | I am concerned about the state of the nation...


...e nem sequer é pelo crescente e assustador número de desempregados, pelo constante incremento do défice orçamental, pelo ainda relevante número de analfabetos, ou porque cada vez mais estamos na rota de desastres naturais.

Preocupo-me quando vejo uma notícia que fala de uma menina de 11 anos a dormir ao relento à porta do Pavilhão Atlântico há pelo menos 2 dias, outra de 15 anos que já ostenta 6 tatuagens no corpo por referência ao ídolo, e uma criança de 6 anos que chora como se não houvesse amanhã. Tudo por causa do concerto de Justin Bieber no nosso país.

Senhores pais e mães de crianças / adolescentes / jovens, o que me preocupa é a vossa autêntica desresponsabilização na educação daqueles que virão a ser os nossos profissionais de futuro, quem sabe governantes. Se não sabem mais, instruam-se!


...and it isn't even because of the growing and scary number of unemployers, the constant increase in the budget deficit, the still relevant number of illiterates, or because we are more and more on the route of natural disasters.

I worry when I watch a news story that speaks about an 11 year old girl who is sleeping under dew outside Pavilhão Atlântico for at least 2 days, another 15 year-old girl that already displays six tattoos on her body referring to her idol, and a 6 year-old crying as if there was no tomorrow. All because of Justin Bieber's concert in our country.

Dear dads and mums of children / teenagers / young peoplo, what worries me is your genuine freeing from responsibility when educating those who will be our future professionals, who knows rulers. If you do not know more, educate yourself!