10 de março de 2013

Este post tem bolinha vermelha no canto superior direito | This post has a red dot in the upper right

«Ufa, a água está p'ó frescote!»
«Uff, the water is nipping!»

«Já chega de ir buscar o pau.»
«Enough fetching the stick.»

«Tanta água, e nada para beber!»
«So much water, and nothing to drink!»

«Eu gosto muito de brincar, mã, mas já não sou um jovenzinho.»
«I love to play, mum, but I'm no longer a young man.«

«Oh, afinal acho que vou ali brincar.»
«Oh, it looks like I'm going to play over there.»

«Olá, estranho!»
«Hello, stranger!»

«Eh pah, que brincadeira é essa?»
«Hey you, what game is this?»

«Não gosto dessas tendências...»
«I don't like those trends...»

«Ainda agora nos conhecemos...»
«We've just met...»

«Ah, é isso? Ok, ok, há sempre uma primeira vez!»
«Oh, that's it? Ok, ok, there's always a first!»

«Pronto, já chega. És apegado como as gajas...»
«Ok, that's enough. You're needy like chicks...»

E no final, nem trocaram números de telefone!!!
At the end, they didn't even exchange phone numbers!!!

9 de março de 2013

Eu ou um velho apeadeiro | Me or an old halt

Acordei hoje com uma enorme sensação de impotência. Há dias assim! Os cheiros, as cores, as texturas, os sabores… Tudo parecia tão enraizado, tão impossível de ser transformado. Nem tentei lutar contra o improvável. Saí!

O cabelo desgrenhado caía desajeitadamente sobre os ombros. As roupas velhas tresandavam a mofo. Aos sapatos gastos não era oferecido qualquer atrito pelas pedras da calçada. Passo após passo, conduzida pelo instinto, fui seguindo na direcção das respostas às minhas perguntas. Não posso afirmar tê-las encontrado, mas quando reparei naquela estação velha, a perder o estatuto para um simples apeadeiro, uma força estranha impeliu-me a descobrir-lhe o interior.

Lá dentro vi velhos que esperavam o fim dos seus dias. Sentados, conversavam sobre tudo e sobre nada. Riam em atitude despreocupada, pois estes vivem já com o descrédito no dia de amanhã. Já não acreditam que um dia melhor virá! Consegui ver para lá do que me foi permitido ver. Cada ruga fazia-me adivinhar o peso do mundo carregado para lá do olhar. Não evitei que uma ou duas lágrimas caíssem.

Saí daquela sala de espera feia, escura e com cheiro impregnado de urina, para vir descobrir os trilhos gastos. Os bancos de madeira estavam velhos e pouco seguros. Ainda assim não hesitei em ocupar o único que estava vazio. Antes de me sentar raspei um fósforo na parede até que este incendiasse de amarelo-fogo. Este foi um gesto demorado. Só depois percebi porquê: as paredes estavam cobertas com azulejos que mostravam costumes de antigamente. Por uns segundos desejei ter vivido nos dias de ontem. Os de hoje são demasiado ingratos. Infelizes as gerações vindouras…

Acendi o cigarro, olhei à minha volta, e detive o olhar num casal de adolescentes que namorava às escondidas, atrás de uma carruagem ferrugenta e abandonada. Não impedi que uma gargalhada cúmplice fosse solta dos meus lábios em direcção aos seus ouvidos. Aperceberam-se da presença de olhares alheios e correram de mãos dadas.

Sentei-me. Não tardou que aparecesse um comboio velho que transportava pessoas velhas. Detive-me naquele lugar todo o dia. Vi o comboio transportar a mesma carruagem inúmeras vezes. Durante tantas horas, o comboio percorreu o mesmo trilho, como se não pudesse mudar a sua rota.

Então levantei-me e caminhei em direcção a casa. Havia encontrado possíveis respostas:

* Os velhos personificam o meu ego naqueles dias em que só me apetece desaparecer, nos dias em que até respirar é um exercício pesado, nos dias em que grito aos 4 ventos que não desejo mais viver. * Os azulejos pintam a enorme vontade que me inunda mais vezes do que seria de desejar de voltar ao passado e lá viver; é o mais inconsciente desejo de voltar à infância quando tudo era tão simples como contas de somar 2 + 2 = 4.

* O casal apaixonado é um retrato do meu imo naqueles dias em que me encontro em inexplicável êxtase. Sou eu com uma enorme vontade de virar os meus dias ao contrário e viver a vida dos que sorriem.

* O comboio foi a imagem que me tirou do estado de inércia: aquela carruagem sou eu, insistindo trilhar os mesmos caminhos, desiludindo-me quando não encontro algo de novo. Mas esta carruagem pode ainda decidir mudar de rota!

Agora percebo: tenho de me libertar das cordas que me detêm na busca do sorriso perdido. Tenho de seguir uma estrada diferente da que piso…


Today I woke up with an overwhelming sense of powerlessness. There are days like this! The odors, the colors, the textures, the flavors… Everything seemed so rooted, so impossible of being transformed. I didn’t even bother to fight against the improbable. I went out!

The shaggy hair fell awkwardly on my shoulders. The old clothes stank of mold. The worn shoes were not offered any friction by the paving stones. Step by step, driven by the instinct, I went straight to the answers of my questions. I cannot claim to have found them, but when I noticed that old train station, loosing status to a simple halt, a strange strength impelled me to discover its inner.

Inside I say old people waiting for the end of his days. Seated, they talk about everything and about nothing at all. They laugh with a carefree attitude, because they already live with disrepute on tomorrows. They don’t believe anymore that a better day will come! I managed to see beyond what I was allowed to see. Each wrinkle made me guess the weight of the world loaded beyond their look. I did not that I avoid one or two tears from falling.

I left that ugly, dark space, impregnated with the smell of urine, to come discover the shabby rails. The wooden benches were old and unsafe. Even so I did not hesitate to occupy the one that was empty. Before sitting down, I scraped a match on the wall until it burned down in yellow-fire. This was a slow act. I only understood why then: the walls were covered with tiles depicting ancient costumes. For a while I wished I had lived in the days of yesterday. Those of today are too ungrateful. Unfortunate are the future generations…

I lit a cigarette, looked around, and stopped to stare a couple of teenagers who was secretly dating behind a rusty and abandoned chariot. I did not stop an accomplice laughter leaving my lips towards their ears. They became aware of the presence of unfamiliar looks and ran hand in hand.

I sat. It didn’t take long to appear an old train carrying old people. I stood there all day. I saw the train carrying that same carriage numerous times. The train travelled the same path during lots of hours, as if it could not change his route.

Then I got up and walked towards home. I may have found possible answers:

* The old people personify my ego on those days when I just want to disappear, on the days when even breathing is a heavy exercise, the days I scream I do not wish to live anymore.

* The tiles paint the urge need that floods me more times than I would want to, to go back and live in the past; it is the most unconscious desire to return to my childhood, when everything was as simple as two plus two equals four.

* The couple in love is a picture of my inner self on those days when I find myself in an unspeakable ecstasy. It is me with a huge desire to turn my days around and live the life of the ones that smile.

* The train was the picture that got me out of a state of inertia: that carriage is me, insisting on treading the same paths, disillusioning myself when I don’t find something new. But this carriage can still decide to change the route!

I understand now: I have to get rid of the strings that hold my search for the lost smile. I have to follow a different road from the one I step on…

Rafa e Sebastião ou Um Perfeito Serão de Sexta-Feira | Rafa and Sebastião or A Perfect Friday Soirée

Às vezes penso que devia apostar mais na vida social, sair mais, divertir-me mais, estar com amigos, jantar fora, ir ao cinema, aculturar-me, curtir a minha juventude tardia. Mas depois olho para eles e penso «haverá melhor programa?».

Sometimes I think that I should have a more intense social life, go out more often, I should enjoy myself more, have friends around, dinner out, go to the movies, acculturate me, enjoy my late youth. But then I look at them and I wonder «is there a better program?».


[TGI Friday, they say.]
Rafa e Sebastião enquanto fingem que não são sociopatas.
Rafa and Sebastião pretending they're not sociopaths.

8 de março de 2013

Este post não é sobre o Dia da Mulher | This post isn't about Women's Day

Às filhas que a Natureza me arrancou do ventre, às minhas futuras filhas, à minha mãe, à minha segunda mãe, à minha liiiiiiiiiiiiinda sobrinha e afilhada, às minhas avós, à minha madrinha, às minhas tias, às minhas primas, às primas das minhas primas, às minhas cunhadas, às potenciais noras, quem sabe às minhas netas, às minhas amigas, às amigas das minhas amigas, às bloggers por esse mundo fora, às mulheres que encontrei e de quem gostei, às outras que me foram indiferentes, e mesmo àquelas que me foram amargas: não tenho vontade de vos desejar um feliz Dia da Mulher. Queria antes lembrar que somos nós o engenho da humanidade, e que por isso merecemos os 365 dias de calendário.

To the daughters that Nature pulled out of my womb, my future daughters, my mother, my second mother, my beautiful niece and goddaughter, my grandmothers, my godmother, my aunts, my female cousins, the female cousins of my cousins, to my sisters-in-law, to the potential daughters-in-law, who knows to my own granddaughters, my female friends, the female friends of my friends, to the female bloggers of the world, to the women I once knew and whom I liked, to the ones that were indifferent to me, and even the ones that were bitter to me: I don’t feel like wishing you a happy Women’s Day. Instead, I’d like to remember that we are the humanity resourcefulness and, because of that, we deserve the 365 days of the calendar.

7 de março de 2013

Ficcionismo Pessoano | Pessoan Fictionism

Se Pessoa tivesse um blog chamar-se-ia «Eu nos outros» ou «Os outros em mim». O blog teria como temas a vida, o amor e a ventura, e o seu principal seguidor seria Mário de Sá-Carneiro. Almada Negreiros abriria uma conta no GMail só para o poder comentar. Ofeliazinha lê-lo-ia enamorada, encontrando em cada palavra o conforto emocional que apagasse o ímpeto insaciável com que ele a deixaria em encontros pessoais.

Se Pessoa tivesse um blog escreveria sobre como os astros comandavam a sua vida e atrasar-se-ia na resposta aos comentários. Convidaria Alexander Search para traduzir as suas postagens em Inglês. Álvaro de Campos seria activo postador para preencher os dias vazios de emprego, e escreveria sobre o opiário oriental. Teria mulheres histéricas como comentadoras, e sentir-se-ia enlouquecido de prazer. Ricardo Reis aceitaria ser intruso no blog, e enviaria sobretudo crónicas do Brasil, e exercícios de auto-conhecimento e estoicismo. Caeiro, homem simples e de pouca instrução, teria dificuldades em criar o seu perfil no blogger, e apareceria apenas de quando em vez, nos dias em que o frio o impedisse de sair com o rebanho. Bernardo Soares seria também desafiado a ser membro, e após meses de pragmatismo renunciante, aceitaria com algo a acrescentar. Escreveria fragmentos quotidianos, e eu ansiaria pelos dias em que decidisse brindar-me com a sua presença. Clarinha pediria a Pessoa que digitalizasse os seus desenhos de flores, e Ivo Vieira seria activo homossexual em referências fálicas. Érica Carina, eterna antítese deste último, apareceria uma só vez para nos oferecer a sua morada e seus préstimos, e Aurélio dos Anjos viria dar conselhos sobre a intolerância à lactose e a demolha de bacalhau.

Se Pessoa tivesse um blog sentar-se-ia com o seu notepad à mesa d’A Brasileira, e dactilografaria com a mão direita, enquanto a esquerda ergueria o chapéu em jeito de cumprimento às transeuntes apressadas. Olhá-lo-íamos em desdém, fraca figura de estranheza, ignorando a inquestionável genialidade que haveria de oferecer à humanidade. Se Pessoa tivesse um blog o seu arquivo chamar-se-ia “A Arca”, e a sua última postagem diria apenas «I know not what tomorrow will bring».



If Pessoa had a blog it would be called «Me in the others» or «The others in me». The themes of the blog would be life, love and chance, and his main follower would be Mário de Sá-Carneiro. Almada Negreiros would open a GMail account just to be able to comment. Ofeliazinha would read it in love, finding in each word the emotional comfort to erase the insatiable urge which was left in her after personal encounters.

If Pessoa had a blog he would write about how stars would impel his life, and he would be late answering to its comments. He would invite Alexander Search to translate his posts in English. Álvaro de Campos would be active playwright, so he could fill in his days without a job, and he would write mainly about his trip to orient. He would have hysterical women commenting, and he’d feel mad with pleasure. Ricardo Reis would accept to be an intruder in the blog, and he would mainly send chronics from Brazil, and exercises of self-knowledge and stoicism. Caeiro, a simple man with little education, would find it difficult creating a blogger profile, and would only show up from time to time, in the days when cold prevented him from leaving with the flock. Bernardo Soares would also be challenged to become a member, and after months of resigning pragmatism, would accept with something else to offer. He would write fragments of his daily life, and I’d long for the days in which he’d offer me the pleasure of his presence. Clarinha would request that Pessoa digitalized her flower draws, and Ivo Vieira would be active making phallic references. Érica Carina, eternal antithesis of the latter, would only show up once to offer us her address and her subservience, and Aurélio dos Anjos would come to give advices about lactose intolerance and cod soaking.

If Pessoa had a blog he would seat with his notepad on a table in A Brasileira and type with his right hand, while the left would lift his hat greeting the passersby. We would look at him with disdain, given his weak figure of strangeness, ignoring the unquestionable geniality he would offer humanity.

If Pessoa had a blog his archive would be called “The Ark”, and his last post would only say «I know not what tomorrow will bring».

6 de março de 2013

Aquele momento (2) | That moment #2


Translation:
That moment when we feel like calling our boss ignoble because his interpretation of a clean desk assumes the impossibility of having a pencil case on the top of it. 

5 de março de 2013

Hoje, para algo completamente diferente... | Today, for something completely different...

…gostava de receber e não dar. O quê? Desafio cada um dos que lerem este pequeno post a deixar uma sugestão de um blog simpático, com conteúdo, de gente que tem realmente algo para oferecer à blogosfera, alguém que veio dar um bom acrescento aos nossos / vossos dias. Em 21 dias de retorno a este pequenino grupo de janelas já descobri muitas páginas interessantes, já li pessoas muito peculiares, já ri e senti arrepios. Mas tenho ânsia de descobrir mais. Já aqui perguntei quem vos inspira; por ora gostava de saber quem vocês “devoram”.


…I’d like to receive instead of giving. What am I talking about? I challenge each reader of this little post to give me a suggestion of a nice blog, with content, of someone that really has something to offer the blogosphere, someone that came to add something to our / your days. 21 days after returning to this little group of windows I’ve already found a bunch of interesting pages, I’ve read very peculiar people, I’ve laughed and shivered. But I’m thirst for discovering more. I’ve already asked who inspires you; right now I’d like to know who you “engulf”.

Às cegas: a experiência | Blindly: the experience


Primeiro senti calafrios de ansiedade. Depois tremores de curiosidade. A seguir uma esfusiante vibração de desassossego. Ainda alguns arrepios de medo. A adrenalina… Não voltei atrás. Estava decidida a deixar que o desconhecido me invadisse, me usasse a seu bel-prazer. Queria sentir o inebriante gozo da novidade, conhecer pelo toque e pelo cheiro os que comigo partilhavam da experiência. Queria. E ao mesmo tempo temia.

Assim, sem tabus ou preconceitos.


Primeiro falaram comigo, pediram que eu confiasse. E eu confiei. Mas também percebi que nada estaria sob o meu controle, que teria de deixar-me levar por todas aquelas mãos a todos os lugares onde queriam que eu fosse. E eu não sabia onde ia.

Colocaram-me a venda, e eu fui. Guiaram-me por sons, deixaram-me tocar em que estava à minha frente. Fui, pé ante pé, reconhecendo o lugar sob todos os outros sentidos, mas completamente cega, às escuras. Tocavam-me se eu desse um passo em falso, mas deixaram-me descobrir por mim. Não sei de que cor eram as paredes, mas senti a sua textura, os cheiros que lhe estavam impregnados. Queriam que eu me embriagasse sofregamente nos meus sentidos. E de êxtase, perdi-me..

Ouvi risinhos tímidos e nervosos, e percebi que não estava sozinha. Mais alguém, gente, muita gente, também dançava ao acorde dos sentidos, cheirando, tocando, escutando, saboreando. Os minutos foram correndo sobre o relógio, correndo sobre os nossos ombros, massajando os nossos arrepios. Libertá-mo nos, gozámos da liberdade de não ver, nem ser vistos.

No fim de contas, correu tudo bem, e a experiência foi sensorialmente entusiasmante. Se nunca experimentaram, façam o vosso próprio Jantar às Cegas.

4 de março de 2013

Que dia é hoje? | What day is today?

Hoje estava a ler isto...


...e senti necessidade de olhar para o calendário de imediato. De repente pensei estar na década de 50 do século XX.


Today I was reading this...

«XXXXXXX signed the agreement to join the Business Forum for Equality, a compromise through which member companies agree to develop actions to promote gender equality. Companies start to incorporate into their management strategies the values of equality between men and women, a commitment to promote equality of job opportunities.»

...and I felt the need to look at the calendar immediately. Suddenly I thought I was in the 50ies of the 20th century.

3 de março de 2013

Às cegas | Blindly


Esta noite vou estar de olhos vendados. Vou poder usar as mãos, o nariz, o ouvido e a boca. Vou aprender a utilizar todos os expedientes da minha fantasia e memória, e deixar-me conduzir por uma experiência puramente sensorial. Vou querer ser penetrada por uma beleza sensual e sensitiva, e aprender a dominar as minhas emoções. Vou sentir o sorriso do outro, mesmo sem lhe poder pousar o olhar. Vou explorar os meus sentidos e embriagar-me de deleite. Vou sorver o que quiserem oferecer-me e registar na lembrança cada um dos arrepios que vou decerto sentir. Esta noite vou e não sei a que horas venho.


Tonight I’m going to be blindfolded. I’ll be able to use my hands, my nose, my ear and my mouth. I’m going to learn how to use all the functionalities of my fantasy and my memory, and let me be driven through a purely sensory experience. I’ll want to be penetrated by a sensual and sensitive beauty, and learn to dominate my emotions. I’ll feel the smile of the other person, even if I can’t lay my eyes in it. I’ll explore my senses and get drunk by delight. I’ll swallow up what I’ll be offered and register on my remembrance each shudder I’ll certainly feel. Tonight I’m gonna go and I don’t know what time I’ll be back.